Acabou a festa

Pesquisa com 116 gestores revela: rali eleitoral da Bolsa está perto do fim

Diante dos três possíveis desfechos para as eleições, Ibovespa pode subir 11,7%, estacionar nos 59 mil pontos ou despencar 24%, segundo levantamento da XP

SÃO PAULO – Desde 17 de março, dia em que teve seu menor fechamento do ano, o Ibovespa engatou um movimento de alta que já chega a 30%, saltando daqueles 44 mil pontos para os atuais 59 mil pontos – seu maior patamar em 17 meses -, em um movimento chamado de “rali eleitoral“, já que a disparada teve início com a divulgação das pesquisas eleitorais. Se as novidades políticas têm gerado bons “trades” e trazido um pouco do brilho que a Bovespa há muito tempo não mostrava, os grandes “players” do mercado já começam a enxergar um “risco” muito maior que o “retorno” nos 3 prováveis desfechos para a eleição, dando indícios de que esse rali pode estar bem próximo do fim.

Uma pesquisa feita pela XP Investimentos com 116 gestoras e assets mostrou quais as expectativas individuais sobre o “alvo” do Ibovespa dependendo do resultado das eleições – vitória de Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) ou Marina Silva (PSB). A pesquisa era bem “direta ao ponto”: para cada candidato, o gestor escolhia uma das cinco alternativas: 1- abaixo de 40 mil pontos; 2- entre 40 mil e 50 mil; 3- entre 50 mil e 60 mil; 4- entre 60 mil e 70 mil; 5- acima de 70 mil pontos.

O resultado das 116 respostas mostra que, em caso de vitória do Aécio Neves, o “alvo” do Ibovespa estaria na faixa de 65.900 pontos, o que dá um “upside” (potencial de valorização) 11,7% em relação ao fechamento da última quinta-feira (21), dia de divulgação da pesquisa. Caso Marina vença o pleito, o índice da Bolsa deve ficar estacionado em 59.400 pontos. Já em uma reeleição de Dilma, ele mergulharia para 44.700 pontos, o que abre um “downside” de 24,2%.

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A temível conclusão: o “risco-retorno” da renda variável hoje está muito pouco atrativo, já que entre o melhor e o pior cenário traçado pela pesquisa o Ibovespa pode subir 10% ou cair 20% – ou seja, você investe para ganhar 1 com o risco de perder 2. Isso tudo em um mercado onde a taxa básica de juros encontra-se em 11,0% ao ano, o que abre a possibilidade do investidor buscar em 12 meses o mesmo rendimento potencial em bolsa, só que praticamente sem risco.

Resultados para cada candidato
Em caso de reeleição de Dilma, aproximadamente 90% dos respondentes espera que o Ibovespa perca os 50 mil pontos, sendo que 74% enxerga o índice entre 40 a 50 mil pontos e 10% esperam que ele fique acima dos 50 mil pontos. Apenas 1% dos gestores acredita que o benchmark da bolsa brasileira avance para entre 60 mil e 70 mil pontos com a vitória da candidata petista, mostra a pesquisa da XP.

Com Marina Silva sendo eleita, o cenário é mais otimista para bolsa é mais otimista do que com Dilma, com 54% vendo a Bolsa entre 60 mil e 70 mil pontos. Os outros 46% veem o índice abaixo dos 60 mil pontos, sendo 37% apostando na banda entre 50 mil e 60 mil pontos, 8% entre 40 mil e 50 mil e 1% abaixo de 40 mil pontos.

Para Aécio Neves, o cenário é predominantemente otimista: ele é o único candidato na visão dos gestores que, se eleito, pode fazer a Bolsa superar os 70 mil pontos – 40% dos entrevistados escolheram essa alternativa, revela a pesquisa. Metade deles espera ver o índice entre 60 mil e 70 mil, 9% estima uma banda entre 50 e 60 mil pontos e 1% acredita na Bolsa entre 40 e 50 mil pontos em caso de vitória do tucano.

Como Aécio foi o único a ter respondentes falando em Ibovespa acima de 70 mil pontos, a XP explica que neste caso utilizou os 70 mil pontos para o cálculo da média, o que acabou puxando o resultado dele para baixo. Contudo, vale lembrar que Dilma teve 11% dos entrevistados apostando no índice abaixo de 40 mil pontos, o que poderia puxar o “alvo” caso ela seja eleita bem mais para baixo.

