Polêmica em Brasília

“Nem na ditadura” e “tarde de Venezuela”: a repercussão da decisão de Temer de convocar as Forças Armadas

O decreto foi anunciado pelo ministro da Defesa, Raul Jungmann e publicado em uma edição extra do "Diário Oficial da União" no fim desta tarde

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SÃO PAULO –  Se por um lado as manifestações e tumultos em Brasília ganharam destaque nos noticiários nacionais, a decisão do presidente Michel Temer de permitir que as Forças Armadas atuem para garantir a segurança na Esplanada dos Ministério criou uma grande polêmica.

O decreto foi anunciado pelo ministro da Defesa, Raul Jungmann e publicado em uma edição extra do “Diário Oficial da União” no fim da tarde desta quarta-feira (24), prevendo o emprego das Forças Armadas no Distrito Federal entre 24 e 31 de maio.

A decisão do presidente fez com que deputados, senadores e até ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) se manifestassem. Não só a oposição, mas a própria base aliada do governo criticou a ação. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, disse que foi um “excesso” e que não concorda com o prazo de uma semana para uso das Forças Armadas.

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“Não me lembro de ter visto isso nem na ditadura militar. Não é um ato normal. Já tínhamos visto o acionamento da Garantia da Lei e da Ordem em presídios nas favelas do Rio de Janeiro, mas não tínhamos visto para reprimir os movimentos sociais”, afirmou o líder do PT, Carlos Zarattini, em discurso no plenário.

Já o senador Lasier Martins (PSD-RS) disse que a decisão não é novidade e defendeu o decreto: “em 2013, a então presidente Dilma Rousseff colocou o Exército nas ruas do Rio de Janeiro para proteger o leilão da libra porque o risco de desordem era muito grande. Não está falando aqui um defensor do Temer, que sabemos todos: está caindo”.

“Brasília está vivendo uma tarde de Venezuela. Brasília está debaixo de quebra-quebra e nós aqui discutindo formalismos. Isso está errado […]. A Polícia Militar de Brasília não deu conta da bagunça que estava virando a capital federal. Por isso, a polícia pediu ajuda e essa ajuda, esse socorro é que está sendo dado. Eu concordo que o Exército na rua tem uma simbologia, lembra a ditadura, mas não é o caso de hoje. A presença do Exército é para proteger”, disse o senador.

O senador Otto Alencar (PSD-BA) foi outro que criticou: “esse decreto vem em uma hora totalmente inapropriada de alguém que perdeu completamente o sentido de governar […]. Peço aos militares que não tenham a fraqueza de atender a um governo que já acabou”. “Isso é um crime de lesa-pátria, isso sim é que é contra a Constituição”, afirmou o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

O líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros, também não perdeu a oportunidade de criticar o governo. “Atribuir a responsabilidade ao presidente da Câmara é um horror. Se esse governo não se sustenta, não serão as Forças Armadas que vão sustentar esse governo”.

O ministro Marco Aurélio Mello, durante a sessão plenária no STF (Supremo Tribunal Federal) demonstrou preocupação com a decisão de Temer. “Presidente, voto um pouco preocupado com o contexto e eu espero que a notícia não seja verdadeira. O chefe do poder Executivo teria editado um decreto autorizando o uso das Forças Armadas do DF no período de 24 a 31 de maio”, afirmou.

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Por fim, o presidente do PMDB, senador Romero Jucá, e o presidente interino do PSDB, Tasso Jereissati ficaram ao lado de Temer. “Não adianta querer colocar ações do governo de forma distorcida. Presidente Temer tá chamando Forças Armadas pra se sustentar? Não, chamou Forças Armadas porque bando de marginais tava tocando fogo em ministérios. Nós agimos dentro da Constituição. E vamos continuar agindo”, disse Jucá.

“O presidente Michel Temer cumpriu a lei e a Constituição, trabalhou pela segurança dos brasileiros e deu exemplo de coragem ao tomar uma decisão atendendo presidente da Câmara para fazer com que se dê ordem na capital da República”, continuou o peemedebista.

Já Jereissati lembrou que “somos de uma geração que passou a adolescência em cima de um clima de ditadura militar, da quebra da Constituição […]. Então, nós ficamos assustados, preocupados com isso, mas, por outro lado, temos a informação que a polícia não estava dando conta do processo de depravação, de quebra-quebra, de prédios aparentemente incendiando”. “Na emergência, que não pode se tornar uma rotina, é fundamental e necessário o Exército, mas isso tem que ser bastante discutido com o próprio presidente”.