Moraes diz que Bolsonaro tinha conhecimento de plano para matar ele, Lula e Alckmin

Ministro afirma que provas sobre o “Punhal Verde e Amarelo” mostram envolvimento direto do ex-presidente na trama golpista

Marina Verenicz

Ativos mencionados na matéria

Ministro Alexandre de Moraes relator da Ação Penal 2668 - Núcleo 1
Foto: Rosinei Coutinho/STF
Ministro Alexandre de Moraes relator da Ação Penal 2668 - Núcleo 1 Foto: Rosinei Coutinho/STF

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O ministro Alexandre de Moraes, relator da ação penal da tentativa de golpe de Estado de 2022, afirmou nesta terça-feira (9) que Jair Bolsonaro (PL) tinha “conhecimento e anuência” sobre o plano conhecido como Punhal Verde e Amarelo.

O projeto previa o assassinato do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e do próprio Moraes.

Segundo o relator, não há como afastar a participação do ex-presidente no esquema, apontado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) como o episódio mais grave da trama golpista.

“Não é crível, não é razoável achar que o general Mário Fernandes imprimiu o documento no Palácio do Planalto, foi ao Palácio da Alvorada, permaneceu mais de uma hora com Jair Bolsonaro e depois fez um barquinho de papel com o Punhal Verde e Amarelo. Isso é ridicularizar a inteligência do tribunal”, disse Moraes.

Áudio e reuniões confirmam envolvimento

Entre as provas destacadas pelo ministro está um áudio enviado pelo general Mário Fernandes a Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, em que afirma ter conversado com o então presidente sobre a execução do plano. No registro, Fernandes diz que “qualquer ação poderia acontecer até 31 de dezembro”, prazo que, segundo Moraes, demonstra a anuência de Bolsonaro.

O relator também apontou a convergência entre as declarações de Cid, documentos impressos no Planalto e reuniões realizadas no Alvorada como elementos que corroboram a versão da PGR. “É patente a participação do líder da organização criminosa”, afirmou.

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Execução e alvos

De acordo com a investigação, o Punhal Verde e Amarelo atribuía apelidos às vítimas — “Jeca” para Lula e “Joca” para Alckmin — e avaliava a “chance de êxito” dos assassinatos como “média tendendo a alta”. O plano também previa a eliminação de Moraes para enfraquecer o Supremo Tribunal Federal (STF) e abrir caminho para a manutenção de Bolsonaro no poder.

A Polícia Federal ainda identificou movimentações de militares das Forças Especiais, os chamados kids pretos, em ações de monitoramento de Lula, Alckmin e Moraes em Brasília.

Em tom duro, Moraes afirmou que não se pode banalizar o fato de que autoridades brasileiras foram alvos de um plano de execução. “O Brasil demorou para consolidar sua democracia. Tivemos 20 anos de ditadura, de torturas, de desrespeito à independência dos Poderes. Não é possível normalizar o planejamento para matar um presidente eleito da República”, declarou.

O ministro também rebateu críticas da defesa de Bolsonaro de que não poderia julgar o processo por ser um dos alvos do plano. “Aqui a vítima é o Estado brasileiro”, disse Moraes. “Se aceitássemos esse argumento, qualquer réu poderia escolher por quem seria julgado. Não é assim que funciona o Estado de Direito.”

O julgamento em andamento

A Primeira Turma do STF, presidida pelo ministro Cristiano Zanin, retomou na terça-feira (9) a análise da denúncia contra o chamado “núcleo crucial” da suposta trama golpista, apontado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) como responsável por articular medidas para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após a eleição de 2022.

O relator do caso, ministro Alexandre de Moraes, rejeitou todas as preliminares arguidas pelas defesas e agora apresenta seu voto com relação ao mérito. O julgamento terá sessões extraordinárias até 12 de setembro.

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Quem são os réus

Além de Bolsonaro, respondem na ação:
• Alexandre Ramagem, deputado federal e ex-diretor-geral da Abin;
• Almir Garnier, ex-comandante da Marinha;
• Anderson Torres, ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança Pública do DF;
• Augusto Heleno, ex-ministro do GSI;
• Mauro Cid, tenente-coronel e ex-ajudante de ordens de Bolsonaro;
• Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa;
 Walter Braga Netto, ex-ministro da Defesa e da Casa Civil, candidato a vice-presidente em 2022.

Os oito réus são acusados de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, tentativa de golpe de Estado, dano qualificado por violência e grave ameaça e deterioração de patrimônio tombado. No caso de Ramagem, parte das acusações foi suspensa por decisão da Câmara dos Deputados.