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“Novo governo” e demissão de ministro: as falas de Dilma após votação do impeachment

"Eu recebi 54 milhões de votos, e me sinto indignada com a decisão que recepcionou a questão da apreciação da admissibilidade do meu impeachment", disse

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SÃO PAULO – A presidente Dilma Rousseff (PT) deu sua primeira declaração pública sobre o resultado da votação do impeachment que ocorreu no domingo (17) na Câmara dos Deputados. Abrindo sua fala, a petista disse que hoje se “sente injustiçada” porque o processo não tem base legal. “Eu recebi 54 milhões de votos, e me sinto indignada com a decisão que recepcionou a questão da apreciação da admissibilidade do meu impeachment”, disse a presidente. 

“Pode parecer que eu esteja insistindo em uma tecla só, mas é uma tecla muito importante, a da democracia. Não há crime de responsabilidade fiscal. Os atos que eles acusam foram praticados por outros presidentes antes de mim, e não se caracterizaram como ilegais ou criminosos”, afirmou Dilma.

Sobre as pedaladas, Dilma voltou a afirmar que não houve nenhum crime. Ela disse que seus atos foram baseados em pareceres técnicos e que não a beneficiaram de maneira pessoal. “Saio de consciência tranquila, porque eu pratiquei esses atos, são praticados por todo presidente em seu cargo”, completou.

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“É muito interessante porque não há contra mim acusação de desvio de dinheiro público. Não há acusação de ter dinheiro no exterior. Por isso me sinto injustiçada. Aqueles que têm contas no exterior presidem sessão com uma questão tão grave que é o impedimento de um presidente”, afirmou Dilma fazendo uma referência ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha, acusado de ter contas ilegais no exterior.

Dilma reclamou ainda do fato de que nos últimos 15 meses não conseguiu governar com um clima de tranquilidade, criticando as dificuldades criadas no Congresso para que ela pudesse avançar com melhorias para o País. “Pautas-bombas com está que está em curso que é um projeto de decreto legislativo que ao transformar a correção da divida dos estados em uma correção baseada em juros simples, provoca um rombo nas finanças do país de R$ 300 milhões”, disse a presidente.

“Eu acredito, e é muito ruim para o Brasil, que o mundo veja que a nossa jovem democracia enfrenta um processo com essa baixa qualidade, principalmente quando se trata da formação de culpa da presidente”, afirmou. Ela ainda questionou o andamento do processo: “no início, quando dá aceitação da abertura do processo, as razões que levam à aceitação não são razões fundadas na necessidade de aceitação, mas numa espécie de vingança pelo fato de não termos aceitado negociar os votos dentro da comissão de ética”.

A presidente Dilma disse ainda que “agora, nessa segunda etapa desse processo, eu saio dela também com a sensação de indignação pelo fato de que o rosto na imagem que foi transmitida para o mundo é o do desvio do poder, do abuso de poder, do descompromisso com as instituições e com as práticas éticas e morais”.

A petista afirma que sempre lutou pela democracia e vai continuar lutando por ela. “Enfrentei por convicção a ditadura, e agora enfrento um golpe de Estado, que não é tradicional da minha juventude, mas infelizmente é o golpe tradicional da minha maturidade”, disse. Para ela, “nenhum governo será legítimo, será um em que o povo pode se reconhecer nele como produto da democracia, sem ser por obra do voto secreto, direto, numa eleição convocada previamente, na qual todos os cidadãos participem”.

“Não se pode chamar de impeachment o que é uma tentativa de eleição indireta. Ela se dá porque os que querem acender ao poder não têm votos para tal”, disse a presidente, aproveitando para criticar diretamente o vice-presidente Michel Temer, apesar de não citar o nome dele. “Eu não vou me abater, não vou me deixar paralisar por isso, vou continuar lutando, e vou lutar como fiz toda a minha vida”, disse.

Dilma disse ainda que não começou o fim. “Nós estamos no início da luta. Ela será muito longa e demorada, ela não é simples e exclusivamente uma luta que envolve o meu mandato. Não é por mim, mas é pelos 54 milhões de votos que eu tive. É uma luta também de todos os brasileiros. Uma luta pela democracia. Sem ela não há e não haverá crescimento econômico”, completou.

Questionada por jornalistas, a presidente disse que não viu argumentos sobre ressentimento de parlamentares na votação de ontem. “Eu vi vários argumentos, geralmente pela família, por Deus. Mas não vi concretamente uma discussão sobre ressentimento”. “Qualquer governo pode cometer erros, mas ressentimento não é justificativa para processo de impeachment”, completou.

Sobre a base legal do processo, referendado pelo STF, a presidente Dilma disse que o fato do Supremo decidir como será o andamento do processo, não significa que ele decidiu sobre o mérito. “A única decisão de mérito foi de que o processo tinha que se ater há denúncia original”. Dilma afirmou não ter conhecimento de outra decisão do STF que diga respeito a aceitação, comentário ou avaliação sobre o mérito do processo.

Sobre o ministro da Aviação Civil, Mauro Lopes, Dilma confirmou sua saída da equipe do governo após o voto pelo impeachment na véspera: “Mauro Lopes votou pelo impeachment, e, portanto, não é mais ministro”. A presidente disse que pode vir a repactuar o governo, mas agora não se trata de mudar ministérios ou tomar medidas em termos de cargos. “Aquelas que votaram pelo impeachment não há justificativa para ficar no governo, por uma simples questão de consequência de seus próprios atos”.

Dilma terminou falando que será necessário um grande rearranjo do governo. “Nós teremos um outro governo. Vamos construir um novo caminho. Já enfrentei o terceiro turno, vou para o quarto turno. Além das medidas que já anunciamos, lançaremos outras medidas”, afirmou. Além disso, a presidente disse que espera que o Congresso não fique parado e analise as medidas econômicas divulgadas por ela.