Eleições

Opostas ou complementares: o que Datafolha, Sensus e Ibope disseram sobre as eleições?

Sensus e Datafolha mostraram empate técnico entre Dilma e Aécio no segundo turno e animaram o mercado; já Ibope deixou cenário mais incerto, mas mostrou tendência de queda da petista

SÃO PAULO – A bateria de pesquisas divulgadas pelo mercado apontou para cenários, pelo menos à primeira vista, diferentes para as eleições presidenciais de outubro. Enquanto as pesquisas Datafolha e IstoÉ/Sensus indicaram um empate técnico entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) no segundo turno, o Ibope mostrou um cenário menos claro, “relativizando” este cenário. Além disso, mostra que até mesmo a necessidade de segundo turno fica indefinida, já que a soma dos votos da atual presidente ficam em empate técnico com o total dos demais candidatos. 

Mas o que o mercado viu de cada uma das pesquisas? A Gradual Investimentos, que iniciou a Compilação Sistemática das Pesquisas Eleitorais destacou trabalhar com a hipótese de segundo turno, sendo que isto forçará as propostas dos dois candidatos, Dilma e Aécio, para um “discurso mais mediano”. 

“Acreditamos que a margem de manobra para o próximo governo é estreita e não haverá mudanças significativas nas variáveis macroeconômicas ficando a diferença no campo microeconômico, diferenças essas que aí são substanciais e podem fazer muita diferença entre ambos”, destaca o economista-chefe da Gradual, André Perfeito.

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A expectativa também é de a presidente Dilma tome medidas para estancar a sua alta rejeição, um dos grandes desafios identificados nas pesquisas, conforme apontaram cientistas políticos. 

Agora, os olhos devem ficar voltados para o início da campanha na televisão, o que pode dar mais indicações sobre os quadro eleitorais. “Vale lembrar que a presidente tem mais que o dobro de tempo de TV segundo as estimativas do TSE”, destaca o economista da Gradual.

Confira o que cada pesquisa sinalizou para o mercado

Datafolha: primeira a mostrar empate técnico
As análises aos números do Datafolha divulgados na quinta-feira (17) mostraram um cenário bastante desfavorável para a presidente Dilma Rousseff, sendo a primeira pesquisa a apontar um empate técnico entre a petista e Aécio Neves num eventual segundo turno, o que animou o mercado. Um dia após a divulgação dos números, o Ibovespa subiu 2,5%. 

A pesquisa apontou que o percentual de intenção de voto da presidente Dilma Rousseff no primeiro turno oscilou dois pontos percentuais para baixo. Em 15 dias, entre as pesquisas dos dias 1 e 2 de julho e 15 e 16 de julho passou de 38% para 36%, enquanto Aécio ficou estável em 20%. Eduardo Campos quase não se mexeu, “escorregando de 9% para 8%”. Considerando os chamados nanicos, os oponentes de Dilma têm exatamente os mesmo 36% da presidente.

No segundo turno contra Aécio, Dilma também oscilou dois pontos percentuais para baixo (46% para 44%), enquanto o tucano foi de 39% para 40%. Contra Campos, a queda de Dilma ultrapassou a margem de erro. Foi de 48% para 45%. O ex-governador pernambucano subiu de 35% para 38%.

A LCA Consultores destacou que nenhuma mensuração feita pelo Datafolha mostrou variação acentuada, com a maior parte das altas e baixas ficando dentro da margem de erro, de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. Além disso, o empate entre Dilma e os demais candidatos no primeiro turno indica que a presidente, se a eleição fosse hoje – e se os números do Datafolha estiverem corretos – poderia se reeleger no primeiro turno.

Porém, “mesmo assim, a leitura conjunta dos números do Datafolha traça um quadro negativo para a candidatura governista. Reforça o viés de queda da perspectiva de reeleição da petista”, aponta a consultoria.

Desde o começo do ano, Dilma está em trajetória de queda. Durante o auge do entusiasmo do brasileiro com a Copa, ela ganhou algum fôlego, mas, considerando o Datafolha de ontem, a animação com a Copa não foi suficiente para reverter a tendência de encolhimento da candidatura governista, a qual fica mais evidente quando se consideram os cenários de segundo turno, avaliou a LCA. Isso porque a vantagem de Dilma contra Aécio no segundo turno desabou de 24 para 4 pontos percentuais entre meados de fevereiro e a pesquisa de quinta-feira. Contra Eduardo Campos, caiu 25 pontos (de 32 para 7).

“A fragilização do projeto de reeleição evidencia-se mais ainda quando se leva em conta que a rejeição à candidata petista e a aprovação ao governo estão em pior situação do que auferida nesta mesma fase da campanha pelos concorrentes que venceram as seis disputas presidências desde 1989”, ressalta a LCA.

Desta forma, a trajetória da disputa presidencial, conforme retratada pelas pesquisas – ao menos pelo Datafolha – está assumindo contornos nitidamente desfavoráveis à reeleição. Por outro lado, a direção ainda pode mudar. “No momento, contudo, já se pode dizer que aponta de maneira consistente para a possibilidade de Dilma perder a eleição”, avalia. 

