Ressurgindo das cinzas

O Brasil voltará aos seus dias de glória? Consultoria compara País à Índia e diz que sim

O ajuste fiscal e a política monetária têm a chave para a recuperação, afirma consultoria de investimentos

Aprenda a investir na bolsa

SÃO PAULO – O Brasil não está passando por um momento bom, destacam diversos analistas, o que também é reiterado pela consultoria de investimentos Ashmore Group. O especialista em mercados emergentes da Ashmore, Jan Dehn, fez um paralelo do Brasil com a Índia de alguns anos atrás – crescimento lento, inflação alta, uma moeda fraca, desequilíbrios externos e os formuladores de políticas com menos credibilidade. 

Porém, como a Índia, também tem uma economia com uma reserva cambial muito forte, níveis sustentáveis de dívida e um futuro promissor devido à sua dimensão geográfica significativa, grande população e perfil demográfico.

O Brasil pode restaurar glórias passadas? Nós pensamos que a resposta é sim”, afirma Dehn, destacando que o problema do Brasil depende, principalmente, da reversão para a ortodoxia econômica depois das políticas econômicas ultra-keynesianas desde 2009. Isto significa que o ajuste fiscal e a política monetária têm a chave para a recuperação. E, uma vez que as finanças públicas respondam ao ajuste em curso, a expectativa é de que a economia se recupere, com um período de melhoria de crescimento e inflação cedendo.

Aprenda a investir na bolsa

E este é um bom augúrio para investidores dispostos a comprar a fraqueza atual. “Para além de 2018, a perspectiva de um novo governo também oferece um maior potencial de valorização na forma de um estado mais eficiente”, afirma.

O relatório do Ashmore Group destaca ainda a trajetória do ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, que ganhou fama ao declarar a guerra cambial em 2010. Os comentários de Mantega foram seguidos por uma série de mudanças regressivas de política econômica que rapidamente manobraram o País para um campo da política do Brasil na década de 1950 e 1960, incluindo os impostos sobre as entradas de capital, controles de preços, política fiscal irresponsável e excessiva interferência política no Banco Central .

“Os resultados eram previsíveis: a confiança das empresas diminuiu, o mercado de ações foi para baixo, os investidores estrangeiros se retiraram, a moeda se enfraqueceu, a inflação começou a subir e, finalmente, o crescimento começou a se enfraquecer seriamente”, destaca o relatório. E as condições econômicas se deterioraram tão rapidamente que a presidente Dilma Rousseff mal ganhou a reeleição em meados de 2014 e já se deparou com um declínio da herança da atmosfera de confiança de apenas cinco anos antes. 

E os problemas não param por aí, em meio à deflagração da Operação Lava Jato, que investiga o esquema de corrupção na Petrobras. “Hoje é amplamente reconhecido que os problemas na Petrobras são de uma escala que qualifica o caso como um manual do que não deve ser feito numa estatal”, afirma o analista da Ashmore.

Base política para virada
Ironicamente, a sobrevivência política de Dilma na eleição mais disputada da história recente do Brasil pode ter sido a melhor coisa que aconteceu para o Brasil em meio ao mal-estar macroeconômica e o escândalo em erupção na Petrobras. “Indiscutivelmente, um presidente de oposição sem o controle do parlamento teria lutado para aprovar reformas, enquanto Dilma e o PT agora se viram com poucas opções para ‘chegarem do outro lado’, tanto para consertar a economia quanto para afastar o risco crescente de impeachment por causa do escândalo na Petrobras”.

O novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, lidera os esforços para lidar com os opositores ao pacote, enquanto o Banco Central tem restaurado seu foco em perseguir a meta de inflação. O poder político deslocou de Dilma e PT para o PMDB, que agora ‘dá as cartas’ na legislatura, embora nos bastidores tente escapar das consequências políticas de ajuste, afirma a Ashmore. 

PUBLICIDADE

A consultoria de investimentos destaca que, com exceção do PT, muitos ganham com o acordo. As empresas do Brasil em breve estarão de volta ao negócio, o que ajuda a oposição. O  PMDB tem poder real, desde que o arranjo atual continue em vigor. Ainda assim, o próximo ano  não será tão bom. A batalha para atribuir a culpa política acompanhará cada medida, destaca a Ashmore.

Ajuste fiscal
O ajuste fiscal já está bem encaminhado sob a liderança de Levy, até agora, com forte apoio de Dilma, afirma a consultoria. Há dificuldades na aprovação do ajuste no Congresso. Mas, o que tornam as coisas mais difíceis no Brasil são os gastos rígidos, o que significa que os cortes serão desproporcionalmente concentrados em investimentos ao invés de despesas correntes. Isto é ineficiente e amortecerá a recuperação.

A rigidez na economia também coloca maior ônus sobre o Banco Central na luta para trazer as expectativas de inflação de volta com a meta de inflação. “Em suma, 2015 será um ano difícil para o Brasil e 2016 provavelmente será desafior também”, afirma a Ashmore. E a previdência e os investimentos em infraestrutura devem entrar em foco nos próximos 18 meses. E um papel importante será dado para o setor privado. 

