Pós-rompimento de Cunha

Ministros já falam em “crise institucional gravíssima”; oposição estuda próximos passos

Próximas semanas serão de recesso parlamentar, mas pós-rompimento de Eduardo Cunha exalta o ânimo e obriga governo e oposição a reavaliar os cenários

SÃO PAULO – As próximas duas semanas serão de recesso parlamentar, o que pode diminuir ou exaltar ainda mais os ânimos da política brasileira. Após o rompimento do presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ) com o governo após a acusação do delator Julio Camargo de que o deputado pediu US$ 5 milhões em propina, tanto o Palácio do Planalto quanto a oposição fazem a análise dos próximos passos que devem ser tomados. 

Integrantes do Palácio do Planalto consideram o momento atual como o de “uma crise institucional gravíssima”, informa o jornal Folha de S. Paulo, citando ministros ouvidos pelo jornal logo depois do anúncio da ruptura. Após o anúncio oficial do rompimento, os ministros da Justiça, José Eduardo Cardozo, da Comunicação Social, Edinho Silva e da Casa Civil, Aloizio Mercadante, discutiram uma reação ao posicionamento do peemedebista. A ordem era não aumentar ainda mais o clima de tensão, o que ficou demonstrado pela nota divulgada pelo Planalto.

O entendimento é de que o Executivo já estava fragilizado com o ativismo do peemedebista no comando da Câmara, que se agravava ainda com a crise econômica e as denúncias de corrupção da Operação Lava Jato. As novas revelações sobre Cunha “equilibram” o jogo, pois enfraquece o peemedebista no momento em que o governo enfrenta grandes problemas no Congresso, com derrotas em projetos considerados cruciais para o Planalto. Com o enfraquecimento de Cunha, há abertura para novas lideranças se destacarem e há também quem defenda que o Palácio do Planalto deveria procurar o PSDB e tentar um acordo para isolar de vez Cunha e desestabilizar seu exército de aliados.

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Já outros assessores presidenciais dizem que as previsíveis retaliações de Cunha devem piorar ainda mais a situação do governo, que já enfrenta crise de credibilidade e queda da aprovação de Dilma Rousseff.

Também há a percepção de que a governabilidade não será retomada enquanto o petista José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, que é chefe da Polícia Federal, estiver no cargo. Assim, restará, na avaliação do Planalto, saber qual será a atitude do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que tem nas mãos uma eventual denúncia à Justiça contra Cunha e Renan Calheiros, o que pode enfraquecer de forma mais decisiva os antigos aliados que hoje são adversários do governo.

Entre as retaliações de Cunha, estão a abertura de CPIs e até a possibilidade de avançar com um eventual processo de impeachment contra a presidente. 

Enquanto isso, na oposição…
Por outro lado, o clima é de cautela na oposição, conforme ressalta o jornal O Estado de S. Paulo. A crise em torno de Cunha preocupa o PSDB e obriga seus principais líderes a rever os estrategemas montados até agora para substituir Dilma. 

O jornal destaca que, no comando da Câmara dos Deputados, Cunha sempre funcionou para os tucanos como um desgaste para a presidente e tornou-se peça essencial da munição da oposição contra Dilma e o PT. Se ele deixar o cargo ou permanecer nele com um poder esquálido, os tucanos e seus aliados na oposição terão de redesenhar os projetos de voltar ao Planalto.

Todos os interesses do PSDB passam, segundo líderes do partido consultados pelo Estado, de alguma maneira, por Eduardo Cunha. Por isso, os tucanos vão aguardar os desdobramentos da crise com a delação de Julio Camargo. O efeito imediato foi uma aproximação dele com a oposição, resultando na criação das CPIs do BNDES e dos Fundos de Pensão, que eram defendidas pelos tucanos.

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O PSDB tem três caminhos, que passam por Aécio Neves (PSDB-MG), Geraldo Alckmin (PSDB-SP) e José Serra (PSDB-SP). Se Cunha cair ou permanecer no poder sem força para levar adiante o pedido de impeachment, o grupo comandado por Aécio ganhará argumentos para sua tese que defende a cassação da candidatura da presidente no TSE (Tribunal Superior Eleitoral ). O vice-presidente da República Michel Temer (PMDB) também poderia ser atingido, o que acarretaria na convocação de novas eleições. Aécio, conforme informaram o Ibope e o Datafolha, é o líder das pesquisas de intenção de voto. 

Já para o grupo defensor da candidatura de Geraldo Alckmin, Cunha era o maior entrave para que o segundo mandato de Dilma não decolasse e esperam que Dilma permaneça desgastada no poder até o final de 2018. Já os aliados de José Serra se movimentam para que Michel Temer assuma o lugar de Dilma e contemple a oposição na formação de uma nova coalizão, como nos moldes de Itamar Franco pós-saída de Fernando Collor. Assim, avalia o jornal, Serra teria papel fundamental nesse cenário, como ministro e candidato de Temer em 2018, ou até mesmo como primeiro-ministro, se avançar, com apoio de um novo governo, o projeto que reestabelece o parlamentarismo.

Cunha, desta forma, teria que levar para frente a substituição de Dilma na Câmara após uma possível rejeição das contas da gestão da presidente no TCU (Tribunal de Contas da União) e no Congresso. 

Até agora, os tucanos adotaram um tom de cautela e também têm receio que novas denúncias da Lava Jato possam atingir representantes da oposição. O PSDB divulgou nota no último sábado:  “continuaremos atentos ao nosso papel de defender as nossas instituições para que elas cumpram suas funções constitucionais. Todas as denúncias têm que ser investigadas, respeitado o amplo direito de defesa”.