Análise

No Roda Viva, Bolsonaro deixou escapar contradições e expôs fragilidades, mas conteve danos maiores

Deputado pode não ter ganhado muito, mas tampouco perdeu. Em programas como o Roda Viva, sair sem ser destruído já é uma vantagem

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Jair Bolsonaro no Roda Viva

O deputado Jair Bolsonaro conseguiu conter danos maiores e passar o recado de sempre durante a sabatina no Roda Viva. Inicialmente nervoso, o candidato do PSL se ancorou em temas de sua preferência, como ditadura militar e combate à violência, para disfarçar a tensão e repetir o discurso que agrada seu público cativo. Foi bem sucedido.

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Mais uma vez ficou claro o déficit de conhecimento mínimo de políticas públicas para orientar decisões, seja em economia ou em temas sociais. O parlamentar chegou a atribuir o aumento da mortalidade infantil a nascimentos prematuros e a cáries das gestantes, relativizar a escravidão e defender a incorporação na aposentadoria de verbas pagas a servidores da ativa. Deixou clara mais uma vez sua dependência em relação ao economista Paulo Guedes e a falta de um plano B, caso o relacionamento com o guru se deteriore. 

No afã de se explicar, Bolsonaro acabou deixando escapar contradições entre seu pensamento e do coordenador de seu programa de governo, principalmente sobre a reforma da previdência. Para o candidato, seu maior feito seria transformar o Brasil em um país verdadeiramente liberal, no entanto, não desenvolveu o tema, nem citou a necessidade de privatizações. 

Na maior parte do tempo, buscou a estratégia de atacar para se defender e demonstrou impaciência e pouca habilidade para se desvencilhar de assuntos indesejados. São indícios de que o parlamentar deve enfrentar com dificuldades os debates entre concorrentes à Presidência da República.

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Também não pode passar em branco o fato da bancada de entrevistadores ter tentado uma desqualificação de Bolsonaro usando temas de esquerda. Além de não ter dado certo, a tática só serve para reforçar o eleitorado mais duro de Bolsonaro com suas respostas em temas ideológicos. Parte do tempo usado para debates de temas como “ditadura militar” poderia ter sido melhor empregado em perguntas mais jornalísticas e de interesse mais amplo.

Bolsonaro pode não ter ganhado muito, mas tampouco perdeu. Em programas como o Roda Viva, sair sem ser destruído já é uma vantagem.

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PONTO A PONTO

PREVIDÊNCIA
Reconheceu a necessidade de a reforma ser feita, mas de forma paulatina em relação, principalmente, à idade mínima. Criticou a reforma proposta por Michel Temer, por dar oportunidade à esquerda de criticar a aumento da idade para ingresso na aposentadoria.

Questionado sobre aposentadoria para policiais e benefícios especiais, o candidato  afirmou que é preciso verificar as necessidades de cada categoria. Citou expectativa de vida menor do policial militar e dos integrantes das Forças Armadas também é diferente.

Incorporação de verbas da ativa por aposentados x peso da folha de pagamentos para a Previdência: candidato admite que tenta relativizar a posição de Paulo Guedes, defendendo a possibilidade de incorporar privilégio em até 50% do teto. Afirmou que não se pode privar uma aposentado e fazê-lo ganhar menos que garoto que acabou de chegar.

ECONOMIA
Classificou Paulo Guedes como seu “Posto Ipiranga” da economia. Disse não ter plano B para a economia caso brigue o economista ou ele saia do governo por outro motivo.

Afirmou querer passar para a história como quem realmente iniciou uma economia liberal no Brasil. Para Bolsonaro, a fama de estatizante veio do fato de ter votado contra o Plano Real. Ele diz ter feito isso em defesa de direitos dos militares na conversão do salário para URV.

REFORMA TRIBUTÁRIA
Candidato admitiu que quer reduzir a carga tributária e criticou as dificuldades de empreender no Brasil. Citou reduções tributárias feitas na Inglaterra e nos Estados Unidos. 

CORRUPÇÃO

Bolsonaro se apresentou como único deputado não comprado no mensalão e disse não saber de suspeitas contra Eduardo Cunha e Paulo Maluf, de quem foi aliado.

DEMOCRACIA
Disse se considerar um democrata. Negou que o governo militar iniciado em 1964 tenha sido originado em um “golpe”. Sobre a tortura na ditadura militar, Bolsonaro admite que  “Alguma maldade teve, mas esse pessoal usava a tortura para pedir indenização. São feridas que não deve mais ser lembrada. Tivemos anistia ampla geral e irrestrita.”

SEGURANÇA
Afirmou que, se for eleito, encerraria a intervenção no Rio nos moldes como existe hoje. Para ele, só funcionaria se houvesse excludente de ilicitude para que os militares não sejam responsabilizados por seus atos durante a intervenção. Defendeu redução das exigências para porte de arma.

CAMPANHA
Voto impresso: criticou ação da PGR que levou o Supremo Tribunal Federal a derrubar lei de instituía o voto impresso. Argumenta que o voto eletrônico abre espaço para fraudes e admitiu que se perder vai contestar a validade das eleições, assim vão fazê-lo se for vencedor. Bolsonaro disse que ter “o sentimento” quando vai às ruas de que possui mais votos que Lula.

Mandato parlamentar: afirmou que teria 500 projetos apresentados, depois admitiu que são em torno de 170 (pelo levantamento da XP Política são 188 PLs, PECs e outros modelos de proposição). Disse não ter tentando atuar para melhorar a segurança no seu estado, porque não queria estar perto do ex-governador Sérgio Cabral. Curiosamente, Sérgio Cabral governou o Rio de Janeiro entre 2006 e 2014, e Bolsonaro tem mandato de deputado federal desde 1991.

Disse que seus projetos como deputado que não foram para frente por causa da esquerda, citando a proposta de castração química para estupradores.