Virada política

Mudança radical para salvar mandato traz uma série de riscos para Dilma, diz WSJ

""Toda essa virada política está carregada de riscos", ressalta o jornal ao falar que, mesmo que novas medidas sejam bem-sucedidas, podem deixar a presidente politicamente isolada

SÃO PAULO – Em destaque hoje, o jornal americano Wall Street Journal ressalta os desafios da presidente do Brasil Dilma Rousseff para “salvar o seu mandato” e reanimar a economia nacional. Mais do que isso, mostra os riscos que a presidente pode sofrer com as mudanças que estão sendo feitas no segundo mandato. 

“Dilma Rousseff sobreviveu à tortura e a um câncer para se tornar a primeira mulher a assumir a presidência do Brasil. Hoje ela enfrenta um outro desafio: salvar seu cargo e estancar a deterioração da economia do país”, afirma o jornal. O seu segundo mandato acabou de começar, mas ele já está sofrendo com protestos, ameaças de impeachment e acusações de corrupção na Petrobras. 

O jornal destaca que o real desabou, a inflação está subindo e a economia está entrando no que pode ser a pior recessão em 25 anos.

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“Se a mandatária de 67 anos vai recuperar o equilíbrio passou a ser uma questão crítica para um país que luta para evitar que seus problemas se espalhem e se convertam em uma crise ampla”, afirma o jornal americano.

Para tentar reverter o quadro, ela tenta uma façanha política complicada: reverter tudo, desde políticas econômicas do primeiro mandato até suavizar o seu estilo de liderança, antes inflexível, em meio à queda de apoio que tinha no Congresso.

A mudança é nítida: a presidente se envolvia até nas decissões mínimas e agora está delegando o planejamento econômico e as negociações de acordos com os parlamentares para Joaquim Levy (ministro da Fazenda) e para Michel Temer (vice-presidente). E ressalta ainda a mudança no físico dela com a dieta Ravenna, em que ela perdeu 15 quilos.

Toda essa virada política está carregada de riscos. Ela tem a meta de estabilizar o governo e abafar os pedidos de impeachment. Mas, mesmo que elas sejam bem-sucedidas, as mudanças podem deixar a presidente politicamente isolada: membros do próprio PT estão se voltando contra ela por abandonar algumas políticas econômicas de esquerda. E os conservadores que aprovam as mudanças provavelmente nunca apoiarão uma ex-marxista”, afirma o jornal. 

O WSJ destaca ainda que o panorama econômico para o Brasil é sombrio, com a desaceleração da demanda chinesa por commodities e agora o Brasil está sob a ameaça de perder sua classificação de grau de investimento, que poderia disparar uma caótica espiral de venda do real no mercado de câmbio. Porém, para alguns, as mudanças de Dilma são o lado positivo de um cenário que, de outra forma, seria tenebroso.

De perfil austero para suave
O jornal destaca que hoje, por necessidade, Dilma tenta hoje agir mais como uma política do que uma tecnocrata, agendando mais jantares e aparições pública, o que não é algo natural para a presidente.

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Quando eleita, ela se tornou exigente e esperava que os assessores aparecessem rapidamente quando queria a presença deles. O jornal ressalta que passar informações a ela se tornou uma tarefa arriscada e que funcionários de alto escalão já saíram de sua sala trêmulos, e, pelo menos uma vez, um deles saiu à beira das lágrimas diz uma pessoa que viu a cena.

“Mas o estilo direto de Dilma não funcionou em meio à crise política. A maioria do governo no Congresso começou a entrar em colapso este ano com queixas inclusive de integrantes do PT de que ela não tinha conseguido negociar com os principais parlamentares as legislações necessárias para ajustar a economia. Em vez disso, ela enviou emissários para apresentar suas metas, um gesto que muitos parlamentares consideraram arrogante”, afirma.

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, destaca que alguns dos retrocessos no Congresso podem ser reflexo das dificuldades da primeira líder mulher num cenário político brasileiro dominado por homens. “Ela é forte e as pessoas ficam espantadas. É uma reação de macho.” 

Porém, o jornal destaca que, mesmo se seu governo fracassar, a história provavelmente vai apontar para problemas econômicos e corrupção, não para o seu gênero, dizem analistas políticos. E reforça depoimentos positivos sobre a presidente, destacando que ela sabe superar situações adversas.

Pressão
Se contar o ambiente de pressão pelo qual Dilma está passando, ela vai precisar de sua capacidade de superação, já que partidários do PT consideram a austeridade de Levy uma “traição”, aponta o jornal.

E reforça as mudanças políticas, também com relação ao comércio internacional: Dilma deve visitar os Estados Unidos em junho, em parte para restabelecer as relações entre os dois países que ficaram abaladas depois das alegações de que ela tinha sido espionada pelo governo americano, o que gerou mal estar na relação entre os dois países. “Agora, em vez de cobrar desculpas, ela está minimizando o incidente”, conclui o jornal.