Economia

“Não há mais como fazer mágica na inflação e política fiscal”, diz Loyola

Para ele, o Brasil passa por momento de baixo crescimento e deterioração de fundamentos essenciais para a redução das vulnerabilidades que acompanharam seu desempenho nas últimas décadas

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SÃO PAULO – O Brasil não vai se deparar com a mesma maré mansa da economia internacional, com “o vento a favor que tivemos nos últimos anos”, afirmou o ex-presidente do Banco Central e sócio-diretor da Tendências Consultoria, Gustavo Loyola, em palestra sobre a conjuntura econômica brasileira durante o 8º seminário internacional da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento).

A deterioração do cenário em que se encontram as economias brasileira e mundial mostra cada vez menos espaço para manobras equivocadas. Neste contexto, Loyola destacou que não há mais como fazer muita mágica na inflação e política fiscal, porque todos os truques já teriam sido feitos pelo governo. “É como se o mágico, no começo da apresentação, tirasse aqueles coelhos de pelo branquinho do chapéu, e, de repente, passasse a tirar uns bichos estranhos da cartola”, compara o economista.

Loyola espera por um momento em que Brasil e os emergentes terão que depender mais das próprias pernas nos próximos anos. Com isso, arrancam preocupação os atuais patamares dos principais fundamentos macroeconômicos. Apesar do contexto não ser para desespero, a situação preocupa. “Mesmo que não esperemos uma crise, é pouco provável que tenhamos um período de alta elevada liquidez dos países emergentes, com termos de troca extremamente favoráveis que observamos ao longo dos últimos anos”, afirma o ex-presidente do BC.

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Na visão do economista, o País passa por um momento de baixo crescimento e deterioração de alguns fundamentos essenciais para a redução das vulnerabilidades que acompanharam o desempenho brasileiro nas últimas décadas. Em sua análise, Loyola dividiu os principais temas de acordo com os 3 grandes campos macroeconômicos. São eles:

“Irresponsabilidade fiscal”
Para a compreensão das atuais políticas fiscais sob a ótica do economista, é preciso entrar em três pontos centrais: enfraquecimento do superávit primário, piora dos resultados de estados e municípios – que aproveitaram o afrouxamento de algumas regras do “arcabouço fiscal” – e o que Loyola chamou de “máquina de geração de superávit primário”, em referência às políticas de repasse de verbas do Tesouro para bancos públicos – sobretudo para o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

Para ele, o brasileiro passou a ter que lidar com a perda de transparência nesta área, com o governo abusando de “estratagemas contábeis para apresentar resultados fiscais razoáveis”. “A situação fiscal me parece hoje bastante complexa. Não que o Brasil esteja à beira de uma crise de solvência, mas é um processo de deterioração que colocou em risco a nossa classificação dada pelas agências internacionais”, acusa Loyola.

Política monetária: “inflação reprimida”
O primeiro ponto que chama atenção do economista na política monetária é a acomodação do BC em relação à meta de inflação, que deixou de ser 4,5% para assumir os toleráveis 6,5% como espécie de “novo target”. “A credibilidade do regime de metas foi afetada por essa acomodação do BC”, diz o ex-presidente da autoridade monetária brasileira, que destaca ainda os riscos de interferência política no BC – segundo ele, mais evidentes com o atual governo.

A politização das decisões do Copom (Comitê de Política Monetária) sobre a taxa básica de juros são destacados pelo economista como dignos de serem observados de perto. “De repente vemos a presidente da república ir à televisão para dizer que os juros baixos eram uma grande conquista do seu governo, com o BC sendo incitado – explicitamente ou não – a buscar um nível de equilíbrio a taxas de juros mais baixas”, afirma.

Por fim, Loyola ainda destaca o fato de a inflação só estar controlada graças à política de manipulação de preços sobre alguns produtos – em especial, os combustíveis -, promovida pelo governo, que teme por uma alta ainda maior no IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), indicador que já provou sua importante em vésperas de eleições.

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Intervenção cambial mascara outras carências
Apesar de as operações do BC para conter o efeito do dólar ajudarem na competitividade das empresas brasileiras no mercado internacional, Loyola afirma que o principal ponto neste problema brasileiro seria a falta de políticas que ajudassem no aumento da eficiência das companhias nacionais. Para Loyola, o governo prefere optar pelo caminho mais fácil para lidar apenas com as pontas do iceberg, sem se preocupar com as questões de longo prazo – cerne da maior parte das carências brasileiras.

“É muito mais fácil incentivar o consumo, mandar os bancos públicos expandirem o crédito, reduzir o IPI sobre os carros, fazer ‘Minha Casa Melhor’ do que se ter políticas mais voltadas para questões de médio e longo prazo. O governo percebe que precisa fazer obras de infraestrutura, por exemplo. A questão é que essa percepção não remove certos preconceitos que a gente vê nas políticas públicas de hoje. Preconceitos que levam até a um viés anticapitalista e antimercado”, conclui Gustavo Loyola.