Novidades da Embraer na área de defesa estão sendo supervalorizadas, diz Citi

Em entrevista à InfoMoney, analista afirma que ações estão "caras" e que é possível que atual rali veja correção após eleições

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SÃO PAULO – Setembro vem se mostrando bastante positivo para a Embraer (EMBR3). Desde o início do mês, a empresa anunciou diversas novidades sobre o seu programa de defesa, incluindo declarações de intenção e parcerias de desenvolvimento com os governos de Portugal, Chile, Colômbia e República Tcheca, entre outros.

Na esteira do noticiário, as ações acumulavam, até terça-feira (28), alta de 11,02% no período – acima da alta de 6,27% do Ibovespa no mês, e mais de um terço do avanço de cerca de 27% das ações da empresa no ano.

Ao mesmo tempo em que fez esses anúncios, a empresa comunicou que seu conselho de administração aprovou uma mudança no estatuto da companhia. O texto, que atualmente coloca o objetivo legal como “projetar, construir e comercializar aeronaves e materiais aeroespaciais e respectivos acessórios, componentes e equipamentos”, deve ser alterado para “projetar, construir e comercializar equipamentos, materiais, sistemas, softwares, acessórios e componentes para as indústrias de defesa, de segurança e de energia”, o que implicaria um aumento das possibilidades de atuação.

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Mas há algum motivo para tantas novidades envolvendo o setor de defesa serem anunciadas de uma vez só?

Coincidência, política e estratégia
Na visão do analista do Citigroup, Stephen Trent, é mais provável que não. Para ele, a mudança de estatuto está mais fortemente relacionada à necessidade de atualizá-lo, o que não era feito já há algum tempo.

Assim, a proximidade dessa notícia com os anúncios do programa militar KC 390 seriam apenas uma coincidência. Entretanto, o analista não descarta que o Governo possa estar fazendo algum tipo de promoção política pré-eleitoral ao promover o KC 390. “Parece que a questão política está tendo um papel significativo nesse sentido”, diz Trent.

O analista também não vê os fatores como uma mudança em termos de estratégia da empresa. “O que pode sugerir alguma leve mudança de estratégia da companhia é o que eles poderiam fazer em termos de geração de energia”, explicou o analista à InfoMoney. “Não acho que eles vão começar a perfurar poços de petróleo, é claro, mas talvez sua expertise em motores e propulsão possa ser usada em uma fazenda eólica, por exemplo, que é algo mais semelhante a uma hélice”.

Expansão da defesa
Segundo Trent, alguns dos principais pares internacionais da brasileira têm atividades muito maiores nesse segmento, em especial as companhias russas, norte-americanas e do oeste europeu. Cabe lembrar que, no último ano, o negócio de defesa representou apenas 9% da receita da Embraer, frente a 62% do setor comercial.

“Temos visto, nas empresas globais, um aumento de atividade nos programas de defesa – nem tanto em termos de transporte, mas sim de sistemas de mísseis, veículos aéreos não tripulados, etc”, explica o analista do Citi. A Embraer, diz ele, poderia estar vendo uma oportunidade nesse negócio em expansão.

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Foco errado
Entretanto, Trent se mostra bastante receoso, apontando que o foco do mercado não está onde deveria estar. “Antes que esse negócio gere algum tipo de receita, há custos de desenvolvimento e design envolvidos, se não para a própria Embraer, para o Governo e seus parceiros”, argumenta.

A incerteza acerca dessas receitas futuras também preocupa o analista. O primeiro ponto de Trent é que os anúncios que tanto animaram o mercado são apenas intenções de compra, não contratos com pedidos confirmados. Ele exemplifica com um programa semelhante na Europa, que já recebeu pedidos para 180 aeronaves e, ainda assim, deve dar prejuízo.

“E mesmo que algumas dessas intenções se transformem em contratos, não terão impacto algum nas receitas por seis ou sete anos. Eu não acho muito provável que as pessoas que estão comprando as ações agora fiquem com elas por oito anos esperando que esse programa gere receitas”, explica.

No caso do avião brasileiro, o analista aponta ainda que o preço deve ser mais baixo do que os semelhantes internacionais, o que elevaria o número de aeronaves necessário. “Qual é o break-even para o KC 390?”, questiona. “Ninguém parece ligar para o fato de que pode demorar cinco anos para o início da produção dessa aeronave, e talvez mais dois até que ela comece a gerar receitas”.

Outros problemas
Além disso, enquanto o foco da empresa se volta para a área de defesa, quais serão os efeitos sobre seu principal negócio, a aviação comercial? “Parece que o jato comercial deve sofrer uma forte pressão competitiva (…) O ERJ 195 parece relativamente não competitivo em relação aos programas semelhantes”, avalia Trent. Assim, mesmo que as receitas com defesa aumentem, é necessário ter atenção ao que acontece com as receitas comerciais – que, para Trent, podem trilhar o caminho oposto.

Ainda na aviação comercial, o analista do Citi levanta a questão da consolidação das empresas aéreas no mundo, e o impacto disso nos números da Embraer. “Gostaria de saber mais sobre os depósitos em garantia, colocados em US$ 1,6 bilhão ao final de 2009”, afirma.

Outro ponto ressaltado por Trent é o movimento cambial – que deve seguir pressionando as margens da empresa e pode elevar o break even do KC 390, já que o preço da aeronave deve ser em dólares, mas alguns custos serão na moeda local.

Rali próximo do fim?
Entretanto, o analista diz que todas as questões parecem estar sendo ignoradas pelo mercado, que tem impulsionado a ação para um rali no curto prazo.

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“Os investidores parecem estar dispostos a pagar um prêmio pelas ações da Embraer em relação a outras empresas do setor, incluindo empresas de transporte brasileiras, ignorando os riscos”, explica. “A Embraer segue sendo negociada com prêmio sobre empresas com bases de clientes e produtos muito mais diversificadas e muito maiores do que ela, mesmo com o enfraquecimento do dólar”.

Apesar de não se aventurar a tentar adivinhar o caminho que as ações trilharão a seguir, Trent afirma que uma realização de lucros após as eleições é possível.“Acho difícil acreditar que esses níveis sejam sustentáveis”, conclui o analista.