E, apontam os economistas da consultoria, para adicionar mais uma pitada de dificuldade à reeleição de Dilma, nota-se que os desconfortáveis números do Datafolha para a candidatura incumbente foram divulgados no mesmo dia em que o resultado do Caged de junho foi muito ruim. A criação de empregos formais teve o pior mês de junho em 16 anos, com a criação de 25.363 vagas no mês. 

Sensus confirma cenário do Datafolha
pesquisa IstoÉ/Sensus, divulgada na sexta-feira (18) confirmou o cenário apontado pelo Datafolha, mostrando uma leve queda nas intenções de voto entre os principais candidatos a presidente da República. 

Conforme o Sensus, Dilma conta com 31,6% dos votos, ante 32,2% das intenções de voto na pesquisa anterior. Já Aécio teve 21,1%, leve queda ante 21,5% no levantamento realizado em junho. Eduardo Campos (PSB), por sua vez, também teve leve queda, de 7,5% para 7,2%. As variações foram dentro da margem de erro da pesquisa, de 2,2% para mais ou para menos.

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No caso de segundo turno, o cenário seria ainda mais apertado do que o apontado pelo Datafolha. Dilma teria 36,3% dos votos contra 36,2% do tucano – tecnicamente empatados. Houve uma queda de 5 pontos na diferença entre uma pesquisa e outra. Já no caso de um segundo turno entre Dilma e Campos, a petista teria 38,7% e o pernambucano, 30,9%. No levantamento anterior, Dilma seria 37,5% e o pernambucano, 26,9%. 

Nos dois levantamentos, vale ressaltar, a avaliação positiva do governo Dilma teve queda: no Sensus, 32,4% viu a administração federal como positiva, ante 34,2% da pesquisa anterior. Enquanto isso, cresceu o percentual dos que consideram seu governo regular, passando de 29,1% para 36,4% entre os dois levantamentos. A avaliação negativa caiu, por sua vez, de 34,6% para 28,5%. 

Cerca de 40,9% aprovam o desempenho de Dilma no governo, contra 50,9% que a desaprovam. Entre os índices de rejeição, Dilma apresenta o maior: é rejeitada por 42,4% dos entrevistados, enquanto Aécio por 25,3% e Campos, por 25,2%. Dilma é conhecida por 96,8% dos candidatos, enquanto Aécio é por 76,4% e Campos, por 59%. 

Em relação à pesquisa Datafolha anterior, a taxa de rejeição a Dilma subiu de 32% para 35%, enquanto o segundo mais rejeitado é o candidato Pastor Everaldo (PSC), que tem 3% das intenções de voto, mas 18% de rejeição. Já a pesquisa mostrou que o número de eleitores Em relação à pesquisa Datafolha anterior, a taxa de rejeição a Dilma subiu de 32% para 35%, enquanto o segundo mais rejeitado é o candidato Pastor Everaldo (PSC), que tem 3% das intenções de voto, mas 18% de rejeição. 

“Estes números refletem o aumento da rejeição ao governo, algo que ela tem que estancar para conseguir reverter este quadro negativo”, reforçou o cientista político e professor da FGV (Fundação Getulio Vargas), Marco Antonio Carvalho Teixeira, em entrevista ao InfoMoney.

Ibope: cenário diferente?
Já a pesquisa Ibope, a primeira do instituto após o fim da Copa do Mundo, apresentou uma grande estabilidade entre os principais candidatos à presidência. Dilma Rousseff apenas oscilou um ponto porcentual para baixo, dentro da margem de erro: 38% ante 39%, enquanto o tucano obteve 22% em julho contra 21% junho.

Enquanto isso, Eduardo Campos recuou desde o início de junho: 8% em julho ante 10% em meados do mês passado e 13% no começo do período. A soma das intenções de voto dos dez adversários de Dilma chega a 37%, um ponto a menos que a taxa da petista. Assim, fica incerto um segundo turno.

Uma mudança importante neste levantamento do Ibope, aponta a LCA, é o aumento no número de eleitores que querem mudanças no governo: de 65% para 70%. Outro aspecto negativo para Dilma é que 53% dos entrevistados entendem que o Brasil está no “rumo errado”. A avaliação positiva do governo Dilma se manteve em 31% em julho. Apesar disso, a maioria dos pesquisados – 52% –  acha que sua situação econômica estará melhor em 2015, enquanto 54% dos eleitores preveem que Dilma conquistará novo mandato em outubro.

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Apesar de favorita, Dilma continua com a maior taxa de rejeição: 36%. Aécio é rejeitado por 16% e Campos, por 8%. “Os números do Ibope para a disputa do segundo turno – e apenas para a disputa do segundo turno, é importante frisar – são mais positivos para a presidente Dilma, contra Aécio ou contra Campos, do que os registrados pelo Datafolha”, avaliam os consultores. 

Porém, a LCA também abre uma ressalva de que a disputa de segundo turno retratada pelo Ibope é muito semelhante ao Datafolha. Ou seja, “ambos mostram que a distância entre Dilma e seus adversários vem caindo desde o início do ano”. Era de 27 pontos em março, segundo o Ibope, quando a petista disputa com Aécio; e de 31, quando o oponente é o ex-governador pernambucano. De acordo com o Datafolha, em fevereiro, a vantagem de Dilma também era de 27 pontos contra Aécio subindo a 32 contra Campos. Em meio a esse cenário, o Ibovespa abriu em queda, mas diminuiu as perdas, o que mostra uma “dubiedade” na interpretação do mercado.