PF desarticula esquema de venda ilegal de crédito de carbono para multinacionais

Esquema envolveu apropriação criminosa de terras públicas da União no interior do Amazonas, por meio de uso de fraudes na titulação de propriedades gigantescas por mais de uma década

Reuters

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BRASÍLIA – A Polícia Federal deflagrou, na quarta-feira (5), uma operação para desarticular uma organização criminosa suspeita de vender ilegalmente R$ 180 milhões em créditos de carbono provenientes de áreas públicas griladas para multinacionais e grandes empresas brasileiras.
Realizada no Dia Mundial do Meio Ambiente, a operação Greenwashing contou com o apoio da cúpula da corporação em Brasília e buscou cumprir 76 mandados de busca e apreensão e cinco mandados de prisão nos Estados de Rondônia, Amazonas, Mato Grosso, Paraná, Ceará e São Paulo.
A Justiça determinou o sequestro e bloqueio de bens e valores de alvos da operação no valor de R$ 1,6 bilhão, o dano apurado durante anos do esquema criminoso. Foram apreendidos dois aviões, carros de luxo, embarcações, armas, joias e computadores, entre outros bens. A apuração está sob sigilo.
O esquema, segundo comunicado da PF e delegados ouvidos pela reportagem, envolveu em um primeiro momento a apropriação criminosa de terras públicas da União no interior do Amazonas, por meio de uso de fraudes na titulação de propriedades gigantescas por mais de uma década.
A polícia comprovou, com base em documentos e perícias, a grilagem de 538 mil hectares — área equivalente a 3,5 vezes o tamanho da cidade de São Paulo –, avaliada em R$ 820 milhões. O grupo também começou a explorar ilegalmente mais de 1 milhão de metros cúbicos de madeira em tora, com dano ambiental estimado em mais R$ 606 milhões.
Nos últimos anos, segundo os investigadores, o grupo criminoso diversificou sua atuação e, mesmo se valendo do uso de áreas públicas griladas, passou a oferecer e vender crédito de carbono.
O crédito é uma compensação financeira que empresas emissoras de gases de efeito estufa adquirem por meio da compra de títulos, quando excedem um determinado patamar de poluição. A prática já é regulamentada na Europa, mas a iniciativa ainda está em discussão no Congresso brasileiro.
Empresas multinacionais de diversos setores como aviação, tecnologia, petrolífera, mineração e bancário compraram milhões de reais em créditos de carbono de projetos de manejo florestal que haviam recebido uma certificação de uma empresa dos Estados Unidos – espécie de atestado de boas práticas.
Contudo, a investigação da PF apontou que os supostos projetos são meras fraudes porque estão instalados em áreas públicas e de preservação ambiental que, por lei, estariam de todo modo protegidas.
No momento, as empresas não têm qualquer envolvimento com o esquema ilegal.
“As empresas que acabaram efetuando a compra do crédito de carbono entendem que são terceiros de boa-fé”, disse à Reuters o delegado da PF Thiago Marrese Scarpellini, responsável pela operação.
“A empresa não tem como fazer essa verificação se a área onde houve o projeto de crédito de carbono for uma área grilada”, reforçou ele, ao ressaltar que houve o aval de uma certificadora internacional.
O diretor de Amazônia e Meio Ambiente da PF, delegado Humberto Freire, defendeu a aprovação de uma legislação que regulamente o mercado de crédito de carbono no país, determinando papeis dos envolvidos e quem vai fiscalizar as certificadoras.
“Acho importante que a gente avance com isso, que não é uma pauta policial, mas interessa à segurança”, disse.
“Enquanto a gente não tem um mercado regulado, surge essa questão da incerteza ou da insegurança jurídica e aí as certificadoras são essas do exterior”, comentou ele.
Trabalho
Em entrevista no Palácio do Planalto na manhã desta quarta, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva (Rede Sustentabilidade), afirmou que não tinha tomado conhecimento da operação, mas elogiou o trabalho de inteligência da PF.
“Fizemos um esforço muito grande para termos uma lei para regulamentar o mercado de carbono e uma das nossas ambições é que o mercado de carbono brasileiro possa ser confiável, tenha transparência, integridade. Queremos viabilizar algo para ter mais essa oportunidade de meio de proteção de floresta, mas também para melhorar a vida das pessoas que tenham esse ativo”, disse”
“Integridade, transparência, confiabilidade é nosso esforço. Qualquer ação fraudulenta vai na contramão do interesse ambiental social e do próprio interesse econômico.”
Uma das medidas assinadas nesta quarta pela ministra e pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva é a liberação do comércio de crédito de carbono em concessões florestais, uma medida que o governo vê como essencial para aumentar a preservação e também a recuperação de áreas de florestas.