Passado condena?

O grande problema do Brasil é o passado de Dilma Rousseff, diz Financial Times

Presidente deve fazer uma das coisas mais difíceis para qualquer pessoa mais velha: mudar os hábitos de toda uma vida e conviver melhor no ambiente político; se não, o Brasil enfrentará mais alguns anos ásperos

SÃO PAULO – A presidente Dilma Rousseff (PT) foi reeleita presidente da República e, se depender da imprensa internacional, as críticas devem continuar.

Em artigo deste final de semana, o jornal britânico Financial Times destacou que o grande problema do Brasil é o passado de Dilma Rousseff, uma vez que ela se mostra pouco disponível para diálogo, em meio a um cenário econômico bastante desfavorável. 

“Levando em conta o declínio nas fortunas do Brasil nos últimos dois anos, a presidente Dilma Rousseff trouxe uma jogada política marcante, persuadindo os eleitores para reelegê-la, ainda que com uma maioria reduzida. Os mercados, no entanto, não parecem convencidos”, afirma.

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Segundo o Financial Times, o histórico econômico desde 2012 tem sido ruim, “para dizer de forma diplomática”. Embora atingidas por ventos econômicos globais, Índia e China não estão nem perto da recessão técnica o Brasil agora está experimentando, afirma a reportagem.

Enquanto isso, a inflação está resiliente, em um cenário em que os eleitores brasileiros são bastante sensíveis dado o cenário de hiperinflação nos anos 1980 e 1990. E o aumento de preços atingiu principalmente o setor de serviços públicos, como o de transportes, o que motivou os protestos que tomaram as ruas em junho de 2013. E também colocou em xeque as instituições públicas e destacaram a infelicidade generalizada com os partidos políticos.

O jornal ressalta ainda que Dilma não conseguiu entregar a reforma política: ela está presa nas engrenagens da máquina que Dilma diz que quer corrigir. Seus antecessores FHC e Lula tiveram mandatos com maiores parcerias com os outros poderes, ao contrário de Dilma, aponta o jornal. “FHC quebrou a espiral da inflação e Lula iniciou um trabalho heroico de tirar dezenas de milhões de pessoas da pobreza”, ressaltou o jornal. 

Porém, segundo o FT, Dilma não teve capacidade para fazer o mesmo e isso está enraizado em sua personalidade. O jornal cita o perfil de Dilma feito pela revista Piauí, que mostra que seu estilo político foi formado por sua trajetória como revolucionária de esquerda durante as décadas de 1960 e 1970, período em que ela foi presa e torturada.

A jornalista que fez o perfil, Daniela Pinheiro, cita a fala de um ex-ministro. Ele fala que a tendência a agir como um membro de uma cela subterrânea explica tudo: “A preferência pela solidão, autossuficiência, a desconfiança, o controle da informação, o hábito de manter grandes somas de dinheiro em espécie em caso de ‘algum tipo de emergência’ ou o hábito de dormir com seus sapatos caso ela precise rapidamente. Ela ainda é aquela garota da década de 1960 “. 

Porém, afirma o FT, para atuar na política brasileira, é preciso ser sociável e formar redes infinitas, além de ter carisma. Enquanto Lula e FHC se gabavam desta capacidade, o mesmo não acontece com Dilma, diz o jornal, que ainda afirma: seria improvável que ela tivesse vencido as eleições se Lula não tivesse atuado mais na reta final da campanha.

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“A quase leninista fé de Dilma de que grandes empresas de commodities têm de ter influência do Estado, como a companhia petrolífera estatal Petrobras ou o conglomerado de mineração Vale, levou à negligência dos setores mais dinâmicos das economias industriais e de serviços. Ela deixou tradições burocráticas do colonialismo português sufocarem a inovação mais do que qualquer um de seus antecessores. No ranking do Banco Mundial sobre a facilidade de se fazer negócios, o Brasil se encontra na lamentável 120ª posição”.

O FT pondera ao dizer que, na semana passada, Dilma pareceu reconhecer algumas deficiências, prometendo que seu novo governo seria mais inclusivo. “Mas para reverter situação econômica lastimável do país, para não mencionar o escândalo de corrupção da Petrobras ainda a ser desvendado, ela deve fazer uma das coisas mais difíceis para qualquer pessoa mais velha: mudar os hábitos de toda uma vida. Se não, o Brasil enfrentará mais alguns anos ásperos”, conclui.