Análise

Nome mais votado para PGR é o preferido de Janot, mas não deve ser o escolhido de Temer

Tem sido praxe na política a escolha do primeiro colocado da lista sugerida pelos procuradores, mas não há nenhuma determinação formal para que tal procedimento seja necessariamente seguido

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SÃO PAULO – Em votação realizada na última terça-feira (28), os membros do Ministério Público escolheram os subprocuradores-gerais da República Nicolao Dino (621 votos), Raquel Dodge (587 votos) e Mario Bonsaglia (564 votos) para compor a lista tríplice da instituição, encaminhada ao presidente Michel Temer para a escolha do sucessor de Rodrigo Janot, cujo mandato se encerra em setembro deste ano.

Tem sido praxe na política a escolha do primeiro colocado da lista sugerida pelos procuradores, mas não há nenhuma determinação formal para que tal procedimento seja necessariamente seguido. Em meio aos recentes enfrentamentos entre Janot e Temer, não está descartada a possibilidade de o costume não ser seguido pelo peemedebista. Nos bastidores, especula-se que a segunda candidata mais votada, Raquel Dodge, seja a escolhida, o que a tornaria a primeira mulher a comandar o cargo — argumento que pode entrar no discurso de Temer.

Isso porque o líder da lista, Nicolao Dino, é conhecido como aliado preferido do atual procurador-geral e pode não ser o nome mais interessante para o presidente, denunciado nesta semana junto ao Supremo Tribunal Federal por corrupção passiva e que deverá ser alvo de outras duas ações penais encaminhadas por Janot. As acusações foram duramente criticadas pelo peemedebista que as classificou como “peça de ficção” baseada em “ilações”.

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Não é só ao presidente que o nome de Dino pode não agradar. O subprocurador também não tem boas relações com o ministro Gilmar Mendes, do STF e presidente do Tribunal Superior Eleitoral, considerado um dos importantes aliados do governo atualmente, sobretudo após ter papel decisivo na imposição da derrota do pedido de cassação da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer, defendido pelo ministro relator do caso, Herman Benjamin.

Discurso inflamado

Em pronunciamento à imprensa realizado ontem, Temer criticou ainda os termos do acordo de delação firmados pela PGR com executivos da JBS, incluindo o executivo Joesley Batista, autor de gravação de conversa com o presidente em março, no Palácio do Jaburu.

No discurso de Temer também sobraram ataques ao ex-procurador Marcelo Miller, citado nominalmente pelo presidente como figura de alta confiança de Janot, que deixou o cargo para trabalhar em empresa especializada em acordos de delação premiada.

“Vocês sabem que quem deixa a Procuradoria tem uma quarentena de dois ou três meses. Não houve quarentena nenhuma. O cidadão saiu e já foi trabalhar para essa empresa e ganhou, na verdade, milhões em poucos meses, o que talvez levaria décadas para poupar”, afirmou. Na avaliação do peemedebista, o acordo firmado foi benevolente e que, em toda a história da operação em curso, ninguém foi capaz de conquistar tamanha impunidade.

Em um exemplo de sua tese sobre ilações, o presidente propôs um exercício de suposição de que os recursos oriundos do contrato de delação fechada pela empresa de Miller pagos pela JBS não tivessem o ex-procurador como único beneficiário — insinuando a repartição dos benefícios com Rodrigo Janot. Mas fez uma ressalva: “não quero fazer ilações, não denuncio sem provas”.

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A estratégia de Temer

Além da rejeição do candidato favorito de Janot, as expectativas são de que Michel Temer anuncie sua decisão antes mesmo do fim do mandato do atual procurador-geral, o que poderia provocar um esvaziamento de Janot em um momento em que o presidente se vê denunciado e em “guerra política”, em situação delicada para seu governo.