Análise

Os grandes ganhadores com a “queda” de Lula (e por que o risco eleitoral não acabou para o mercado)

Sem Lula, risco diminui para o mercado, mas vale ficar atento: nomes não-reformistas ou reformistas sem grande capacidade de execução de reformas podem ser os maiores beneficiários da saída do petista 

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SÃO PAULO – A decisão do TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) de confirmação da pena na Lava Jato por unanimidade e pena de 12 anos e um mês de prisão foi o pior dos resultados para o ex-presidente Lula. Com a decisão, a margem de manobra jurídica para estender o processo e poder fazer campanha eleitoral se reduz muito. 

Com essa condenação unânime, o petista tem apenas mais uma possibilidade de recurso na segunda instância – através do embargo declaratório, que será objeto de análise pelos juízes que estabeleceram a condenação ao petista. Os embargos de declaração devem consumir pelo menos algumas semanas e um pedido de prisão será possível após o julgamento. 

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Restaria então o STJ (Superior Tribunal de Justiça) e  o STF (Supremo Tribunal de Justiça) como recursos para o ex-presidente e sua viabilidade dependeria da celeridade das duas cortes.  A decisão sobre se Lula poderá concorrer ou não também está nas mãos do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que, segundo informações do jornal O Globo, vê como inevitável o impedimento da candidatura dele. 

Neste cenário de candidatura praticamente enterrada, muitos aliados já pensam em abandonar o petista, enquanto outros celebram a quase-saída dele do páreo. Um dos que comemoraram a derrocada do ex-presidente foi o mercado financeiro, com o Ibovespa atingindo nova máxima histórica ao subir 3,72% na última quarta-feira (24), no dia do julgamento. Afinal, o petista é visto como uma grande ameaça ao mercado em meio a sinalizações recentes de que faria uma guinada total à esquerda se assumisse a presidência e reverteria as medidas do atual governo que tanto animaram os investidores. 

Mas afinal, o quanto o mercado pode comemorar a queda de Lula? De acordo com a consultoria política Eurasia Group, há motivos para ânimo dos investidores – contudo, há riscos no radar. “Mesmo que Lula seja desqualificado, seria um erro ver esta eleição presidencial relativamente livre de riscos quando se trata de avaliar as chances de eleger um candidato amigável ao mercado capaz de realizar reformas fiscais profundas”, afirmou a consultoria em relatório.

Para os analistas políticos da consultoria, caso Lula seja impedido de disputar a eleição, as chances de um candidato reformista vencer aumentam. Mas o candidato atualmente com mais chance de herdar a base de votação de Lula seria o candidato também identificado com a esquerda populista Ciro Gomes (PDT) – o que não agradaria nada o mercado. Enquanto isso, veem poucas chances de Lula transferir votos para nomes como Jaques Wagner e Fernando Haddad, que são cotados para disputar a eleição pelo PT caso o ex-presidente não puder concorrer. 

Já em entrevista ao Valor Ecônomico, Mauro Paulino, diretor do Datafolha, aponta que a pré-candidata Marina Silva (Rede) seria a maior beneficiária, com 25% dos votos, enquanto Ciro teria 14%. Enquanto isso, o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) herdaria 6% dos votos do petista. “Essa transferência para Bolsonaro se dá porque é elevada a falta de representatividade política e a maior preocupação do brasileiro hoje é com a violência. Respostas simplistas como a de Bolsonaro atraem”, avalia Paulino. Já um cenário sem o petista, cerca de 29% dos eleitores diz que votariam branco ou nulo. O restante se declara indeciso. 

Conforme aponta a coluna Painel, da Folha, o grupo de Bolsonaro avalia que a barreira imposta pelo TRF-4 a Lula vai catapultar o deputado no Nordeste. Contudo, caciques de siglas do centro discordam. “É preciso ver se Deus sobrevive sem o Diabo”, brinca um ministro.

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Vale destacar que a última pesquisa do Datafolha de dezembro mostrou Lula com 34% dos votos, Bolsonaro com 17%, Marina 9%, Ciro Gomes (PDT) 6% e Geraldo Alckmin 6%.

Enquanto Ciro Gomes é visto como um nome não-reformista, os outros nomes citados (Marina e Bolsonaro) acima podem ser destacados como nomes mais favoráveis a reformas, mas que apresentam sinais mais dúbios e enfrentariam mais dificuldades na relação com o Congresso, conforme destacou o diretor para as Americas da Eurasia Christopher Garman em entrevista ao Guia InfoMoney Onde Investir 2018. 

Desta forma, ressalta Garman, a eleição é arriscada com Lula dentro ou fora da disputa. Mas reconhece que, com Lula no pleito, o risco seria ainda maior. “Se ele está dentro (dadas as últimas pesquisas), terá vaga garantida no segundo turno e, a partir daí, é uma disputa para uma vaga e não para duas”, avalia. Neste sentido, as chances de nomes de centro como o de Geraldo Alckmin (reformista com grande capacidade de executar reformas) para o segundo turno passam a ganhar força. Contudo, vale destacar também que, sem Lula, o estímulo pela aglutinação em torno de um único nome de centro para concorrer às eleições pode diminuir – aumentando a pulverização de candidaturas. 

Assim, há motivos para o mercado se animar, mas vale o alerta: o risco para as eleições não acaba com a saída de Lula da disputa, ainda mais levando em conta o ambiente atual de raiva com a classe política, que pode representar um passivo para o governador de São Paulo nas eleições. Uma candidatura de um “outsider reformista” seria vista com maior potencial nesse cenário. Em suma, os investidores podem comemorar, mas também devem ficar de olho nos riscos que estão no radar mesmo se o petista estiver fora do pleito.