Personagens: Silvio Berlusconi, cortinas fechadas para a era “bunga-bunga”

Pressão da União Europeia e a má administração no País fez o ex-premiê renunciar com a menor popularidade da história, 22%

SÃO PAULO – Vaidoso. Poderoso. Bilionário. Este é Silvio Berlusconi, o ex primeiro-ministro italiano que mesmo após sua renúncia no último sábado (12), quando apresentou sua carta ao presidente Giorgio Napolitano, ainda será reconhecido por sua habilidade com os negócios e por seu envolvimento em escândalos.

Aborrecido por conta das vaias recebidas após a votação no Parlamento, que culminou em sua renúncia, Berslusconi afirmou que ficou sentido. “Foi algo que me doeu profundamente”, disse ele. Com uma fortuna avaliada em cerca de R$ 10 bilhões, segundo a Forbes, o ex-premiê possui um império de mídia na Itália, além de negócios nas áreas de construção civil e futebol.

Berlusconi foi casado por duas vezes, é pai de cinco filhos e avô de alguns netos. Neste ano, ele se tornou o primeiro-ministro que mais tempo ficou no poder na Itália desde o fim da II Guerra Mundial.

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Da faculdade de direito aos palcos
Nascido em Milão em 29 de setembro de 1936, em uma Itália em processo de reconstrução pós Segunda Guerra Mundial, filho de Luigi Berlusconi, funcionário do Banco Rasini e de Rosa Bossi, dona de casa, Berlusconi experimentou diferentes atividades até se transformar em uma das personalidades mais influentes e poderosas daquele país.

Estudou direito na Universidade de Milão. Ainda como estudante, aos 18 anos, chegou a atuar como cantor (“crooner”) em um navio de passageiros para ajudar a pagar por seus estudos. Foi corretor de móveis e também vendedor de aspiradores de pó no bairro em que vivia. No terceiro ano de faculdade conseguiu um emprego em uma empresa de construção civil, o primeiro passo para que adiante fizesse investimentos neste ramo.

Em 1961, fundou a empresa do ramo de construção civil Cantieri Riuniti Milanese e em seguida, em 1963, a Edilnord di Silvio Berlusconi & Co. Com 23 anos, Berlusconi dirigiu uma equipe de jovens arquitetos e sua empresa foi a responsável pela construção de dois conjuntos residenciais nos arredores de Milão. Começa a nascer o magnata italiano.

O jovem Berslusconi queria mais, e em 1974 comprou seu primeiro canal de televisão. Essa aquisição foi somente o começo do império que começava a se formar, o atualmente conhecido conglomerado de radiodifusão Mediaset, que cresceu a partir de uma rede de televisões locais, que tinha uma programação focada em programas de entretenimento.

Gol de placa
Em 1985, o governo francês concedeu ao já rico e poderoso Berlusconi a sua primeira rede privada daquele país, a La Cing, além de adquirir ações da Chain e Cinema 5. Posteriormente comprou os Estúdios Roma e aquele que atualmente é um dos maiores clubes de futebol do mundo, o Milan, do qual tornou-se presidente.

Anteriormente, em 1975 havia criado o grupo Fininvest e integrou nele as suas muitas propriedades, além de participações na TV, na imprensa, editoras, em empresas de publicidade, seguros e serviços financeiros. Com isso, transformou seu grupo na terceira maior empresa privada da Itália.

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O poderoso Berlusconi nos anos 1990 conquistou a presidência do grupo, além de ser editor do diário “La Repubblica” e dos semanários “L’espresso”, “Época” e “Panorama”. Como ainda tinha espaço para novas aquisições, no final da década comprou rede de vídeos Blockbuster, portais de acesso à internet e uma participação na Olivetti.

O magnata encontra a política
Figura controversa, mas de grande carisma na Itália, Berlusconi, começou a pensar na política em 1993 quando fundou o partido Forza Itália e com um discurso atraente de defesa aos valores tradicionais, liberdade e luta contra a corrupção e redução de déficit público, empolgou o pequeno e médio empresariado e os profissionais liberais italianos.

Perspicaz, conseguiu uma aliança com as forças de direita e conquistou o eleitorado, teve forte e decisivo apoio da televisão e saiu vitorioso nas eleições de 1994. Diante dos primeiros escândalos seguidos por acusações de negócios irregulares, Berlusconi se depara com sua primeira derrota e pede demissão após sete meses como primeiro-ministro. Em seguida, vai liderar o partido de oposição.

Insistente, Berlusconi candidata-se ao governo, mas perde. Em 2001, conquista novamente o posto de primeiro-ministro e já envolvido em diversos escândalos – lavagem de dinheiro, evasão fiscal, corrupção, recebeu duas condenações: por financiamento ilegal de partidos e por corrupção de inspetores fiscais. Foi absolvido em dois casos pelo tribunal de recursos e em outros quatro por prescrição do crime.

Sempre polêmico, em 2003 Berlusconi apoia a guerra dos Estados Unidos contra o Iraque. No ano de 2005, após perder as eleições regionais, renuncia ao cargo. Volta à cena em 2006, porém perde a votação nacional e alega que foi derrotado devido a irregularidades.

Em 2008, depois de unir o seu partido, Forza Itália com a Aliança Nacional é eleito primeiro-ministro pela terceira vez. Até a sua renúncia, foram 17 anos de atuação na política, marcados por escândalos e frases desmedidas que fizeram sua imagem de grande líder italiano se desgastar.

“Bunga bunga”
Mesmo quando começou a ter seu nome envolvido em escândalos sexuais e em meio a grave crise econômica que já abatia a Europa, Berlusconi, mantinha-se preocupado com a aparência, mantendo a pele sempre bronzeada, fazendo “liftings” e implantes capilares.

O premiê nunca teve nenhum escândalo sexual comprovado na corte da justiça, nem mesmo a denúncia mais divulgada de todas, aquela envolvendo uma dançarina menor de idade, na época com 17 anos, conhecida como Ruby (Karima El Mahroug), que o acusou de contratá-la como garota de programa.

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Nesta fase ficaram famosas as festas promovidas por Berlusconi, conhecidas como “bunga bunga”. Em abril deste ano agências internacionais relataram mais uma das polêmicas frases dele, em referência as suas festas sexuais: “Eu registrei ‘bunga bunga’ como uma marca para que eu possa usá-la em todas as regiões da Itália”.

Fim da era “bunga bunga”
Berslusconi não resistiu a pressão da União Europeia e a má administração no País, e renunciou com a menor popularidade da história, 22%. Os escândalos sexuais somados à crise europeia, colocaram a economia italiana no foco, comparado a Grécia.

A carta de renúncia, entregue ao presidente do país, Giorgio Napolitano, ocorreu após a aprovação no Parlamento italiano do pacote econômico de medidas de austeridade. Berlusconi afirmou ter orgulho do trabalho feito no governo. Sem abandonar a vaidade, disse que a Itália pode contar com suas empresas e também com a economia privada das famílias, lembrando que o país tem uma taxa de desemprego abaixo da media da Europa e o maior patrimônio artístico do mundo.