Gadfly

Pode ser prematuro apostar em impeachment no Brasil, diz coluna da Bloomberg

Um processo de impeachment provavelmente será demorado e, mesmo com os protestos, não se sabe se Dilma terminará seu mandato

(Bloomberg) — Existe um velho ditado no mercado de ações: compre o rumor, venda o fato. Os investidores no Brasil vêm fazendo o oposto. Enquanto manifestantes exigem o impeachment da presidente Dilma Rousseff, os estrangeiros compradores de ações e bonds adquirem mais e mais papéis brasileiros e estão prontos para aumentar as apostas. Há poucas semanas, a crise política os convencia a vender.

No entanto, um processo de impeachment provavelmente será demorado e, mesmo com os protestos, não se sabe se Dilma terminará seu mandato. Há três possibilidades de a presidente perder o cargo — o que parece ser a expectativa dos investidores estrangeiros. A única forma rápida é a renúncia, algo que Dilma disse várias vezes que não ocorrerá.

Na quinta-feira, o Congresso retomou o processo de impeachment, que estava parado havia meses, formando uma comissão para recomendar se a Câmara dos Deputados deve votar pela remoção de Dilma do cargo. A comissão tem 15 sessões (e as comissões da Câmara não necessariamente se reúnem todos os dias da semana) para ouvir a defesa de Dilma e chegar a uma conclusão. Parlamentares leais ao governo provavelmente atrasarão o processo, talvez por meses.

A terceira rota é menos política, mas não é mais rápida. O Tribunal Superior Eleitoral investiga desde o ano passado se foi usado dinheiro oriundo de corrupção na eleição de Dilma em 2014. O governo Dilma nega qualquer irregularidade. Pedidos similares envolvendo prefeitos e governadores levaram mais de um ano, em média.

Quando o processo judicial ou o de impeachment terminar, os protestos poderão ter diminuído e as reviravoltas ao longo do caminho poderão gerar manchetes indicando que Dilma terminará seu mandato. Essas notícias poderiam causar impactos no Ibovespa e na taxa de câmbio.

O Brasil não está necessariamente barato. A razão preço/lucros futuros do Índice Bovespa está em 14,1, quase um desvio padrão acima da média de cinco anos, de 11,9. A taxa de câmbio se aproximou recentemente da média móvel em 55 semanas, um nível de resistência importante que foi ultrapassado — por curtos períodos – pouquíssimas vezes nos últimos cinco anos.

Os investidores querem aproveitar uma eventual disparada dos ativos brasileiros desde o começo. Mas correr para o Brasil na esperança de que a revolta popular se traduzirá em mudança política pode se desdobrar como uma tentativa de pegar uma faca no ar.

Esta coluna não necessariamente reflete a opinião da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Especiais InfoMoney:

As novidades na Carteira InfoMoney para março

PUBLICIDADE

André Moraes diz o que gostaria de ter aprendido logo que começou na Bolsa