Tabaré Vázquez

O presidente de esquerda que quer conquistar o mercado financeiro

"A primeira coisa que um governo deve fazer, antes de ser de direita ou de esquerda, é manejar corretamente os recursos públicos". Discurso do uruguaio Tabaré Vázquez agrada empresariado paulistano

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SÃO PAULO – É preciso fazer o bolo crescer e reparti-lo simultaneamente, sem deixar de lado a responsabilidade econômica ou o atendimento correto dos anseios da população. Essa foi a tônica do discurso do presidente uruguaio Tabaré Vázquez, que esteve em São Paulo para um almoço com empresários e políticos nesta segunda-feira (21). O encontro, realizado pelo Lide (Líderes Empresariais), grupo capitaneado pelo agora prefeito-eleito pela capital paulista João Doria (PSDB), marcou uma ofensiva do representante da frente ampla uruguaia em busca de maior proximidade do meio financeiro para atrair recursos ao seu país. Entre os argumentos oferecidos por Vázquez estão a solidez da democracia uruguaia, o clima de segurança jurídica e facilidade para investimentos, além dos amplos investimentos do país em soluções inovadoras.

“O Uruguai está passando pelo melhor período de crescimento desde sua independência. Nosso país não é um paraíso fiscal. Somos o primeiro lugar dos índices de democracia na região, líderes em baixos níveis de corrupção e convivência pacífica”, afirmou o presidente do país-vizinho. Considerado alguns como personagem ambíguo e por outros um conciliador entre interesses reconhecidamente antagônicos, Tabaré Vázquez se diz um governante de esquerda, mas nem por isso foge do discurso pela importância de falar a língua dos investidores. Muito pelo contrário: o presidente uruguaio traz na ponta da língua as projeções de crescimento para o país (0,5% neste ano e mais de 1% em 2017), assim como as avaliações de rating pelas agências de classificação de risco. “Mantemos o rating BBB da Standard & Poor’s, deixamos de ser importador de energia e passamos a exportador e 90% da energia produzida no Uruguai hoje vem de fontes renováveis”, orgulha-se.

“A primeira coisa que um governo deve fazer, antes de ser de direita ou de esquerda, é manejar corretamente os recursos públicos”, declarou o mandatário, arrancando aplausos do empresariado presente. “Se não há crescimento econômico, o que vamos repartir? Que justiça social podemos fazer? É preciso crescer”, complementou. Estiveram presentes no almoço o prefeito eleito em São Paulo, João Doria, o governador do estado Geraldo Alckmin, além do deputado estadual e presidente da Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo), Fernando Capez. Do lado uruguaio, reforçaram a comitiva o ministro das Relações Exteriores, Rodolfo Nin Novoa, e o prefeito de Montevidéu, Daniel Martínez.

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Confira outros temas também abordados por Tabaré Vázquez:

Mercosul
Durante seu discurso, o presidente uruguaio conclamou os países membros do Mercosul para se unir ao redor de compromissos que levem a maior integração do bloco. “Queremos um Mercosul mais integrado e solidário para a nossa gente”, disse. Tabaré aproveitou a oportunidade para elogiar medidas de correção de assimetrias como o Focen (Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul), mas também voltou a defender a flexibilização do bloco para que os membros possam realizar acordos bilaterais externos, caso das relações de livre-comércio do país-vizinho com o México.

“Não podemos fazer um processo de integração absolutamente fechado. Os países pequenos (Uruguai e Paraguai) precisam de oportunidades de acordos bilaterais”, afirmou o mandatário. Tal posição tem recebido questionamentos sobre a viabilidade de se fortalecer o processo de integração regional a partir do bloco e simultaneamente abrir a possibilidade de acordos para além de seus mecanismos.

Venezuela
“Os quatro membros fundadores do Mercosul deram um prazo até dezembro para que a Venezuela internalize em seu país os acordos que firmou no Mercosul. Se a Venezuela não internalizar os acordos a que se comprometeu, perde seu voto e participará apenas com voz, mas sem voto. Da mesma forma que participará a Bolívia, que solicitou ingressar, e, até que não internalize todos os acordos, não terá voto, e seguimos votando os quatro países fundadores do Mercosul”, afirmou o presidente uruguaio.

A situação do país governado por Nicolás Maduro no bloco do qual faz parte como membro permanente desde o impeachment de Fernando Lugo no Paraguai, em meados de 2012, ganhou contornos mais dramáticos desde que o Uruguai, através de abstenção, deixou de apoiar o país caribenho em votação que tratava da sucessão da presidência rotativa do bloco.

Donald Trump
Um dos momentos que mais chamou a atenção dos presentes ocorreu durante a sessão de perguntas e respostas, quando Vázquez falou sobre a eleição de Donald Trump como presidente nos Estados Unidos e o que se espera dessa imprevista gestão.

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“Preferimos tratar dos feitos concretos, talvez por nossa formação científica. Eu também já estive em campanhas eleitorais. Assim como já disse coisas em campanha e que depois não pude fazer. Quando alguém chega à presidência, não faz o que quer, mas o que pode, porque está muito limitado por distintos poderes: econômico, financeiro, militar, político, a sociedade, o empresariado, os trabalhadores”, afirmou o presidente uruguaio.

“Às vezes, se diz tantas coisas em uma campanha eleitoral, e depois a pessoa assume se dá conta que muitas delas não podem ser cumpridas. Por isso, eu abro compasso de espera para ver o que o senhor presidente eleito dos EUA fará. Caso busque construir um muro com o México, tomaremos uma posição. Se ele desenvolver uma política comercial protecionista, o Uruguai não estará de acordo. Se ele desenvolver a possibilidade de não seguir avançando no processo de integração regional, o Uruguai não está de acordo. Trabalhamos pelo multilateralismo, integração, convivência pacífica. Mas esperemos que se desenvolva seu governo”, complementou Tabaré Vázquez em tom mais apaziguador.

(com Agência Estado)