Planos econômicos: vale a pena olhar o passado antes de decidir o futuro

Muitas lições podem ser tiradas dos planos econômicos fracassados, o que pode ajudar na escolha do melhor candidato

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SÃO PAULO – Hoje em dia é muito fácil criticar a política econômica do governo, já que muitos dos objetivos propostos não foram atingidos e a economia brasileira ainda não conseguiu entrar em um ciclo de crescimento sustentado, combinando a estabilidade de preços com o aumento do poder aquisitivo da população.

Porém, para quem se lembra da situação antes do Plano Real, é inegável que tivemos muitos progressos nos últimos anos, principalmente no que diz respeito ao controle da inflação. Para quem tinha uma situação de fraco crescimento da economia e inflação descontrolada, que chegou a bater 80% ao mês, pelo menos um dos “males” que afligia o brasileiro foi resolvido.

Plano Real não adotou “fórmulas mágicas”

A grande diferença do Plano Real em relação aos planos anteriores foi que ele não utilizou fórmulas mirabolantes, mas conceitos de economia já adotados em outros países e que têm aceitação internacional. Foi provavelmente o primeiro plano a não adotar a postura de que “o problema do Brasil é diferente”, atacando de frente muitos problemas que os outros não queriam enfrentar.

Quem passou pelos planos anteriores deve se lembrar dos “fiscais do Sarney”, resultado da aplicação da política de congelamento forçado de preços. Infelizmente fixar preços não dá certo, pois os preços não são nada mais do que o resultado da quantidade oferecida e do total demandado. Dentro do modelo econômico moderno, é loucura fixar preços, pois isso sempre leva a um desequilíbrio, onde temos mais vendedores do que compradores ou vice-versa. Quem não se lembra das filas na época do Plano Cruzado…

Pior ainda foi a seqüência de planos do governo Collor, possivelmente os mais absurdos e mais incongruentes da farta história de planos fracassados no Brasil. O famoso confisco, que reduziu boa parte dos brasileiros a uma situação de miséria provisória e mesmo assim não conseguiu resolver o problema da inflação é um bom exemplo do que um governante despreparado, e sem compromisso com um partido forte, pode fazer.

Estes são apenas dois dos planos anteriores ao Plano Real, mas poderíamos escrever um livro sobre planos econômicos fracassados lançados por governos sem o menor conhecimento de como funciona a economia. Infelizmente, porém, este é um risco que corremos em 2003…

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Redução de gastos públicos e abertura da economia

Além do controle da inflação, que foi obtido através da fixação do câmbio, que, diga-se de passagem, ficou fixo por tempo demais e gerou a crise do início de 1999, o Plano Real trouxe vários efeitos positivos sobre a economia.

Em primeiro lugar, a redução da máquina estatal e as privatizações conseguiram reduzir o desequilíbrio das contas do governo, o que é absolutamente vital para um plano econômico bem sucedido. Não adianta tentar elevar o salário mínimo a R$ 500,00 e estourar o orçamento público e quebrar a Previdência Social! Neste sentido, o maior defeito do Plano Real foi que o governo acabou se acomodando, principalmente no segundo mandato, e não conseguiu reduzir ainda mais este desequilíbrio, contudo, em parte esta culpa deve ser dividida com o Congresso, que por inúmeras vezes se recusou a aprovar medidas importantes neste sentido, como as reformas da Previdência Social, por exemplo.

Apesar das muitas críticas, a abertura da economia foi fundamental. O crescimento de longo prazo da economia depende do aumento da produtividade. E isto não pode ser conseguido com computadores obsoletos ou empresas que vivem se escondendo na ineficiência, como certas organizações industriais brasileiras ainda pregam.

A questão de aumento de produtividade é importante porque é através do crescimento da produtividade que as empresas lucram mais, e conseqüentemente tem mais recursos para investir nas suas atividades, com efeitos positivos sobre o nível de emprego da economia, e como não poderia deixar de ser sobre o poder aquisitivo dos trabalhadores.

Erros foram cometidos, mas rumo é correto

Embora o Plano Real e a política econômica do governo aplicada desde então tenham deixado muitas questões em aberto, o rumo que a economia brasileira seguiu nos últimos anos é o correto. Se existem problemas, a grande maioria deles é resultado do fato das reformas terem andado devagar demais, ao invés de rápido demais.

Infelizmente não existem fórmulas mágicas para resolver os problemas. A economia é, de certa forma, como a medicina. Existem médicos, que aplicam conceitos científicos e testados e que dão certo na maioria dos casos, ao mesmo tempo em que existem curandeiros, que procuram soluções “alternativas”, que geralmente iludem as pessoas e não fazem nada para resolver o problema, mas têm um efeito perverso no longo prazo, pois deixa o paciente exposto à doença por mais tempo.

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É importante não repetir os erros

Não adianta tentar o caminho do “curandeirismo econômico”, como já foi provado pelo fracasso de uma longa seqüência de planos econômicos no passado. Infelizmente, porém, alguns candidatos atuais ainda tentam buscar soluções milagrosas que não fazem nenhum sentido econômico, mostrando total desconhecimento dos erros do passado e de como funciona uma economia moderna.

A responsabilidade dos brasileiros agora é saber escolher o melhor caminho, embora as alternativas sejam longe do ideal, para que possamos melhorar nosso futuro. Para isso, às vezes vale a pena olhar para trás e comparar situações que já vivenciamos, buscando evitar repetir os mesmos erros. O caminho para resolver o problema econômico do Brasil é tortuoso, mas nós sabemos que quando objetividade e talento se juntam, a possibilidade de obter bons resultados aumenta.

Que o exemplo da Seleção na última Copa sirva de lição…