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O jornal The New York Times publicou nesta sexta-feira (29) uma reportagem que analisa o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, que começa na próxima semana no Supremo Tribunal Federal (STF), descrevendo o processo como uma rara demonstração de resiliência democrática — mas também como um alerta sobre os riscos de concentração de poder nas mãos do Judiciário brasileiro.
Com o título “O dilema democrático do Brasil: como processar um presidente?”, o texto, destaca o julgamento de Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, afirmando que o Brasil está fazendo algo que os Estados Unidos “não conseguiram”: levar um ex-presidente a julgamento por tentar se manter no poder após perder uma eleição.
“Muitos brasileiros — e muitos americanos observando à distância — veem este momento como um triunfo da democracia”, escrevem os autores.
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No entanto, apesar do reconhecimento, o jornal americano sublinha um paradoxo: o caminho até o julgamento também levanta dúvidas sobre os próprios limites da democracia brasileira.
STF em papel inédito
Segundo o NYT, o STF assumiu um papel inédito e centralizador ao longo dos últimos anos, em especial por meio da figura do ministro Alexandre de Moraes. “Nos últimos seis anos, a Corte concedeu a si própria novos e extraordinários poderes para enfrentar o que via como uma ameaça extraordinária representada por Bolsonaro”, diz o texto.
A reportagem detalha que, em resposta às investidas do então presidente e de seus apoiadores contra o sistema eleitoral e contra os próprios magistrados, Moraes ordenou buscas, censurou contas em redes sociais, bloqueou plataformas e prendeu pessoas sem julgamento prévio.
“Como reagiu a Corte? Com várias falhas, com uma série de erros. Esses erros não apagam ou justificam a tentativa de golpe, mas não deveriam ser repetidos”, afirmou ao NYT o jurista e ex-desembargador paulista Walter Maierovitch.
Já o professor de direito constitucional da USP Conrado Hübner Mendes apontou um dilema institucional: “A Corte foi forçada a entrar em territórios que nunca havia pisado antes. Mas os ministros não podem deixar que interesses individuais ou a política contaminem suas decisões”, disse. “Isso fragiliza a instituição.”
O New York Times também aponta que o julgamento de Bolsonaro ganhou contornos internacionais, sobretudo após a intervenção direta do presidente americano Donald Trump. O jornal destacou a carta enviada ao presidente Lula, na qual Trump classificou o processo como uma “caça às bruxas”, e as sanções impostas a Moraes, além das tarifas contra o Brasil.
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Condenação definida?
Segundo a reportagem, há uma percepção de “inevitabilidade” da condenação de Bolsonaro em Brasília. O NYT aponta que a composição da turma julgadora favorece esse desfecho, por ter como membros, por exemplo, Flávio Dino, ex-ministro da Justiça de Lula, e o ex-advogado pessoal do presidente, Cristiano Zanin.
Apesar disso, o jornal evita afirmar que o desfecho está selado, mas ressalta a magnitude das provas reunidas ao longo de dois anos de investigação. A reportagem lembra que o próprio Bolsonaro admitiu ter cogitado estratégias para se manter no poder, embora diga que todas estavam previstas na Constituição.
A reportagem encerra com uma reflexão sobre o que vem depois. “Além do julgamento, a Corte terá que decidir se continuará exercendo seu imenso poder, enquanto o país se prepara para sua próxima eleição presidencial — outro teste para seu processo eleitoral em uma nação profundamente polarizada”.