Para banco, políticas de estímulo de Brasil e China ignoram o longo prazo

Deustche Bank aponta semelhanças e um problema em comum entre os países: a miopia de seus governantes

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SÃO PAULO – Brasil e China, dois países com realidades bem diferentes, tanto no âmbito social quanto político e econômico. Porém, um relatório do Deustche Bank afirma que, apesar de díspares, as economias destes países sofrem de um problema em comum – a miopia de seus governantes.

Markus Jaeger, analista do banco alemão, argumenta que os programas anticrise adotados pelos dois países, apesar de estarem apresentando bons resultados, falham ao não considerar uma análise de longo prazo. E mais, China e Brasil deveriam ter adotado a abordagem um do outro.

China

Um dos principais problemas que país asiático apresenta é a elevada propensão à poupança de seus cidadãos. Contudo, para contrabalancear os impactos da crise, o governo chinês aumentou seus investimentos na economia.

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Tal ação, argumenta Jaeger, não só perpetua o cenário de baixo consumo interno, como também se mostra insustentável, econômica e politicamente. “Por que abrir mão do consumo doméstico para financiar o consumo em países mais ricos em troca de ativos financeiros de valor futuro potencialmente incerto?”.

O inconveniente em aumentar o investimento público, aponta o analista, é que ele é capaz de absorver o excesso de poupança apenas temporariamente, além de ser uma ação arriscada, visto a grande possibilidade de ineficiência de alocação. “Um acréscimo permanente no consumo público ou privado, por outro lado, seria desejável no sentido de reequilíbrar a economia, saindo de padrão de crescimento com grande potencial de desperdício de investimento para um padrão mais estável conduzido pelo consumo”.

Brasil

“A China pode ou não investir demais, contudo, o Brasil certamente investe muito pouco”, dispara Jaeger ao abordar o caso brasileiro. Conforme destacado no relatório, o País investiu em média 17,5% do seu PIB (Produto Interno Bruto) ao longo dos últimos 15 anos, contra os 40% aplicados pelo país asiático no mesmo período.

“Isso amplamente explica porque a China cresceu em média 10% ao ano, enquanto o crescimento brasileiro ficou em apenas 3,3%”, aponta o banco alemão, que completa: “O estímulo fiscal brasileiro deveria, portanto, ser centrado em aumentar o investimento, não o consumo”.

O consumo do governo já é bastante alto no País, sendo, inclusive, um dos principais motivos das altas taxas de juros e baixo investimento interno. Além do mais, a posição da dívida pública do Brasil também é muito menos sólida do que a da China, fazendo com que medidas de investimento temporárias sejam preferíveis ao invés de medidas consumistas permanentes. Contudo, novas ações de estímulo ao consumo serão introduzidas ainda este ano, como ajustes no salário mínimo.

“No longo prazo, o País deverá elevar suas poupanças e investimentos se quiser atingir a meta de crescimento informal do governo, de 5% ao ano” completa.

Motivos

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Porque então, Brasil e China fizeram o oposto do que seria mais favorável em uma perspectiva de médio prazo? Markus tem uma resposta.

Para aumentar o investimento público, o Brasil teria que enfrentar grandes obstáculos burocráticos, de forma que impulsionar o consumo é uma forma efetiva de sustentar a demanda doméstica no curto-prazo.

Por sua vez, a China enfrenta menos obstáculos e tem maior experiência em projetar investimentos públicos, de forma que esta parece ser uma melhor opção.

“Contudo, olhando de uma perspectiva de longo prazo, ambos os países perderam uma oportunidade de mudar para um sistema mais sustentável e mais equilibrado de crescimento” conclui o analista.