Análise

O primeiro presente de Bolsonaro para o mercado após as eleições

Já é esperado o avanço da agenda de independência do Banco Central como um dos primeiros acenos do novo governo aos agentes econômicos. Bolsonaro teria à disposição uma série de projetos sobre o tema já em tramitação no Congresso

Paulo Guedes e Jair Bolsonaro
(Reprodução/Facebook)

SÃO PAULO – Após a vitória nas urnas, o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) deverá conciliar uma agenda econômica com pautas de costumes focadas na questão da segurança pública.

Essa é a expectativa do analista político Ricardo Ribeiro, da MCM Consultores. O especialista participou, no último domingo (28), de uma mesa redonda na InfoMoneyTV para analisar os primeiros passos do próximo governo.

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Do lado da economia, já se imagina um aceno ao mercado a partir da independência do Banco Central. Além de bem vista pelos agentes econômicos, trata-se de uma agenda cara a Paulo Guedes, futuro ministro da Fazenda.

Há tempos que o economista, apelidado como “posto Ipiranga” ao longo da campanha de Bolsonaro, defende um BC independente, com mandatos não coincidentes com os do presidente.

Um dos desejos seria, inclusive, a possível permanência do atual presidente da autoridade monetária Ilan Goldfajn pelos próximos dois anos, o que já poria em prática a ideia sobre os mandatos, em uma blindagem completa em relação a trocas de governo.

“Essa medida pode evoluir muito rapidamente, porque existem vários projetos em tramitação na Câmara e no Senado. É uma questão de Bolsonaro e seus operadores políticos escolherem qual projeto vão assumir, e pode ser que consigam já uma votação neste ano. Não sei se aprovar integralmente o projeto, mas acredito que alguma evolução significativa conseguirão”, observou Ribeiro durante o programa.

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Do lado da segurança, as expectativas são de avanço célere em agendas como a da flexibilização do acesso a armas de fogo, em contraste com o estatuto do desarmamento.

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Reformas econômicas

Já a pauta da Reforma da Previdência tende a ficar para mais tarde, já que se trata de tema mais complexo. “Essa é um pouco mais complicada, então essa é para o ano que vem, se eles mantiverem a decisão de não pegar carona no projeto de Temer”, complementou o especialista.

Neste caso, a transição de governo será importante para dar novos indicativos. Nas últimas semanas, nomes importantes da área técnica da atual gestão fizeram acenos a Bolsonaro. O então candidato também havia amenizado críticas ao governo Temer, o que pode indicar colaboração nos próximos meses.

Para Paulo Gama, analista político da XP Investimentos, também presente na transmissão ao vivo do último domingo, é preciso observar, a partir da construção de uma agenda de interesse de Bolsonaro, como as diferentes forças que compõem a coalizão do novo governo deverão atuar.

É o caso da equipe econômica, capitaneada por Guedes, e as alas política e dos militares, que costumam ser mais resistentes à reforma previdenciária.

“O primeiro ponto que vamos começar a ver é qual vai ser o discurso adotado oficialmente. Passou a hora da campanha, teremos que ver se vale mais Paulo Guedes ou Bolsonaro e Onyx [Lorenzoni]. Essa contradição, de alguma maneira, terá de ser esclarecida no decorrer das próximas semanas”, observou.

Para o especialista, o andamento desta agenda do novo governo também dependerá de como caminhará a eleição para a presidência das duas casas legislativas. Na Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) já indicou interesse na recondução e é apoiado por figuras relevantes do chamado ‘centrão’ e outras lideranças da casa.

Na avaliação da cientista política Suelma Rosa, do Irelgov (Instituto de Relações Governamentais), é importante observar as sinalizações dadas pelo governo Temer de disposição em colaborar com uma transição, o que pode ajudar na condução de uma agenda comum à de seu sucessor.

“Ele vem sinalizando não só que está disposto a colaborar, mas principalmente em fazer avançar a pauta que ele gostaria de marcar como legado pessoal, que é a reforma da Previdência. Talvez seja uma forma, porque no quadripé do próximo governo ainda tem o lado militar que é muito resistente a reformas que atinjam os servidores públicos ou a corporação. Então, uma forma de se proteger e começar o governo com créditos para fazer avançar outras reformas seria pedir ajuda ao presidente Temer e fazer entrar. Sempre há tempo quando há vontade”, pontuou a especialista.

Caberá ao novo presidente avaliar se vale a pena o ônus neste momento, o que poderia liberar a pauta no início do mandato.

“Precisamos ver quanto ele desce do palanque e e caminha para esse lado de se aproximar e quanto ele acha que isso pode corroer ou não sua popularidade e se vale a pena tentar investir nessa agenda para começar o ano que vem com uma folga pela frente, tirando esse peso dos ombros. Para um presidente eleito, seria um grande presente se virasse o ano e assumisse com uma reforma da Previdência aprovada”, concluiu Gama.

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