Pacote dos EUA lembra que brasileiros também devem poupar para aposentadoria

Para professor, assim como a classe média norte-americana, brasileiros precisam se preparar para não depender do govern0

SÃO PAULO – Em seu discurso State Of Union realizado na noite de quarta-feira (27), o presidente Barack Obama afirmou que a  crise financeira internacional agravou um problema que as famílias norte-americanas têm enfrentado há décadas: a aflição de trabalhar cada vez mais, ganhar menos e ser incapaz de economizar o suficiente para sua aposentadoria ou para ajudar os filhos a irem para a faculdade.

“É por isso que, ano passado, pedi ao vice-presidente Biden uma força tarefa direcionada às famílias de classe média. É a razão pela qual estamos multiplicando as isenções de impostos para famílias com crianças e facilitando aos trabalhadores a pouparem para a aposentadoria, ao dar acesso a todos a uma conta de aposentadoria e expandindo as isenções fiscais àqueles que começaram e guardar dinheiro para o futuro”, declarou Obama.

Os detalhes das medidas de auxílio à classe média dos EUA já haviam sido adiantados na segunda-feira (25). Entre elas também está a liberação de mais recursos às famílias que ajudam a sustentar parentes idosos.

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Para o professor de Economia e Finanças da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e Fucape, Paulo César Coimbra, as duas medidas voltadas à aposentadoria são complementares, uma vez que o norte-americano tem tido menos estímulo em poupar para o futuro. “Quando você observa no governo uma medida paternalista, as pessoas podem achar que não precisam se preparar porque o governo está ajudando os idosos. Porém, para evitar isso, os EUA estão ajudando os idosos de hoje, mas estimulando os mais jovens a se precaverem, eliminando a necessidade dessa ajuda no futuro”, afirma Coimbra.

O desvio automático de uma parte do salário para a poupança da aposentadoria prevê incentivos fiscais às empresas que arcarem com os custos administrativos da operação. A isenção de taxas de administração seria mais uma forma de encorajar os trabalhadores a se preparem para a aposentadoria.

Coimbra lembra que o aumento no endividamento dos norte-americanos começou quando a taxa de juro básico dos EUA começou a despencar. “Se os juros estão baixos, não compensa poupar para o futuro, pois daqui um ano o dinheiro poupado não terá rendido o suficiente para comprar o mesmo que compra hoje”, explicou. “Como as taxas reais de juros se tornaram negativas, com a inflação maior que os juros, o desinteresse por poupar é maior ainda. E isso vale para a antecipação de bens de consumo, o que aumenta a propensão ao endividamento das pessoas”, completou o professor.

No Brasil
Se comparado aos EUA, o Brasil não deixa a situação mais confortável para a classe média brasileira. Para Coimbra, embora a poupança venha registrando recordes de arrecadação, “aqui ainda há uma presença forte do sistema de Previdência Social, o que ajuda as pessoas a acharem que não precisam se preparar, porque o governo vai prover o necessário”.

Além disso, completa o professor, “aqui, investe-se pouco e mal,especialmente em renda variável, tipo de investimento no qual estamos muito aquém dos países desenvolvidos”, disse. A constante busca por financiamentos longos na aquisição de bens, com juros elevados, em vez de adiar a compra, poupando para pagar à vista, é outra coisa que “preocupa” no comportamento da classe média brasileira, segundo o especialista.

“A diferença é que nos EUA há tradição maior de investir em ações, formar poupança. Até 25 anos atrás, ninguém se preocupava com a aposentadoria no Brasil porque tinha o governo para bancar tudo. Hoje as pessoas não dispõem mais dessa realidade. Aqui, recentemente, a classe média é a que mais tem aumentado os investimentos pessoa física em bolsa de valores, enquanto nos EUA essa classe média já é forte presença nos mercados”, declarou.

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Política
O professor aponta ainda como hipótese para explicar o pacote da classe média a queda da popularidade de Obama, uma vez que os programas de recuperação da economia, como a reforma do sistema de saúde e ajuda à indústria automobilística e aos bancos, não foram suficientes para reduzir o problema do desemprego no país e ainda aumentaram as dívidas públicas. O próprio Obama reconheceu que hoje, a cada dez norte-americanos, um ainda não encontrou emprego.

Além das medidas voltadas à poupança e ao auxílio aos idosos, fazem parte do pacote de Obama voltado à classe média o incentivo fiscal para filhos de famílias com renda de US$ 85 mil por ano e a ajuda aos estudantes que fizerem empréstimos para cursar a universidade – a amortização do débito não pode ultrapassar 10% da renda do estudante após formado

“Criar empregos bons e sustentáveis é a coisa mais importante que nós podemos fazer para reconstruir a classe média”, declarou Obama.