Análise

O que explica a tentativa de aproximação entre Alckmin e Temer a 5 meses das eleições?

Aliança já foi chamada de "quase impossível" em análises, mas seu potencial é considerado relevante para o processo eleitoral

SÃO PAULO – A pouco mais de cinco meses do primeiro turno das eleições presidenciais, novas especulações sobre uma possível aliança entre o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o MDB do presidente Michel Temer ganharam força no meio político. Ainda há muitas arestas nesta relação, mas com a pulverização de candidaturas na centro-direita e a dificuldade dos nomes postos em alçar voos mais altos nas pesquisas de intenção de votos exercem pressão para que alianças avancem no xadrez político.

De um lado, tucanos temem que a proximidade com o impopular presidente gere passivos ainda maiores para a disputa eleitoral, que poderiam limitar os possíveis ganhos proporcionados pela estrutura emedebista e tempo de televisão disponível para campanha. Do outro lado, Temer cobra a disposição do possível aliado em defender o legado de seu governo.

Na avaliação do cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, e responsável pelas análises semanais do Mapa Político, a despeito da relação fria entre os dois partidos, existe a possibilidade de uma iniciativa de aproximação por parte dos tucanos. As dificuldades até o momento enfrentadas por Alckmin e o ingresso de Joaquim Barbosa no banco de apostas poderiam forçá-lo a assumir tal risco.

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“A relação entre PSDB e o governo Temer é bastante tensa. Os planos iniciais de Alckmin pareciam caminhar para um distanciamento do Planalto na campanha com medo de que o apoio do governo resultasse em desgaste para sua candidatura. A disputa eleitoral mais acirrada deve aumentar a pressão para se conseguir todo o tempo de propaganda partidária disponível para convencer o eleitor a retomar sua ligação com a candidatura do PSDB”, observou o especialista em análise para o Mapa Político.

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Em um cenário ainda nebuloso e de grandes dificuldades para Alckmin crescer nas pesquisas, os demais partidos da base aliada relutam em apoiar o tucano. “Há um ceticismo quanto ao crescimento potencial tucano e, gerando riscos para os demais partidos. Além disso, a costura nas candidaturas estaduais ficou mais complexa”, observou o cientista político.

Mesmo assim, ele acredita que eventual apoio do MDB a Alckmin atrairia partidos satélites do governismo, o que aumentaria o potencial da costura, apesar dos fatores negativos. Nesse sentido, o sistema traria incentivos para o movimento favorável de outros partidos à aliança com o tucano.

“O primeiro grupo de incentivos [aos partidos da base governista para apoiar Alckmin] refere-se à economia de recursos eleitorais em um sistema complexo de articulação eleitoral. Participar da eleição presidencial é uma aposta arriscada para as legendas”, observou Cortez.

“As chances de vitória de candidatos ligados ao governismo são extremamente baixas e, portanto, apoiar um nome do PSDB seria uma maneira de canalizar recursos para campanhas locais com maior probabilidade de sucesso”, complementou.

A composição de coalizão com o PSDB na corrida presidencial permite a partidos governistas a concentração de esforços no aumento de sua representação nas duas casas legislativas. “É a articulação partidária estadual que explica o tamanho das bancadas em Brasília”, explica o cientista político.

Além disso, a distribuição de recursos e tempo de televisão, ativos importantíssimos em futuras disputas políticas, é feita em função do tamanho das bancadas partidárias na Câmara dos Deputados, o que pode incentivar estratégias nesta disputa com recursos limitados, em função da proibição de financiamento empresarial de campanha.

Em um ambiente de ampla fragmentação, elevada rejeição ao governo e ao establishment político, Geraldo Alckmin enfrenta grandes dificuldades nesta disputa presidencial. Para maximizar suas chances de êxito, o tucano terá de concentrar recursos e unificar a centro-direita.

“Nossa avaliação é que tal processo ainda tem chances de se viabilizar, mas é bastante vagaroso. Seu efeito em termos de intenção de voto só deve aparecer, nesse cenário otimista, ao longo da campanha”, concluiu Cortez no Mapa Político desta semana.

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