Fogo cruzado

Petistas fecham cerco a novo ministro e Barbosa pode “encarnar” Levy em 2016

Uma das principais vozes da política econômica defendida por Lula, o senador Lindbergh Farias manteve tom crítico ao ajuste fiscal: "o governo busca o mercado, mas vai acabar sem nada". Em nota, o presidente do partido, Rui Falcão, fala em "frustração"

SÃO PAULO – O novo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, mal assumiu o posto antes ocupado por Joaquim Levy e já começou a ser pressionado tanto pelo mercado, como pela própria esquerda. De um lado, cresce o ceticismo sobre qual será a política econômica adotada pelo novo comandante, que já teve como chefe o hoje manchado Guido Mantega. Por mais que acenos de continuidade ao ajuste fiscal tenham sido feitos pelo novo ministro, os investidores preferem a cautela, no aguardo por ações que provem o compromisso assumidos pelas palavras, que, desde o início já falam em uma ousada reforma previdenciária. Na outra ponta, uma contrariada esquerda enxerga boas oportunidades de ver seu modelo de política econômica sendo aplicado pela presidente Dilma Rousseff, conforme era sinalizado durante a campanha eleitoral do ano passado.

Os acenos iniciais de Barbosa ao mercado, que respondia assustado ao seu ingresso na pasta antes comandada por um ex-diretor do Bradesco, irritaram agentes políticos ligados à esquerda e base social do PT. Em nota divulgada na terça-feira da semana passada, o presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), Vagner Freitas, deu início aos petardos da esquerda ao recém-empossado ministro da Fazenda. No texto, o representante sindical deixou clara sua percepção de que a presença dos trabalhadores foi vital para a permanência de Dilma no poder, e voltou a cobrar a conta de todo o apoio que vem desde as eleições do ano passado, mesmo com diversos pontos de atrito. “Nós não temos dúvida nenhuma que foi por conta da reação do povo nas ruas que o mandato de Dilma não foi cassado este ano. Mas, queremos que fique claro, não existe cheque em branco. O povo quer a Dilma que elegeu”, afirmou. “Agora, novamente no fim do ano, assisto atônito as mesmas cenas do ano passado. Muda o ministro da economia, mas não muda a política econômica. Era justamente isso que temíamos. Isso não vai acontecer”.

Sob o risco de gerar mais desconfiança na classe trabalhadora e perder o apoio que tem, a presidente sofre pressão para mudar a orientação da política econômica. Os principais movimentos de esquerda pedem que o ajuste fiscal seja abandonado e que uma nova agenda de crescimento seja implementada, com juros mais baixos e maior incentivo ao crédito e investimentos em infraestrutura. A demanda pelas maiores cobranças ao chamado “andar de cima” da pirâmide social também só cresceram do começo deste segundo mandato para cá. “2016 só será um ano diferente, se o governo agir diferente. Caso contrário, acredito que o governo não terá a mesma sorte que teve em 2015. Os golpistas estão de plantão com pedidos de impeachment ou renúncia. E as ruas só vão defender o projeto democrático popular se tiverem o que defender”, concluiu o presidente da CUT na carta da semana passada.

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E não foi só. Hoje foi a vez do senador Lindbergh Farias (PT-RJ) — um dos nomes mais críticos à política econômica do novo governo Dilma desde o início do ano, em consonância com as ideias defendidas pelo ex-presidente Lula — atacar as posições inicialmente defendidas por Nelson Barbosa no campo das reformas previdenciárias e trabalhistas. “Será um erro político tremendo. Isso vai colocar contra o governo a CUT, o MST e a base aliada que tanto defende a presidente. O autor dessas ideias, num momento de crise política como esse, realmente merece um prêmio”, afirmou o parlamentar conforme noticiou o portal do jornal O Estado de S. Paulo. Para Lindbergh, o anúncio de medidas que podem cercear direitos adquiridos por trabalhadores e aposentados em um momento de crise econômica pode representar um “suicídio político” para Dilma.

“Tenho falado com o presidente da CUT, com o MST, com toda a base de apoio do governo. As pessoas foram para as ruas contra o impeachment da presidente e receberão, dias depois, uma reforma como essa? Acho que o ministro Nelson Barbosa deveria ter assumido com um discurso pró-crescimento. O governo busca o mercado, mas vai acabar sem nada. Não terá o apoio do mercado e ainda vai perder o apoio dos movimentos sociais”, complementou o senador. Lindbergh concorda que existe um problema fiscal, mas defende que o problema se concentra principalmente no pagamento de juros da dívida.

No mesmo sentido, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, publicou um texto intitulado “Uma nova e ousada política econômica para 2016”, por meio do qual pede o fim das altas de juros e cortes de investimentos, e faz coro aos discursos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, da CUT, do MST (Movimento dos Sem Terra), do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e outros movimentos sociais e sindicais. “Entre o final de 2015 e o início de 2016, o governo da presidenta Dilma Rousseff precisa se concentrar na construção de uma pauta econômica que devolva à população a confiança perdida após a frustração dos primeiros atos de governo”, escreveu Falcão. “Agora que o risco do impeachment arrefeceu, mas sem que as ameaças de direita tenham cessado, é hora de apresentar propostas capazes de retomar o crescimento econômico, de garantir o emprego, preservar a renda e os salários, controlar a inflação, investir, assegurar os direitos duramente conquistados pelo povo”. Em tom mais ameno que o adotado por Lindbergh ou pela CUT, o presidente do partido preferiu concluir reiterando a confiança na capacidade de diálogo da nova dupla econômica Nelson Barbosa e Valdir Simão, para que mudem a política econômica “com responsabilidade e ousadia”.

O posicionamento de agentes representativos da esquerda e o atual comportamento do mercado desenham um cenário complicado para os novos comandantes da Fazenda e do Planejamento. Com tamanha polarização de interesses, será um desafio e tanto conseguir construir consensos mínimos para governar. Na atual conjuntura, Dilma dificilmente teria capacidade de enfrentar o impasse político sem sua base à esquerda, ou com a oposição generalizada dos grandes agentes do mercado. Há grandes riscos de Nelson Barbosa, à sua maneira, sofrer solidão similar à de Joaquim Levy ao longo deste ano. E a manutenção do quadro de fraqueza do Executivo tende a agravar a crise econômica vivida pelo país pela inércia.