“Pensamos que as disciplinas fiscal e monetária agora a serem exibidas pelo governo vão remover gradualmente o excesso de demanda da economia. As condições são semelhantes aos de meados de 2011, que viu um forte rali em títulos. Como a inflação começando a cair, o banco central será capaz de cortar as taxas. Os locais se tornarão mais convencidos sobre a sustentabilidade dos preços em expansão e as ações subirão”, destaca Dehn. Além disso, o investimento começará lentamente a engrenar e, com defasagem, o emprego vai melhorar para apoiar o consumo e o crescimento do crédito. Um período melhor deve emergir com crescimento gradualmente mais forte ao lado de inflação em queda. Os influxos estrangeiros apoiarão e até mesmo valorizarão o real. E os fundamentos estruturais subjacentes são sólidos. Os níveis de endividamento são sustentáveis, a demografia é benigna, o país é rico em recursos e o Banco Central tem um dos maiores estoques de reservas cambiais do mundo. Enquanto isso, apesar de muitos desafios atuais, a Petrobras também oferece valor a partir de uma perspectiva de renda fixa. Apoiado pelo governo, a Petrobras continua a ser uma empresa altamente eficiente em seu negócio principal de explorar petróleo em ambos os reservatórios de águas rasas e profundas.

A autorização do governo para aumentar os preços de combustíveis deve dar proeminência à Petrobras e fazer com que ela volte a registrar bons números. Já as discussões em torno da lei de conteúdo local mínimo e da criação de uma política de preços de combustíveis orientada para o mercado, sem interferência do governo percorre um longo caminho para restaurar a rentabilidade a curto/médio prazo.

Além disso, a introdução de profissionais para assumirem cargos administrativos e em lugares-chave devem criar as condições para uma eventual recapitalização da companhia, afirma a Ashmore. Embora a execução dessas reformas seja gradual, o fato de que o Congresso está debatendo mostra-lhes um sentido positivo da viagem.

O Brasil vai continuar sendo a “França da América do Sul”?
 especialista em mercados emergentes da Ashmore destaca que todos os partidos políticos no Brasil vão começar a se concentrar na eleição 2018 por volta do primeiro trimestre de 2017, o que significa que a trégua entre o governo Dilma e os outros partidos sobre o ajuste fiscal provavelmente não vão sobreviver para além de 2016.

E afirma: “embora seja muito cedo para dizer, as probabilidades favorecem uma mudança de governo. Esta poderia ser uma boa notícia para os investidores. Um retorno ao poder do principal partido de oposição do Brasil, o PSDB deverá contribuir para reforçar o impulso para uma economia mais liberal e aberta. No entanto, isso não garante a total liberalização da economia. Em comparação com outros países da região, a Constituição Brasileira de 1988 consagra fundamentalmente um estado grande e mais intrusivo do que em muitos outros países. Até mesmo o PSDB iria se ver numa situação difícil no sentido de reformular totalmente o aparato jurídico vigente. Assim, como na França, um estado grande pode vir a ser uma característica quase permanente da economia brasileira”.

PUBLICIDADE

Mesmo assim, os governos podem ter sucesso e ir na direção se uma operação mais eficiente. “Este, então, será o principal desafio que se coloca para o governo do Brasil – para respeitar as preferências dos brasileiros para um estado grande, e, ao mesmo tempo garantir que haverá valorização sobre o capital.

Alguns riscos permanecem, contudo, uma vez que a perspectiva positiva não é isenta de riscos. O impulso da reforma vai minguar à medida que a credibilidade for gradualmente restaurada. A equipe econômica deve, eventualmente, mudar à medida que o trabalho duro começa a dar frutos.

Estas não são as principais preocupações, afirma. O risco mais importante é que a presidente Dilma Rousseff poderia ser envolvida. Dilma, caso seja envolvida no escândalo de corrupção da Petrobras, perde o seu apoio no Parlamento (por exemplo, com uma ruptura com o PMDB) poderia alterar as perspectivas para pior, pelo menos no curto prazo. 

E, para concluir, Dehn volta para 2013, quando o banco de investimentos Morgan Stanley colocou a Índia como um dos 5 frágeis (assim como o Brasil). No caso da Índia, saiu das “cinzas” e entregou uma das maiores taxas de crescimento do planeta. 

No caso do Brasil, a analogia com a Índia só pode ser tomada até agora; a Índia tem um novo governo, enquanto o Brasil ainda está com uma administração liderada pelo ‘cansado’ PT”, diz o especialista, que completa: “mas os problemas que o Brasil enfrentam hoje são praticamente os mesmos enfrentados pela Índia apenas poucos anos atrás. O Brasil já está dando passos importantes na direção certa. Muitos ajustes estão em andamento, especialmente no lado fiscal e monetário, outros estão por vir. Uma coalizão entre os partidos no parlamento do apoia a reforma. O Brasil tem excelentes chances sair da crise atual”, finaliza Dehn.