Bolsa e política de olho

O que acontece com Lula voltando para as mãos de Sérgio Moro?

Mercados seguem de olho no exterior, mas podem repercutir maiores desdobramentos na política - cientista político vê Lula enfraquecido, mas Teori também reforçando discurso do PT

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SÃO PAULO – O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu ontem remeter ao juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba, Sérgio Moro, as investigações sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Operação Lava Jato e anular a gravação, feita durante a operação, de uma conversa telefônica entre Lula e a presidente afastada Dilma Rousseff. E a força-tarefa da Lava Jato parece não ter perdido tempo: de acordo com a revista Época, ela já prepara três denúncias contra o petista. 

Um dos nomes de maior expressão política e que aparece na frente em diversas pesquisas de opinião: a volta dos processos envolvendo Lula para Moro pode voltar a afetar o cenário político e também os mercados?

Segundo o economista-chefe do home broker Modalmais, Álvaro Bandeira, nos últimos dias, os investidores seguem mais de olho nos desdobramentos do exterior, em meio aos temores com o “Brexit”, com o Fomc e os dados da economia chinesa mostrando desaceleração, o que levou à aversão a risco das bolsas mundiais e impacta os mercados por aqui. Contudo, o mercado seguirá atento a desdobramentos políticos e econômicos mais significativos por aqui. Este cenário pode ser percebido através da volatilidade do Ibovespa nesta terça-feira, que abriu em queda, chegou a subir 0,47%, mas virou para forte baixa de 1,5% no final da manhã, acompanhando o exterior.

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Contudo, Bandeira avalia que o cenário político, com o “Brasil sendo passado a limpo” e as novas medidas propostas pelo ministro da Fazenda Henrique Meirelles para conter o gasto público, além da confiança com o presidente do Banco Central Ilan Goldfajn, podem gerar ânimo, podem animar a Bolsa. Conforme destaca Eduardo Longo, gerente de renda fixa e multimercados da Quantitas Gestão de Recursos em entrevista à Bloomberg, “a volta do caso de Lula para Moro é fator positivo para o mercado, indicando que isso será resolvido antes de 2018 e afastando possibilidade de volta”. 

Novas eleições ou impeachment de Dilma?
Segundo o analista político da Barral M. Jorge, Juliano Griebeler, a princípio, o envio dos inquéritos e também o pedido de prisão preventiva feito pelo Ministério Público de São Paulo em março para Moro deteriora a situação do ex-presidente. “Confirmada a prisão preventiva, as chances de Dilma Rousseff voltar são menores, uma vez que Lula lidera os comícios contra o governo interino e possui mais carisma”. 

Neste cenário, o enfraquecimento de Lula com os processos contra si na primeira instância pode gerar efeitos diversos para Dilma. Se, por um lado, enfraquece o discurso da presidente, que busca retornar ao poder, e também afeta o PT, alguns atores políticos podem se animar com a possibilidade de novas eleições que, inclusive, estava sendo pauta de discussão entre Dilma e parlamentares nesta terça-feira. Dilma aposta na proposta para que o Senado não aprove o seu impeachment definitivo e, assim, encampe a ideia de um novo pleito; contudo, alguns rumores indicaram que o fato de Lula aparecer na frente nas últimas pesquisas geravam alguma contrariedade sobre essa hipótese. 

Vale destacar que a pesquisa CNT/MDA realizada entre 2 e 5 de junho apontou o ex-presidente como nome ainda forte para a disputa eleitoral de 2018, a despeito do desgaste gerado pelo andar das investigações e noticiário negativo. O petista lidera com folga as intenções de voto espontâneas, com 8,6% do total de menções, seguido pelo senador Aécio Neves (5,7%) e a ex-ministra Marina Silva (3,8%). Já no segundo turno, o ex-presidente seria derrotado por Marina Silva e empataria tecnicamente com Aécio Neves e Michel Temer. 

Os dados indicam forte resistência do petista aos efeitos negativos da Operação Lava Jato e da reprovação à gestão de Dilma Rousseff à sua imagem, o que o torna candidato forte para a próxima corrida presidencial. Lula conta, ao mesmo tempo, com piso elevado e teto mais baixo. Desta forma, novos episódios podem pressionar seu capital político. “Tudo depende se forem divulgados fatos novos ou se Lula for efetivamente condenado na Operação Lava Jato. De qualquer forma, o desgaste do ex-presidente é bastante elevado”, avalia Carlos Eduardo Borenstein, analista político da consultoria Arko Advice, em resposta por e-mail. “Novas revelações de supostas vantagens obtidas pelo ex-presidente podem arranhar ainda mais sua imagem e, quem sabe, até comprometer uma nova candidatura ao Palácio do Planalto em 2018”, complementa.

“Com Lula enfraquecido, alguns parlamentares podem se animar com a ideia mas, no geral. Porém, no geral, a maior parte deles teria pouco efeito prático, mesmos candidatos, mesmos partidos. Neste cenário de deterioração, poderia até emergir alguns ‘aventureiros’. Os partidos estão de olho nas eleições de 2018”, afirma Griebeler. Assim, destaca ele, se Lula se enfraquecer, talvez o discurso de novas eleições ganhe mais força somente se o governo Michel Temer estiver sofrendo muita incerteza”. Assim, para Dilma, o enfraquecimento de Lula tem o potencial de ser mais prejudicial para Dilma do que potencializar sua volta. 

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Griebeler avalia ainda que a decisão de Teori Zavascki de anular a gravação entre Lula e Dilma porque foi gravada pela Polícia Federal após a decisão de Sérgio Moro que determinou a suspensão do monitoramento como um fator que pode ajudar o discurso dos petistas sobre motivação política da decisão do juiz de primeira instância. Além disso, Teori também criticou a divulgação dos áudios por Moro, o que fortalece o discurso petista de que o vazamento não foi legal e realizado somente para causar comoção social. Contudo, o especialista ressalta que o efeito deste é limitado, com o partido falando somente para as suas bases, ao mesmo tempo que o “estrago político” já foi feito em março. “Além disso, a maior parte da população apoiou a divulgação dos áudios”, destaca o analista.

Embora a decisão de Teori tenha marcado a primeira vez que o Supremo anula uma prova da Lava Jato, Borenstein chama atenção para a preocupação que a volta do processo às mãos de Sergio Moro representa para o ex-presidente. “Na época da divulgação dos áudios de sua conversa com a hoje presidente afastada Dilma Rousseff, Lula mostrava-se assustado com o que classificou como a ‘República de Curitiba'”, observa o analista político da Arko. Parte daquela interceptação foi anulada, mas ele ressalta que o juiz federal de Curitiba agora poderá retomar as apurações sobre a suposta ligação de Lula com as empreiteiras investigadas, sobretudo nos casos do sítio em Atibaia e do tríplex no Guarujá. Ou seja, após uma ligeira trégua, a briga de gato e rato pode ter voltado à capital paranaense.