Análise

O que está por trás dos sinais de FHC sobre desembarque do governo e eleições de 2018?

Como diz o ditado, para bom entendedor, meia palavra basta

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SÃO PAULO – Mais do que provocar cara feia do presidente Michel Temer e aliados, o artigo de Fernando Henrique Cardoso, intitulado “Hora de decidir”, publicado no fim de semana pelos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, trouxe sinalizações importantes para o cenário eleitoral de 2018. Além de acenar para um desembarque tucano do governo sem grandes rupturas e mantendo apoio às reformas econômicas, o presidente de honra do PSDB pede que seu partido passe a limpo episódios recentes de sua história, para que possa apresentar um candidato competitivo na disputa.

No texto, FHC diz que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, líder até o momento nas pesquisas eleitorais, é um candidato derrotável, na medida em que volta às trincheiras originais, afastando-se da base ampliada da Carta ao Povo Brasileiro, que trouxe um alargamento da coalizão em direção à classe média. Na avaliação do ex-presidente tucano o histórico de escândalos de corrupção e a recessão são fatores importantes a jogar contra o petista, caso não seja impedido de se candidatar.

Em outra faixa, o tucano manifesta preocupação com a candidatura do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que definiu como “irada”. “Dele sabemos que é “linha dura” contra a desordem e a bandidagem, mas pouco se sabe – ao contrário de Marina – sobre o tipo de sociedade de seus sonhos (e meus pesadelos…). Pode surgir um easy rider? Pode. Mas é preciso esperar para ver”, escreveu. Como alternativas, o tucano vê o PMDB sem time para “disputar a pole position“, assim como DEM e PSD, sem “nomes fortes para a cabeça de chapa”. Com isso, restaria aos tucanos a volta ao papel de protagonista na disputa — com alguns “poréns” citados pelo próprio ex-presidente.

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Para além de uma mensagem de unificação de um partido fragmentado — “É hora de decidir e não de se estiolar em “não decisões”. É hora também de juntar as facções internas e centrar fogo nos adversários externos” –, o tucano fala que não há como negar apoio ao atual governo, mas diz que “alguma decisão deverá ser tomada”.

“Ou o PSDB desembarca do governo na Convenção de dezembro próximo, e reafirma que continuará votando pelas reformas, ou sua confusão com o peemedebismo dominante o tornará coadjuvante na briga sucessória”, escreveu. Como todos sabem que não interessa ao PSDB papel de coadjuvante nas eleições. Neste caso, as alternativas apresentadas pelo tucano são mera retórica.

Nesse sentido, o analista político Leopoldo Vieira pontua: “Nas entrelinhas, o notável do partido propõe uma saída, após descartar a viabilidade de um presidenciável do PMDB: um desembarque combinado com Michel Temer (“Candidato à presidência do PSDB, Perillo quer ‘desembarque educado’ do governo” foi uma manchete da Folha de S. Paulo. Combinada?), no qual os tucanos seguiriam sustentando a agenda de reformas, mas supostamente se desvencilhariam dos desgastes causados pela operação Lava Jato”. O governador de Goiás, Marconi Perillo, disputa com o senador Tasso Jereissati o posto de futuro presidente do PSDB, em decisão marcada para dezembro.

O ex-presidente conclui seu artigo com um tom um tanto enigmático: “Terá cara renovada em 2018? Os cabelos não precisam ser tingidos, mas a alma deve ser nova, para que a coligação que formar ganhe credibilidade e possa virar a página dos desastres recentes”. Contudo, como diria o ditado, para bons entendedores, meia palavra basta.

Para Vieira, com a afirmação, o tucano ‘põe o bode na sala”. “A proposta de acordo é clara. Ao dizer que os cabelos não precisam ser tingidos, refere-se a Doria Jr., alvo de um fogo cerrado do padrinho Geraldo Alckmin (visto como do sistema político e atingido pela Lava Jato), porém, ao falar que “a alma deve ser nova”, cita o próprio governador paulista, alvejado pelas pretensões do pupilo. A alusão aos cabelos tingidos também é uma menção implícita à disputa ‘cabeças brancas [mais velhos, pró-governo] x cabeças pretas [mais novos, antigoverno]“, escreveu o analista, que organiza o ciclo de lightning talks Idealpolitik-Análise de Cenários.