Oposição minimiza caso de Ramagem e diz que ele passa por ‘procedimento padrão’

Parlamentares rejeitam versão de cooperação internacional citada pela Polícia Federal, classificam episódio como questão migratória e criticam atuação do órgão

Agência O Globo

Ex-deputado federal Alexandre Ramagem, do PL do Rio de Janeiro (Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados)
Ex-deputado federal Alexandre Ramagem, do PL do Rio de Janeiro (Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados)

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A detenção do ex-deputado Alexandre Ramagem na Flórida, nesta segunda-feira, provocou reação imediata da oposição no Congresso. A estratégia foi de contenção: aliados passaram a minimizar o episódio e a contestar a versão apresentada pela Polícia Federal (PF).

Segundo a PF, a prisão decorreu de uma colaboração internacional entre autoridades brasileiras e americanas. Ramagem é considerado foragido da Justiça brasileira após condenação no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado.

No campo bolsonarista, porém, a leitura pública é outra. Parlamentares afirmam que ele não foi preso, mas apenas detido após uma abordagem por infração de trânsito e encaminhado às autoridades migratórias — o que classificam como um “procedimento padrão” nos Estados Unidos.

A versão é a mesma defendida pelo blogueiro Paulo Figueiredo, aliado de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Sócio de uma empresa de imigração, ele afirmou que sua equipe está acompanhando o caso e prestando assistência jurídica à família de Ramagem, com atuação de advogados especializados na área migratória.

— Ramagem tem um pedido de asilo pendente e está sendo assistido por advogados. Não vemos risco de deportação neste momento — disse.

A deputada Bia Kicis também reforçou essa linha e negou qualquer relação com decisões do ministro Alexandre de Moraes.

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— Ele foi detido por uma infração de trânsito e a carteira não estava atualizada. Não tem nada a ver com Alexandre de Moraes — disse.

O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, adotou o mesmo tom ao tratar o caso como rotina administrativa.

— Não foi prisão, foi detenção, prática muito comum nos Estados Unidos — afirmou.

Ele também criticou diretamente a Polícia Federal ao rejeitar a hipótese de cooperação internacional.

— É lamentável ver uma autoridade da Polícia Federal falando uma asneira como esta. Se foi cooperação, então ele vai ter que ser extraditado — disse.

Segundo Sóstenes, a narrativa de colaboração entre os países seria uma tentativa de politizar o episódio.

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Outros deputados seguiram na mesma linha. O deputado Marcel van Hattem (Novo-RS) afirmou que a PF “já não tem mais credibilidade”, enquanto Zé Trovão classificou como “mentirosa” a versão apresentada pelo órgão.

— Ramagem foi detido por infração de trânsito, algo comum nos Estados Unidos — disse.

O deputado Bibo Nunes também reagiu, afirmando que a situação é “péssima”.

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As declarações rebatem a informação da Polícia Federal de que a detenção teria ocorrido em articulação com autoridades americanas. A expectativa entre aliados é de que Ramagem seja liberado após audiência com autoridades migratórias dos Estados Unidos.

Trump não comprou a briga

Nos bastidores, no entanto, o discurso público não se sustenta por completo. Interlocutores do ex-presidente Jair Bolsonaro admitem, em reserva, que pode haver, sim, relação entre o episódio e a situação jurídica de Ramagem no Brasil — ainda que publicamente essa conexão seja negada.

A avaliação interna é de que o caso expõe um ponto de fragilidade da estratégia montada por Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

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A leitura entre aliados é de que a aposta no ambiente político americano — especialmente no entorno de Donald Trump — não tem se traduzido em capacidade real de proteção ou influência quando casos concretos surgem. Além do episódio de hoje, citam a decisão de Trump de retirar as sanções da Lei Magnitsky contra Moraes logo após a condenação de Bolsonaro.

Neste contexto, o sentimento é de frustração e temor de que o caso consolide a percepção de isolamento do grupo no exterior.

Também há a avaliação de que é um ônus direto para Eduardo, que se mudou para os Estados Unidos justamente para atuar junto a autoridades americanas e construir uma rede de apoio político capaz de amparar aliados em situações como essa.

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