Sem papas na língua

“Não sou responsável por ela ter uma posição de manhã e outra à tarde”, diz Dilma sobre Marina

Em sabatina na televisão, Dilma voltou a atacar a presidenciável do PSB e falou sobre envolvidos no escândalo da Petrobras.

SÃO PAULO – A presidente Dilma Rousseff (PT) concedeu entrevista à RedeTV! e ao IG nesta quinta-feira e voltou a concentrar suas críticas contra a presidenciável do PSB, Marina Silva. A petista fez observações sobre os políticos que estariam envolvidos nos escândalos de corrupção da Petrobras e que foram delatados pelo ex-diretor da estatal, Paulo Roberto Costa, de acordo com a revista Veja.

Questionada sobre a diminuição de vantagem de Marina sobre ela na mais recente pesquisa do instituto Datafolha, Dilma defendeu sua propaganda eleitoral, classificada pela pessebista como baixo nível, e disse que na democracia, qualquer pessoa tem o direito de discutir posicionamentos e concepções.“O que nós fizemos? Estamos discutindo nossas propostas contra as propostas da candidata Marina. Não há nenhuma acusação que não esteja no programa de governo dela. Não sou responsável por ela ter uma posição de manhã e outra à tarde”, criticou, acrescentando que está esperando a ex-senadora mudar de opinião sobre a autonomia do Banco Central caso seja eleita.

Indagada sobre as insinuações de Marina de que o PT assaltou os cofres da Petrobras, Dilma afirmou que repudia esse posicionamento da candidata do PSB, já que ela fez parte da legenda petista por muitos anos. 

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“Eu repudio de forma absoluta essa fala, porque essa manifestação é estranha, já que ela foi dada por uma pessoa que foi militante do PT por 27 anos. Além disso, Marina deve todos os seus mandatos ao PT. Desses anos que ela se refere, em 8, ela esteve no governo ou na base do governo, como parlamentar. Assim sendo, ela esteve presente em todas as oportunidades”, explicou a presidente, acrescentando que uma pessoa não pode virar a casaca ou mudar de posição, por causa de conveniências pessoais. “Foi a militância do PT que a permitiu chegar onde chegou”.

Sobre o afastamento de Costa da Petrobras logo no início de sua gestão, Dilma afirmou que não tinha conhecimento de práticas ilícitas ou desconfiança sobre o executivo. “Tanto não suspeitava que não o afastei. Governo novo, equipe nova. Primeiro, eu escolhi a Graça Foster para a presidência, porque tinha afinidade com ela. Ela tinha sido minha secretária nacional de petróleo e gás no ministério de Minas e Energia”, destacou. 

De acordo com a petista, todos os quadros substituídos já eram da Petrobras anteriormente. Dilma disse que um ano e quatro meses depois, alterou o resto da diretoria, e reforçou que este é um processo que deve ser feito com todo cuidado. “Com a saída dessas pessoas, no caso específico do Costa, nós bloqueamos qualquer possibilidade de ele cometer os mesmos ilícitos”. 

Perguntada sobre o sistema de indicação política aos cargos na estatal, Dilma sinalizou que o procedimento deve continuar em seu segundo mandato. A candidata à reeleição disse que os melhores quadros da Petrobras transitam de governo para governo. “Ele (Costa) percorreu uma carreira dentro da Petrobras. O que nos espantou é que um desses quadros cometesse esse delito. Esse senhor não veio de fora da Petrobras”, avaliou. 

A presidente afirmou ainda que a corrupção deve ser combatida todos os minutos do dia e que não há proteção contra ela. “Para proteger, é preciso ter investigação. Demos autonomia para a Polícia Federal investigar, jamais deixamos de considerar a lista entregue pelo Ministério Público, ao contrário do passado, quando tinha o engavetador geral da república”, relatou Dilma. “Combatemos a lavagem de dinheiro, tivemos um esforço para criar a lei de acesso á informação, a lei da ficha limpa, a lei de punição ao corruptor”, acrescentou.

Em relação à sinalização de que Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco e candidato ao Planalto pelo PSB que morreu em 13 de agosto, estaria envolvido no escândalo da Petrobras, a petista disse que os dados da revista Veja não são oficiais. Por isso, segundo ela, solicitou que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e o procurador-geral da República lhe informassem sobre dados de servidores do governo que pudessem estar envolvidos nas denúncias.

“No caso do Eduardo, eu acho que o PSB deve solicitar esclarecimentos sobre isso. É muito grave a gente tomar posição baseado só no que disse uma revista. Como presidenta, eu não posso fazer isso”, destacou, afirmando que é muito estranho o fato de uma revista saber e a responsável pelo Executivo não.

A petista foi indagada sobre sua relação Marina, quando eram correligionárias e companheiras no governo, e respondeu que a ex-senadora sempre pareceu bem-intencionada. “Eu não concordava com todas as opiniões dela. Nunca houve embate ácido, mas houve divergências”, explicou, completando que projetos, como as usinas hidrelétricas de Santo Antonio e Jirau, não foram executados como planejado pelo governo por responsabilidade da candidata do PSB.

Quando perguntava se considerava Marina progressista ou conservadora, a presidente disse que não queria entrar na discussão, a qual classificou de “branco e preto”. “Acho que há graduações de cinzento muito preocupantes“, disparou.

Sobre o anúncio de que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não permanecerá no cargo em eventual segundo mandato, a candidata à reeleição disse que resolveu comunicar isso antes que a informação vazasse. “Tenho muito apreço por ele e sei que ele contribuirá conosco até o último dia do governo”. 

A presidente explicou ainda que as mudanças devem ser feitas de acordo com a conjuntura da economia do País e do cenário internacional. “Quando a realidade muda, nós temos de mudar. Vamos resistir à crise lutando para manter emprego, salário e infraestrutura”, pontuou Dilma, destacando que as grandes economias vêm sofrendo com a crise e os países emergentes “têm segurado a crise”.

A presidenciável do PT rebateu as críticas de que teria sido autoritária e centralizadora em sua primeira gestão. “Nessa coisa de autoritária, de mandona, já cheguei à conclusão de que sou a única pessoa autoritária cercada de homens meigos. Tem um viés um pouco machista, mais do que machista, é discriminatório no seguinte sentido: tem certas características num homem que são consideradas normais; tem certas características na mulher que são consideradas normais. Eu tinha de ser doce, tinha que aceitar o que me dissessem. Eu tenho opinião. Eu mudo de opinião, quando a realidade muda”, contestou.

Em sua última colocação, Dilma aproveitou para cutucar Marina mais uma vez. “Não se é presidente da república se curvando às pressões. Podem fazer um tweet de manhã para mim, que eu não mudo a posição. Eu tenho obrigação de aguentar a pressão, de aguentar as manchetes negativas”, concluiu.