Para MCM, risco de contágio e democracia são pontos cruciais no mundo árabe

Mais importante do que discutir queda de Gaddafi, foco está na viabilidade democrática e na situação política da Arábia Saudita

SÃO PAULO – Os conflitos políticos que tomaram conta da Líbia parecem desviar de qualquer tendência. Se anteriormente a situação era totalmente contrária à posição de liderança de Muammar Gaddafi, os eventos mais recentes sinalizam que o ditador vem recuperando sua força após uma série de bombardeios às regiões ocupadas pelos rebeldes. Porém, para a MCM, muito mais importante do que tentar prever o que acontecerá com Gaddafi é analisar como essa instabilidade pode se espalhar para outras regiões, como a Arábia Saudita.

A Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) se reúne nesta quinta e sexta-feira (11) para discutir a questão de uma possível zona de exclusão para o país, conforme já havia sido sugerido anteriormente pela secretária de Estado americana, Hillary Clinton. Para os analistas da consultoria, pouca coisa deve ser definida, uma vez que a Organização deve esperar o respaldo do Conselho de Segurança da ONU e até da Liga Árabe.

Além disso, essa é uma questão bastante delicada, pois representa um “ato de guerra” e, na avaliação dos consultores, pode pode ser o primeiro passo para uma ação militar das forças ocidentais com objetivos mais amplos na Líbia. Os Estados Unidos, nesse ponto, aparecem bem cautelosos, sabendo que qualquer ação militar trará um grande esforço envolvendo custos operacionais. Se isso não bastasse, o presidente norte-americano, Barack Obama, vem sendo pressionado pela maneira como lida com os conflitos. Esse clima cria ainda mais instabilidade e deixa a situação muito difícil de ser prevista.

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O problema ainda é o contágio
Embora a MCM avalie que o cenário mais provável é o da queda de Gaddafi, mesmo porque a França já reconheceu diplomaticamente que os representantens legítimos do país são os líderes rebeldes, o principal impasse é identificar se e como essas turbulências irão afetar demais regiões, como a Arábia Saudita.

O problema ganhou contornos ainda mais assustadores quando a agência de notícias Associated Press relatou tiros no leste da Arábia Saudita. Segundo a fonte, a polícia saudita teria aberto fogo contra protestantes no leste do país, numa tentativa de impedir manifestações. Até então, as manifestações eram limitadas a uma pequena parcela xiita. Diante do temor de uma efervescência política, o governo saudita já fez promessas em relação às eleições livres e libertação de alguns líderes revolucionários.

Vale destacar que o país é um dos membros mais importantes dentro da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) no que diz respeito à produção do óleo. No momento da interrupção da produção na Líbia, o governo saudita garantiu que iria manter os níveis de petróleo e até aumentaria a produção, caso fosse necessário. Sendo assim, a possibilidade cada vez mais real de um conflito na região revela novos temores, pois põe em xeque essa capacidade.

Democracia pode vingar?
Para a equipe da consultoria, ainda que os rebeldes vençam em diversos países em conflito, um outro problema pode surgir: a democracia pode ser sustentada no mundo árabe, ou isso só abrirá o caminho para fundamentalistas islâmicos?

De acordo com alguns analistas, é pouco provável que essa região venha a se tornar de fato “democrática”. Em primeiro lugar porque o islamismo é um sistema incompatível com os princípios democráticos, já que favorece a liderança pessoal e não os órgãos típicos da democracia. Além disso, os estudiosos ressaltam que há uma extrema carência de instituições democráticas e não é possível construí-las ou reformulá-las de um dia para o outro.

Porém, para a MCM, ainda que esses fatos sejam indiscutíveis, é importante ressaltar que no passado os mesmos argumentos foram utilizados para explicar o possível fracasso da democracia na América Latina, na Coreia do Sul e até no Japão pós-guerra. Adicionalmente, alguns países são receptíveis á democracia no mundo árabe, como é o caso de Tunísia, Marrocos e Egito. 

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O fato é que, segundo os analistas, embora esse processo seja possível, não será uma tarefa fácil. Portanto, qualquer mudança política e econômica trará consigo uma série de empecilhos. “O mundo árabe – e seus bilhões de barris de petróleo – continuará a ser por bastante tempo um fator de risco para a estabilidade econômica e política do resto do mundo”, concluiu a consultoria.