Cenário pouco otimista? Sim.. e pode piorar
Se a relação risco-retorno do Ibovespa hoje traz pouco ânimo para aquele investidor que perdeu o começo do rali eleitoral entrar na Bolsa, a maior probabilidade de que o “pior resultado” para a renda variável se torne realidade tira ainda mais o apetite por esse investimento. Embora Dilma tenha visto uma abrupta queda nas intenções de voto entre março e agosto, ela ainda aparece na frente dos seus dois principais adversários no 1º turno e ainda levaria o pleito contra o candidato tucano em um eventual 2º turno – tido pelos gestores como o “melhor presidente para a Bolsa”, levando em conta a pesquisa da XP.

Contudo, a entrada de Marina Silva na corrida presidencial como substituta de Eduardo Campos – que faleceu em um trágico acidente aéreo no último dia 13 – trouxe novos ares para a corrida eleitoral. A última pesquisa Datafolha, divulgada na segunda-feira (18) mostrou Marina com 21% no primeiro turno, contra 36% de Dilma e 20% de Aécio. No segundo turno, Marina aparece na frente de Dilma por 47% a 43%, embora dentro do limite de margem de erro de 2 pontos percentuais para cima ou para baixo. Marina foi confirmada oficialmente na chapa do PSB apenas na noite de quarta-feira, mas o Ibovespa subiu desde sexta-feira passada (15) até a última quinta-feira (21) com o mercado precificando a entrada da nova candidata na disputa.

Se Marina pode desbancar Dilma na corrida presidencial, isso pouco deve impactar a Bovespa daqui pra frente, já que a opinião dos 116 gestores entrevistados pela XP mostra que o Ibovespa está atualmente nos níveis que deveria estar caso a candidata do PSB vença a disputa. O problema é que, se por um lado esse novo cenário aumenta ainda mais as chances de 2º turno, por outro ele dificulta a disputa de Aécio, que agora terá que disputar votos com Marina no 1º turno.

Outro argumento utilizado por muitos gestores e cientistas políticos que pode dificultar a vida de Aécio em um eventual 2º turno está na transferência de votos entre os candidatos: se Marina Silva for para um 2º turno contra Dilma, a grande maioria dos eleitores de Aécio deve transferir seus votos para a candidata do PSB; já numa disputa “Aécio x Dilma”, é pouco provável que a mesma migração aconteça.

Entendendo o rali eleitoral
Em meados de março, o Ibovespa iniciou um movimento de alta que perdura até então, impulsionado principalmente pelas ações de empresas estatais – Petrobras (PETR3, PETR4), Eletrobras (ELET6) – e do setor financeiro – Itaú Unibanco (ITUB4), Bradesco (BBDC4) e Banco do Brasil (BBAS3). A explicação dada pelos especialistas do mercado era que as pesquisas eleitorais começaram a apontar uma queda na popularidade de Dilma Rousseff – até então amplamente favorita para ser reeleita -, aumentando as chances de que um candidato adversário assumisse a presidência na disputa eleitoral.

Uma eventual mudança de governo acabou sendo bem recebida devido ao descontentamento dos investidores da Bovespa com a maneira intervencionista que a atual gestão tem tocado importantes segmentos da economia brasileira. Uma das intervenções mais “sentidas” pelos investidores foi no setor elétrico, onde a implementação de uma medida provisória em 2012 obrigou as empresas a reduzirem suas tarifas.

A Petrobras também tem deixado os investidores atordoados: a empresa não pode reajustar o combustível no mercado doméstico de maneira que ele fique alinhado aos preços internacionais, já que o impacto inflacionário que isso traria colocaria em risco a meta do governo de manter a alta dos preços abaixo de 6,5% no ano. Isso tem provocado sequenciais prejuízos operacionais na área de distribuição da estatal. Somado a isso, os recentes escândalos envolvendo a compra da refinaria de Pasadena, no Texas, tem tido um impacto negativo em termos de imagem da companhia – e consequentemente do governo, seu acionista majoritário.

Nesse período em que o Ibovespa subiu 30%, as ações preferenciais da Petrobras acumularam ganhos de 80% e recentemente alcançaram seu maior patamar em Bolsa desde março de 2012. Eletrobras viu suas ações PNB subirem cerca de 60% e chegarem às máximas desde outubro de 2012. Já os papéis de BB, Itaú e Bradesco avançaram entre 45% e 50% neste período, com todos eles cotados atualmente nos seus maiores níveis históricos.