Personagens: Francisco Gros, de menino quieto e tímido a transformador do mercado

Visto como quem possuía eloquência para convencer pessoas, Gros transitou pelas mais diversas instâncias de poder

SÃO PAULO – A história da criança que queria mudar o mundo é um clássico dos contos infantis, mas uma realidade pouco comum na vida cotidiana. De fato, poucos foram aqueles que conseguiram promover mudanças significativas na sociedade – e menos ainda são os que foram reconhecidos por isso. Personagens do Mercado desta vez vai tratar de uma destas crianças que atingiram seus sonhos, e, não sendo o bastante, foi além.

Francisco Roberto André Gros, economista reconhecido internacionalmente, iniciou sua carreira na década de 70 sem saber que entraria para a história da economia nacional. Entre 1972 e 2010, Gros transitou com desenvoltura pelas mais diversas instâncias de poder e trabalhou para abrir a economia brasileira, bem como para renegociar a dívida do País com o Clube de Paris e o FMI (Fundo Monetário Internacional).

Nascido no Rio de Janeiro, em abril de 1943, o menino quieto e tímido que não impunha suas ideias, conforme destacam os amigos, interessava-se por economia e formou-se nesta área pela Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, em 1964 – época de turbulências políticas por aqui.

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A carreira de Gros começou ainda em território norte-americano, em 1972, no banco de investimentos de Wall Street Kidder, Peabody e Company. Mas, foi quando retornou ao Brasil, em 1975, que Gros se revelou um dos grandes economistas brasileiros, como sonhara.

A formação do mercado de capitais
De volta ao seu País de origem, a princípio o economista assumiu a direção da Multiplic Corretora. Pouco depois, a primeira grande contribuição de Gros para a economia brasileira veio em 1980, quando o economista tornou-se diretor da CVM (Comissão de Valores Mobiliários). Ao lado de outros importantes nomes, como Horácio de Mendonça Netto, Emanuel Sotelino Schifferle e Geraldo Hess, Gros contribuiu para formar o mercado brasileiro de capitais. Ele foi apenas o sétimo diretor da CVM, recém criada.

O que marcou o nome de Gros na história econômica do Brasil foi, sem dúvida, sua visão de mercado. Com o mesmo perfil tímido, tranquilo e educado que tinha na infância, Gros conseguia com sua eloquência convencer as pessoas. Embora nem sempre suas ideias fossem amplamente bem recebidas, pois em geral defendiam a tese de que o Estado teria que reduzir sua participação na economia, Gros sabia defender seu ponto de vista com sabedoria e destreza.

Após deixar a CVM, o economista assumiu a direção do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) e a vice-presidência do BNDESPAR, cargos que foram deixados apenas em 1987, quando assumiu a presidência do Banco Central do Brasil.

Abertura da economia, renegociação das dívidas
Foi em sua nomeação pela segunda vez à presidência do BC, em 1991, que Gros pôde desfrutar de sua valiosa visão de mercado para transformar o rumo da economia nacional. Apoiado na tese do capitalismo liberal, o economista foi um dos principais integrantes da equipe econômica que elaborou e conduziu o programa de recuperação e abertura da economia do Brasil no início da década de 1990. 

Depois de uma década de isolamento do mercado mundial, marcada pela elevada inflação e estagnação, a abertura da nossa economia ao exterior e a perspectiva de um crescimento mais consistente da renda per-capita tornaram o cenário muito mais favorável aos investimentos diretos. Também marcando sua importante passagem pelo BC, Gros implantou o regime de colegiado, que delegava poderes aos diretores da instituição. 

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Ainda como presidente do BC, Gros conduziu também as negociações que levaram ao acordo com o Clube de Paris e o FMI, em 1992, para a renegociação das dívidas do Brasil.  O Acordo Geral permitiu a reestruturação de parcela da dívida do setor público, incluindo os vencimentos ocorridos entre janeiro de 1992 e agosto de 1993, e os atrasados até dezembro de 1990, relativamente aos créditos devidos a governos e agências governamentais estrangeiras.

“O acordo, envolvendo 25 agências distribuídas por 13 países, reescalonou a dívida por 14 anos, com carência de 3 anos”, informou o Tesouro Nacional em nota. O Brasil finalmente quitou seus débitos em 2006, durante o primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atual presidente da República.

Cabe mencionar que, ao longo destas conversas para estabelecer tais acordos, o economista conquistou notoriedade e sua posição de competência e respeito entre as autoridades e operadores do mercado financeiro internacional. Depois de ter deixado o BC, Gros assumiu a presidência do BNDES, no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, onde ficou marcada sua gestão pelo modelo produto-cliente, que dava ênfase à atuação do banco no mercado de capitais.

Cena corporativa
Como se não bastasse a imensa contribuição de Gros a frente de importantes instituições como a CVM, o BNDES e o BC, o economista ainda realizou relevantes trabalhos no comando de grandes corporações. Na passagem entre uma destas instituições e outras, na década de 1980, Gros foi diretor do Unibanco e presidente da Aracruz do BFC-Banco.

No último ano de governo FHC, em 2001, Gros, que era presidente da Petrobras na época, se viu em meio a uma polêmica com o então candidato Lula. O candidato criticou a atitude da estatal de licitar três embarcações de grande porte que não poderiam ser construídas por aqui. Gros respondeu que as declarações de Lula mostravam “completo desconhecimento” sobre o assunto.

Mesmo com atritos políticos, o economista não manchou sua imagem frente aos grandes feitos do passado. Em 2007, Gros recebeu um convite para assumir a presidência da OGX Petróleo, braço petrolífero do Grupo EBX, do megaempresário Eike Batista. O economista presidiu por menos de um ano a empresa e se afastou para dedicar-se apenas às representações em conselhos de administração de várias companhias.

A morte de um dos criadores do mercado
Depois de ter contribuído para a formação do mercado de capitais brasileiro, Gros viu sua agitada vida ser abalada por um tumor cerebral em meados de 2008. Mesmo em tratamento, o economista continuou trabalhando do escritório de sua casa. Após lutar por mais de um ano contra a doença, Gros faleceu em 20 de maio deste ano, no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo.

Em nota, o ex-presidente FHC, amigo de Gros, disse que “ele foi um homem íntegro e competente, que teve êxito na atividade privada e, quando serviu ao governo, agiu com responsabilidade pública. Além de perda para o País, eu perdi um amigo”, completou.