Os riscos para o mercado

O risco de 2018 está sendo subestimado pelo mercado, diz Eurasia (que ressalta questão fundamental para eleição)

Diretor da consultoria política Christopher Garman avalia que o mercado não está sendo complacente com relação a uma possível aprovação ou não da reforma da previdência, mas está avaliando mal o risco eleitoral

SÃO PAULO – O mercado está muito complacente com as chances da aprovação de uma reforma da previdência? Para Christopher Garman, diretor executivo de risco para as Américas e cientista político do Eurasia Group, não.

“Diria até o contrário, desde a crise do dia 17 de maio [dos áudios da JBS], havia uma leitura do mercado que esse governo politicamente morreu, que o governo estava combatendo dois pedidos de investigação pela Procuradoria. A leitura era de que o governo utilizou todo o capital político para vencer as denúncias na Câmara e não sobraria nada em termos da capacidade do governo em avançar na agenda de reformas. Era uma visão pessimista demais”, apontou Garman, em evento realizado pela Western Asset na manhã desta sexta-feira (1), em São Paulo. Ele aponta que, agora, com a restrição de recursos de financiamento de campanha, estar do lado do governo e participar da máquina pública passa a ser mais interessante para os parlamentares, o que aumenta o “poder de fogo” do Planalto. 

Assim, o Executivo tem uma capacidade de gerar coalizão e isso significa que a reforma da previdência está em jogo. “Contudo, achamos que o governo vai morrer na praia”, afirma Garman, ao ressaltar que nas contagens da Eurasia para a aprovação da reforma da previdência, o governo conta com uma base de votos de 230 a 260 votos, sendo necessários 308. Mais votos podem ser convertidos dentro dos partidos do chamado “centrão” enquanto o PSDB, mesmo entregando mais votos, não será a solução. Isso levaria a um número próximo, mas não suficiente para a aprovação da reforma, deixando-a para o ano que vem. 

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De qualquer forma, mesmo se não houver reforma da previdência neste governo, Garman destaca que há uma maior consciência do parlamentar médio sobre o custo de não se fazer uma reforma da previdência, o que pode favorecer o próximo presidente a fazer as mudanças em seu mandato. 

Se, por um lado, o mercado não está complacente com a reforma da previdência, Garman avalia que o mercado está complacente com relação à eleição de 2018. “Muitos calibram o risco para 2018 de uma forma um pouco incorreta”, aponta o cientista político, afirmando que a visão que se tem recorrentemente é que Lula não conseguirá concorrer no ano que vem (visão que a Eurasia compartilha), enquanto Jair Bolsonaro estaria na extrema direita e, portanto, haverá um vácuo no centro. Este vácuo provavelmente será preenchido por Geraldo Alckmin através de uma coalizão ampla, com vantagens de tempo de televisão e estrutura partidária e, assim, haverá uma candidatura reformista eleita em 2018. 

“Contudo, um ponto para para calibrar bem, e é algo que aprendi cobrindo as eleições, é que a variável mais importante não é olhar estrutura partidária, tempo de eleição e dinheiro. É olhar para o perfil da demanda do eleitor”, ressalta. Hoje, a revolta do eleitorado contra o establishment político é muito alta, estando até mais alto do que nos EUA nas vésperas da eleição de Donald Trump e no Reino Unido às vésperas da eleição que culminou no Brexit.

A questão brasileira em pauta é a ascensão de uma classe média nova, que está exigindo mais da sua classe política, enquanto o tema de corrupção virou central. “Impressionante que a principal preocupação do eleitor mesmo na esteira de uma recessão não é emprego, e sim corrupção. Então a pergunta é: qual candidato consegue entrar no Planalto com esse perfil? E aí diria que candidatos que não daríamos tanto crédito seriam competitivos, como Jair Bolsonaro e o Ciro Gomes”, aponta. A Eurasia ainda acredita na vitória do centro em 2018, mas Garman avalia que essa eleição será mais apertada do que se a centro-direita não oferecer uma candidatura que seja crível para “surfar nessa rejeição ao establishment”. Assim, nomes como o de Alckmin já enfrentariam um passivo e deixariam a disputa um pouco mais competitiva do que o mercado está se dando conta.

“2018 tem as características para ser mais volátil, mesmo que no final do dia deva prevalecer um nome reformista. É bom ficar de olho nas candidaturas que possam aparecer, como a de Joaquim Barbosa, que pode ser muito competitivo num ambiente como esse”, avalia.

Já sobre o Congresso, Garman acredita que não haverá uma grande mudança de perfil. Provavelmente, a composição a partir de 2019 será de quadros mais experientes, tanto por conta dos agora incentivos para ter uma bancada mais robusta para receber o maior financiamento eleitoral quanto por conta de senadores e outros quadros mais “sêniores” que devem disputar eleição na Câmara para seguir com o foro privilegiado. Enquanto isso, ele avalia que a esquerda não sofrerá uma grande derrota, reiterando o caso do PT, não só porque a Lava Jato atingiu diversos outros partidos, mas também pela maior identificação partidária de muitos eleitores com a legenda.