Para analistas, situação de Portugal é insustentável e há dificuldades para resgate

Com queda do governo, paralisia política pode atrasar pacote de ajuda; juros da dívida portuguesa atingem recorde de alta

SÃO PAULO – Após a derrota do governo de Portugal na votação de um novo pacote de medidas de austeridade na última quarta-feira (23), analistas classificam a situação do país como “insustentável” e dão como certa a necessidade de um pedido de auxílio econômico.

No contexto da crise fiscal europeia, após a derrocada da Grécia e da Irlanda, Portugal é um dos países que mais chamam a atenção do mercado por conta de seus problemas no campo econômico. Vale lembrar que nesta quinta-feira, os líderes europeus iniciam uma reunião em Bruxelas para encontro que deverá discutir, dentre outros temas, os problemas econômicos na região.

Juros da dívida em alta
Com os temores dos investidores, os juros da dívida portuguesa atingem novos recordes de alta nesta quinta-feira, com os investidores cobrando juros acima de 8,3% para os contratos com vencimento daqui a cinco anos.

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Ainda em meio a esse cenário de crise, o analista James Nixon, do Société Générale, aponta que Portugal terá que pagar € 4,5 bilhões em abril e € 5 bilhões em junho em vencimentos de títulos de dívida – outras notas também chegarão à maturidade entre julho e novembro. A perspectiva do analista, entretanto, é que o país consiga honrar seus compromissos imediatos, uma vez que já captou € 7 bilhões neste ano – a meta é € 20 bilhões.

Insustentável
Paul Donovan, do UBS, avalia a presente situação portuguesa como insustentável. “Portugal é insustentável nos atuais níveis de dívida e déficit”, afirma o economista, que lembra também que, após a derrota sofrida pelo governo português no parlamento, o país chega para o encontro de líderes sem um governo. De maneira semelhante, Nixon avalia que “os problemas de Portugal continuam a parecer quase insolúveis”.

A necessidade de auxílio econômico para o país ibérico, dada a sua situação insustentável, esbarra, porém, exatamente nessa questão política. “Isso [a falta de um governo] faz com que um resgate no curto prazo seja bastante complicado”, aponta Donovan, considerando que os atuais líderes portugueses têm seus poderes limitados e uma nova eleição parlamentar deverá demorar algum tempo.

Paralisia política
Para Nixon, as eleições portuguesas deverão acontecer em maio ou junho, e “isso potencialmente deixa o país enfrentando um longo período de paralisia política”. Na mesma linha que o economista do UBS, Nixon afirma que, embora vá participar do encontro de líderes europeus, o representante português “provavelmente não tem autoridade para requisitar assistência da Linha de Estabilidade Financeira Europeia (EFSF), mesmo que tal desfecho pareça cada vez mais provável”.

Além disso, o analista também afirma que os principais prejudicados nesta crise “provavelmente serão aqueles bancos que verão seus custos de financiamento aumentar e podem encontrar dificuldade para levantar fundos durante um longo hiato político”. Desta forma, os bancos portugueses ficariam ainda mais dependentes do BCE (Banco Central Europeu) e, uma vez que tais recursos precisarão ser pagos, o tamanho do resgate a Portugal pode aumentar.