Entrevista

“O pior inimigo do governo é o noticiário do dia seguinte”, diz economista

Para economista Fábio Giambiagi, o grande desafio a ser enfrentado pelo Brasil é aumentar sua produtividade

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SÃO PAULO – O governo da presidente Dilma Rousseff tem sido constantemente desmentido pelos fatos em suas políticas econômicas, afirmou o economista, chefe do Departamento de Mercado do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e membro do Conselho Superior de Economia da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Fábio Giambiagi, em entrevista ao Instituto Millenium. Os malabarismos fiscais da famosa “contabilidade criativa”, o pouco espaço para manobra em um ano eleitoral, a “bomba relógio” da previdência social e a relação entre baixo crescimento e inflação elevada foram alguns dos temas abordados por Giambiagi no encontro que ocorreu antes do Brasil ter seu rating rebaixado pela agência de classificação de risco Standard&Poor’s.

“O governo disse ‘N vezes’ que não apelaria mais para a contabilidade criativa e para a redução do superávit primário, mas repetidamente é desmentido pelos fatos. O pior inimigo do governo é o noticiário do dia seguinte, que, geralmente, desmente o que foi prometido no dia anterior. Só em 2014, já houve um festival de desmentidos”, afirmou o economista, lembrando de episódios como aquele em que o governo disse que a despesa fiscal da conta do apoio às distribuidoras de energia seria de R$ 9 bilhões – mas já está em R$ 13 bilhões.

Na visão de Giambiagi, o grande desafio a ser enfrentado pelo Brasil é aumentar sua produtividade, tendo em vista o reduzido espaço que os níveis de emprego têm para crescer – já que estão próximo de do máximo. Para ele, aumentar a produtividade precisa virar uma obsessão da mesma dimensão que foi o combate à inflação e a luta contra as altas taxas de desigualdade – que ainda persistem, em escala mais reduzida – anos atrás.

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Confira os principais pontos da entrevista:

Imil: O Brasil apresenta crescimento baixo, inflação alta, juros altos, alta carga tributária e baixa produtividade. Qual é o maior desafio a ser enfrentado?
FG: O grande desafio é transformar um país que cresceu com a ocupação aumentando 2,5% ao ano e baixo crescimento da produtividade em um país onde a oferta de trabalho e o emprego vão crescer apenas 1,0% ao ano e cuja produtividade precisará crescer muito mais. Aumentar a produtividade tem que se tornar uma obsessão nacional assim como foi no passado combater a alta inflação e depois combater os elevados níveis de pobreza.

Imil: A inflação é o pior cenário para a população de baixa renda, no entanto, temos a mesma meta de inflação – 4,5%, com intervalo de tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo – desde 2005. A rigor, alguns analistas dizem que esta opção não tem permitido à economia crescer num ritmo maior. Qual sua visão sobre a questão?
FG: Essa crítica não faz o menor sentido e encontra-se em divórcio (litigioso!) com os fatos. No governo Lula, a meta de 4,5% era respeitada e o país crescia 4,0 % ao ano, em média. Depois que, no governo atual, o centro da meta passou a ser olimpicamente ignorado, o que deveria ter ocorrido com base nessa tese? O país deveria ter crescido mais. Certo? Não: errado. Passamos a flertar com inflação de 6 % e o crescimento caiu para a metade, apenas 2 % ao ano em média, grosso modo. O país tem que deixar para trás essas teses obtusas, até porque defender o respeito à meta de 4,5 % não pode ser tratado como um ato de ortodoxia, como se tivéssemos um alvo de inflação de menos de 2 % ao ano.

Imil: O senhor vem alertando há alguns anos que, apesar de uma população ainda jovem, o Brasil tem um alto gasto previdenciário e que nosso “bônus demográfico” está com sua data de vencimento declarada. O governo e a sociedade têm se atentado mais a este tema nos últimos anos?
FG: O Brasil tem uma certa dificuldade de antecipar questões. Isso é um pouco parte da alma nacional. Basta ver a enorme proporção de gente que entrega a declaração do Imposto de Renda nos últimos dois dias, quando poderia entregar muitas semanas antes. Por isso, não faço ilusões de que alertas acerca de problemas que poderemos ter em 2020 ou 2030 recebam muito eco. Ao mesmo tempo, o “tic tac” dos dados está aí, jogando em favor das minhas teses: a despesa do INSS era de 2,5% do PIB em 1988 e será da ordem de 7,5 % do PIB este ano. Em algum momento, o que era óbvio para os especialistas se tornará claro para a liderança política. O papel dos técnicos é informar o debate com números. O momento de colocar isso na rua será definido pelo poder político, como é normal numa democracia.

Imil: Mas estes debates mexem muito com emoções. Os custos são imediatos, enquanto os benefícios dispersos no tempo. Como o governo poderia lidar com isto, levando em conta o desconhecimento das pessoas sobre a importância de algumas reformas, como o corte de custos?
FG: Há que tirar um pouco do fetiche e, principalmente, evitar que se crie uma situação de pânico. Ninguém vai ameaçar os aposentados, ninguém que esteja às vésperas de se aposentar terá sua vida mudada dramaticamente. Temos que fazer uma mudança que seja implementada suavemente ao longo de vários anos. Eu desconfio que a resistência seria bem menor do que a que se supõe se as coisas forem explicadas de forma decente. Por que uma pessoa que teria que trabalhar 35 anos para se aposentar e é jovem irá se revoltar e quebrar tudo nas ruas se tiver que trabalhar 38 ou 39 anos, entendendo que isso é parte natural de uma mudança demográfica, coisa que até uma pessoa que não sabe ler ou escrever pode entender? Precisamos “desemocionalizar” um pouco esse debate.

Imil: Alguma consideração final?
FG: A profissão de fé no cumprimento da meta fiscal deste ano me lembra a frase de um antigo ministro da Fazenda colombiano, Guillermo Perry, que, rindo, costumava dizer, quando lhe cobravam declarações mais enfáticas sobre a questão fiscal, que “austeridade fiscal é como a atividade sexual. Em geral, quem fala muito dela, na verdade pratica pouco”. O importante é ser austero e não falar, apenas. E os números estão aí: em 2011 tivemos superávit primário de 3,1 % do PIB, em 2012 de 2,4 % do PIB, em 2013 de 1,9 % do PIB e nos últimos 12 meses já caiu para 1,7 % do PIB. Não adianta tapar o sol com a peneira.

Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui.