Mais um problema

Petrobras pode se tornar obstáculo ao segundo mandato de Dilma Rousseff

A crise vivida pela Petrobras é apontada por interlocutores como um empecilho ao avanço de negociações importantes dentro da companhia, o que ficou evidente ao longo deste ano

A Petrobras (PETR3;PETR4) pode se tornar o principal entrave ao objetivo anunciado pela presidente Dilma Rousseff de viabilizar o diálogo com o setor produtivo e combater a perda de competitividade da indústria nacional. Envolvida em uma série de escândalos, a estatal petrolífera é considerada por especialistas como peça-chave para proporcionar produtividade a diferentes segmentos da indústria manufatureira nacional, porém o momento delicado pelo qual passa a companhia pode se tornar um obstáculo ao segundo mandato de Dilma, conforme avaliam os profissionais.

A crise vivida pela Petrobras é apontada por interlocutores como um empecilho ao avanço de negociações importantes dentro da companhia. Essa situação ficou evidente ao longo deste ano, quando a realização das eleições presidenciais e as denúncias envolvendo ex-diretores da estatal congelaram discussões a respeito dos combustíveis e insumos comercializados pela empresa.

Encerradas as eleições e mediante o discurso pró diálogo feito por Dilma Rousseff após a vitória eleitoral, a expectativa era de que o diálogo fosse retomado e tivesse novos rumos. O surgimento de mais denúncias, contudo, pode frustrar tais planos. “A empresa hoje vive a situação de apagar incêndios. Antigos diretores estão presos e não se sabe se a presidente (Maria das Graças Foster) fica ou não fica. Sabemos que o gás e o petróleo do pré-sal chegarão, mas não estamos nos preparando para isso”, destacou o executivo de uma empresa cliente da Petrobras, que pediu não ser identificado.

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Maior empresa do País, a Petrobras tem seu nome ligado ao fornecimento da gasolina e do diesel utilizados para abastecer os veículos que circulam nas ruas e estradas, mas sua importância para a economia nacional – e especialmente para a indústria – vai muito além. Ela fornece o óleo e o gás natural que abastecem as usinas térmicas, acionadas de forma ininterrupta para gerar energia em período de falta de chuvas como o atual. O mesmo gás é utilizado como matéria-prima ou fonte de energia para diversas indústrias. A nafta petroquímica que atende as cadeias plástica e química também é fornecida pela Petrobras.

A companhia ainda comercializa o querosene de aviação e os combustíveis marítimos que viabilizam o transporte de cargas no País e tem papel importante na geração de empregos e na balança comercial brasileira. É, também, peça-chave para as operações de uma série de fornecedores de equipamentos e serviços, além de ser o motor da indústria naval brasileira e de ser uma importante cliente das grandes empreiteiras – estas envolvidas recentemente nos mesmos escândalos que afetam a credibilidade da Petrobras.

Há, em praticamente todas essas áreas, interlocutores preocupados com as condições de competitividade das empresas brasileiras. Por isso, a sinalização de diálogo e produtividade industrial dada pela presidente foram tão bem recebidas. E, pela mesma razão, a continuidade dos escândalos envolvendo a estatal surge como um fator de preocupação. Procurada, a estatal não comentou o assunto até a publicação da matéria.

Diálogo?
O presidente da petroquímica Braskem, Carlos Fadigas, destacou em coletiva realizada no início deste mês que as negociações com a Petrobras a respeito de um novo contrato de fornecimento de nafta continuam, porém sem qualquer sinal de desfecho. O contrato antigo, com validade entre 2009 e 2014, venceu em fevereiro passado.

Desde então, foram assinados dois aditivos semestrais, sendo que o mais recente estabeleceu que as condições a serem negociadas em um novo acordo devem ter validade a partir de agosto passado. “Estamos trabalhando com preço em aberto, o que significa uma incerteza crítica para uma empresa industrial”, alertou Fadigas. O contrato de nafta é essencial para definir a competitividade da indústria química nacional.

A Comgás, distribuidora de gás natural que atua no mercado de São Paulo, também faz ressalvas em relação a futuros investimentos. “Aguardamos para saber se teremos incentivo à expansão ou se devemos apenas manter as atuais operações”, afirmou o presidente da Comgás, Luis Henrique Guimarães, em teleconferência realizada também no início do mês. A Comgás reduziu a previsão de investimento no ano de até R$ 780 milhões para até R$ 700 milhões.

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Guimarães alega que precisam ser revistos temas considerados prioritários, como a flutuação do preço dos combustíveis, de forma que eles guardem relação entre eles, e a competitividade do gás natural brasileiro em um momento de queda dos preços do petróleo no mercado internacional. A Comgás também reivindica da Petrobras condições equânimes entre as diferentes distribuidoras de gás natural. A evolução do diálogo sobre esses temas é considerada fundamental para fortalecer o segmento do gás natural e, consequentemente, de setores atendidos pelas distribuidoras.

Extrapolando o universo do fornecimento de combustíveis e insumos, a questão das empreiteiras se ramifica por obras de infraestrutura e pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e também têm relação com a atual situação da Petrobras. Embora, por enquanto, os analistas não antecipem atrasos na execução de projetos em andamento ou de novos investimentos envolvendo as companhias ligadas aos grupos investigados, investidores estão “assustados” com os potenciais desdobramentos da apuração dos fatos e, nesse sentido, a cautela é inevitável.

Além disso, para avançar no programa de investimentos em logística, em especial nos segmentos mais travados, como ferrovias, o governo precisará voltar a discutir as condições dos editais com os potenciais investidores, entre os quais estariam justamente as empreiteiras envolvidas nas investigações.