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SÃO PAULO – A despeito da crise de confiança que tomou conta da economia brasileira na maior parte de 2002, motivada pelo temor de uma até então possível vitória do PT nas eleições para a Presidência, o desempenho do mercado nos primeiro dias do governo Lula vem superando o registrado no início do segundo mandato de FHC.
Ao contrário do período atual, onde as dúvidas dos investidores se originam principalmente da incerteza quanto às políticas a serem adotadas pela gestão petista, no início de 1999, a fragilidade dos fundamentos da economia brasileira eram os principais focos de tensão no mercado.
Contudo, observando o desempenho do mercado acionário e do dólar comercial, o governo Lula parece estar gradualmente contornando a rejeição dos investidores a uma gestão petista da política econômica. A principal razão para isto é a formação de um núcleo de moderação dentro do governo, que lastreia sua política econômica, neutralizando as pressões de grupos mais radicais.
Início de governo FHC foi marcado por desvalorização
Os primeiros dias do segundo mandato de Fernando Henrique foram marcados pela desvalorização do real, que teve como causa direta a saturação da fragilidade fiscal e, principalmente, das contas externas da economia brasileira.
Desta forma, o dólar comercial iniciou o ano de 1999 cotado a R$ 1,2078, chegando nos fins do mesmo mês de janeiro a R$ 1,9832. Já na Bovespa, os primeiros dias acabaram fechando em forte baixa.
Confira abaixo o desempenho da moeda norte-americana e do Ibovespa durante os primeiros quatro dias úteis do segundo mandato de FHC e do governo Lula.
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| Governo Lula | Governo FHC | |||
| Dia útil | Dólar Comercial | Ibovespa | Dólar Comercial | Ibovespa |
| 1º | R$ 3,54 | 2,97% | R$ 1,2078 | 2,31% |
| 2º | R$ 3,43 | 3,61% | R$ 1,2085 | 2,43% |
| 3º | R$ 3,35 | -0,02% | R$ 1,2096 | 3,09% |
| 4º | R$ 3,29 | 2,97 | R$ 1,2101 | -5,13% |
Mérito de FHC foi início do ajuste fiscal e das contas externas
Contudo, além da consolidação da democracia, um dos maiores legados da Era FHC é o início do ajuste das contas públicas, viabilizado através da institucionalização de práticas transparentes e austeras de manejamento do erário, com destaque para a Lei de Responsabilidade fiscal. Com isto, ao contrário do primeiro mandado, a partir de 1999 o governo FHC obteve seguidos superávits fiscais.
Vale ainda citar o ajuste das contas externas a partir de 2002, embora tenha sido ele obtido muito mais por um forte processo de desvalorização cambial, com implicações inflacionárias diretas, do que propriamente por ganhos de competitividade dos produtos brasileiros.
Governo Lula obteve benefício da dúvida do mercado
Depois de um longo período de desconfiança e dúvidas quanto à consistência das políticas adotadas, o governo Lula parece estar finalmente ganhando a confiança dos mercados. A ascensão da figura de Antonio Palocci, atual Ministro da Fazenda, simboliza a materialização do PT light no poder.
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Embora a presença de economistas da PUC-Rio, maciça durante a Era FHC, não se repita na atual equipe econômica, a sua composição foi bem recebida pelos investidores. Para a Secretaria de Política Econômica foi escolhido o economista da FGV-Rio, Marcos Lisboa, Phd em economia pela Universidade da Pennsylvania.
Já a Secretaria Executiva foi entregue a Bernard Appy, professor da PUC-SP e sócio da LCA Consultores, enquanto o secretário de assuntos internacionais será Otaviano Canuto, economista da Unicamp e da pós-graduação da USP.
Outro nome de peso foi o de Joaquim Levy, Phd pela Universidade de Chicago, principal escola de práticas liberais, para a Secretaria do Tesouro Nacional. Finalmente, optou-se pela continuidade na Receita Federal, com a nomeação de Jorge Rachid, até então adjunto de Everaldo Maciel, para chefiar o coração da arrecadação do governo.
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Nome de Henrique Meirelles também é bem recebido
A escolha de Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central agradou o mercado, vindo a confirmar as expectativas dos investidores com declarações em favor de uma política de crescimento condicionada a taxas de inflação reduzidas.
Um fato curioso na escolha do nome do ex-presidente mundial do BankBoston é que Henrique Meirelles deixou a instituição norte-americana justamente para concorrer a uma cadeira na Câmara dos Deputados pelo PSDB de Goiás, tendo inclusive se consagrado o mais votado no Estado.
Núcleo moderado lastreia governo Lula
Além dos sinais para o mercado emitidos através da formação da equipe econômica, outro ponto positivo do governo Lula foi a formação de um núcleo de confiança, abrangendo os principais ministérios envolvidos com a condução da política econômica, incluindo setores chaves com a Agricultura e Desenvolvimento.
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A escolhas de Luís Fernando Furlan, executivo da Sadia, empresa com larga tradição exportadora, para o Ministério de Desenvolvimento, e de Roberto Rodrigues, para o Ministério de Agricultura, nicho de grande competitividade da economia brasileira, são um sinal claro da preocupação do governo Lula de consolidar o ajuste das contas externas, além de criar condições para a retomada do crescimento através da expansão das exportações.
Além disto, é importante citar que o Ministro da Previdência, cuja reforma é uma das principais metas do governo, conforme já anunciou Palocci, foi destinado a Ricardo Bezoini, que, a despeito de ser ex-presidente do sindicato dos bancários de São Paulo, o que a priori poderia significar uma tendência contra-reforma, já em seu primeiro discurso mostrou-se favorável a uma mudança significativa no setor.
Lula delega ministérios neutros a setores menos moderados
Outra estratégia adotada pelo Presidente Lula foi a designação de nomes ligados às alas mais radicais do PT, ou mesmo que foram escolhidos em função das alianças de sustentação do novo governo, para setores com menor impacto sobre a economia do país.
Um exemplo do primeiro caso é a escolha de Agnelo Queiroz, do PC do B para o Ministério dos Esportes, enquanto o nome de Walfredo Mares Guia, do PTB e empresário do setor de educação, sem experiência no segmento de turismo, nomeado para o Ministério do setor, é um exemplo de opção política.
Boa convivência entre correntes do governo é imperativa para Lula
Diminuída as incertezas do mercado, com os sinais positivos emitidos pelo governo Lula e sua equipe de governo, a próxima grande questão a ser enfrentada pelo governo, além de suas metas de desempenho econômico e social, é a manutenção da coexistência de correntes díspares dentro do governo.
As tensões surgidas com a nomeação de Henrique Meirelles para o Banco Central, sintetizadas na posição da Senadora Maria Helena, do próprio PT, contra o nome do ex-presidente do BankBoston, são um prenúncio dos conflitos internos que ainda poderão surgir no governo.
A proposta de independência do BC, defendida pelo Ministro da Fazenda deverá ser o próximo foco de tensão entre a ala moderada do partido e os mais radicais. Portanto, a capacidade de gerir as demandas de ambas facções, além das pressões adicionais de outros setores da sociedade, incluindo aí o mercado, exercerá um papel fundamental para o destino do governo Lula.