Muito cuidado

O que a populista brasileira Dilma pode ensinar para Donald Trump, segundo a Bloomberg

As aflições do Brasil são um conto preventivo sobre a perda da riqueza e da estabilidade em meio à tentação populista

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SÃO PAULO – A personalidade e a indicação populista de Donald Trump alimentaram as comparações por parte de alguns analistas com o venezuelano Hugo Chávez, o caudilhotípico, falecido em 2013. Contudo, de acordo com o colunista da Bloomberg Marc Margolis, há outra comparação mais adequada. Isso porque, para encarnar a personalidade do comandante venezuelano, Trump teria que capturar ou pisotear muitas instituições robustas dos EUA – os tribunais, o Congresso, a mídia e isso parece improvável .

Ao invés disso, pelo menos em termos políticos, a comparação mais apropriada e em muitos aspectos não menos desastrosos pode ser com a ex-presidente brasileira Dilma Rousseff, afirma. 

Há muitos traços e peculiaridades políticas de Dilma que agitaram o Brasil e que poderiam anunciar problemas para qualquer democracia dividida e que encontra paralelos com Trump. “Questionar o mercado? Sim. Desprezo pela política convencional? Novamente. Apetite por ‘fatos alternativos’ e ‘imunidade’ à realidade fiscal? Mais uma vez, sim. Tomados em conjunto, esses traços oferecem uma receita para a previsão de um desastre”, destaca Margolis. 

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A predileção de Dilma por fatos alternativos era bem conhecida, diz o colunista. Em 2005, quando atuou como ministra-chefe da Casa Civil do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ela atacou o plano de redução da dívida pública, chamando-o de rudimentar. 

“Seis anos depois, ela estava dirigindo o país e destruindo o livro de regras econômicas. Ela investiu dinheiro em projetos governamentais, derrubou incentivos fiscais e concedeu empréstimos a empresas amigas, cercando a economia com regras de conteúdo local. Soa familiar?”, questiona. Além disso, seu ministro das Finanças, Guido Mantega, até mesmo entrou em uma aventura de política com a ” nova matriz econômica”, em uma aposta para fazer “a América do Sul grande novamente”.

O colunista afirma que isso não funcionou tão bem e que o “sino nacionalista”  incentivou a corrupção e constrangeu a competitividade, com o dano sendo mais evidente na Petrobras. A política de isenções fiscais e empréstimos subsidiados aumentaram os lucros das companhias, mas não atraiu muito investimento. “O estímulo fiscal gerou crescimento, mas sabotou o orçamento enquanto os gastos do governo superavam o desempenho da economia, alimentando a inflação sem criar muitos empregos”, reforça a agência.

É verdade que a economia brasileira surfou no boom de commodities. Contudo, pouco do aumento do PIB veio de avanços estruturais e os ganhos de produtividade representaram apenas um décimo do crescimento, conforme afirmou o diretor brasileiro do Banco Mundial, Otaviano Canuto, para a Bloomberg. 

Segundo a Bloomberg, quando Dilma finalmente respondeu à emergência econômica, no final de 2013, ela piorou as coisas. Ordenou os bancos públicos a ocultar as perdas, violou a lei de responsabilidade fiscal e abriu o caminho para seu próprio impeachment em agosto passado. A economia brasileira encolheu 6% nos últimos dois anos, a pior recessão de um século. Cerca de 12,3 milhões de brasileiros estão desempregados, quase o dobro do número de três anos atrás. Só agora a inflação começou a diminuir. O presidente Michel Temer, que tomou posse após o impeachment de Dilma, mudou a direção em vista para uma maior sobriedade fiscal, mas a sua agenda de reformas estruturais ainda levará a uma estrada de mais dor antes da recuperação.

A Bloomberg ouviu, além de Canuto, a economista do Peterson Institute Monica de Bolle. Ambos destacam que Trump não é Dilma, mas que sugere um caminho de maior populismo e de interferência na economia.

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Os brasileiros também sabem sobre os perigos da preparação de campeões corporativos. “Se os EUA mudam o viés para relacionamentos pouco saudáveis, com o governo entrando nos negócios, isso tende a ser muito ruim”, disse Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central do Brasil. 

Com esse cenário traçado, a Bloomberg conclui: “em última instância, Trump pode ser um executivo muito pragmático, e sua própria base política não toleraria o tipo de insensatez nacionalista que derrubou Dilma Rousseff e as fortunas de seu país e que dominou a América Latina por décadas. Mas as aflições do Brasil são um conto preventivo sobre a perda da riqueza e da estabilidade em meio à tentação populista, e esse é um problema que nenhuma muralha na fronteira pode consertar”, aponta a publicação.