Erro primário?

“Meta de superávit do Governo é impossível de alcançar”, dizem economistas

Roberto Troster e Alex Agostini criticam gastança do governo e "preocupação em apagar pequenos incêndios" e veem pouco espaço para mudanças na reta final

SÃO PAULO – A velocidade da deterioração dos indicadores macroeconômicos brasileiros está mais rápida do que boa parte do mercado esperava. Ao menos, essa é a percepção dos especialistas ouvidos pelo InfoMoney, após o Tesouro apresentar o pior resultado do Governo Central em toda a história do mês de maio desde que o cálculo começou a ser feito, em 1997. Segundo a nota à imprensa emitida na última sexta-feira (27), as contas públicas brasileiras atingiram um déficit de R$ 10,502 bilhões no período.

O resultado assustou boa parte dos investidores, que reagiram mal ao indicador ampliando o pessimismo na Bovespa naquela sessão. Do lado do governo, o secretário do Tesouro, Arno Augustin, declarou que a meta de superávit primário das contas públicas, de 1,9% do PIB (Produto Interno Bruto), será cumprida. Em defesa do último resultado ruim, Augustin alegou que “maio é tradicionalmente um mês de primário mais baixo, mas este foi mais negativo basicamente em função de receita bem menor que em outros meses”, Segundo ele, a arrecadação de 20% inferior à de abril impactou fortemente o resultado.

Para o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, o novo resultado primário reflete as dificuldades do governo em fazer o ajuste fiscal necessário, fator que tem afastado cada vez mais os investimentos e a confiança dos consumidores e empresários. “Os números confirmam os fatos. Eles mantêm a preocupação do mercado já vista em outros anos, porque ratificam esse menor compromisso em fazer austeridade fiscal para ajudar a combater a inflação”, explica.

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Trazendo a situação à realidade da Copa do Mundo, Agostini compara o momento ao fim de um jogo tenso em um “mata-mata”, sem espaço para grandes mudanças e com risco de qualquer alteração poder significar uma grande goleada para o adversário. “Ao invés de o governo trabalhar para uma reeleição no sentido de priorizar a saúde da economia, ele manteve a mesma fórmula do governo anterior, que já não é a mais adequada para o período. Agora, chegando aos 43 do segundo tempo, não tem muito como tomar medidas efetivas”, observou o economista-chefe da Austin Rating.

Já o economista Roberto Troster diz que o governo entrou em um ciclo vicioso, em que a economia tem cresce menos, a arrecadação encolhe, o endividamento público aumenta e os juros ampliam. Para ele, a atual gestão as dificuldades e falta de clareza da equipe de Dilma Rousseff já na reta final de seu mandato mostram um “governo tentando apagar pequenos incêndios”. “Eles continuam gastando mais como se essa fosse a solução para tudo”, critica o ex-economista-chefe da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) e membro do Instituto Millenium.

Sem espaço para grandes truques
Para Troster, a meta de superávit primária traçada pelo governo e confirmada por Augustin, de 1,9% do PIB, ou R$ 80,774 bilhões, já é impossível de ser alcançada. De acordo com seu cálculo preliminar, o percentual possível agora é de 1,5%. Vale ressaltar que, no acumulado do ano até maio, o superávit soma R$ 19,158 bilhões, o equivalente a 0,93% do PIB. A queda é de 42,4% em relação ao mesmo período do ano passado, quando o superávit acumulava no mesmo período R$ 33,271 bilhões.

Segundo ele, o segundo trimestre deve mostrar a continuidade do processo de deterioração das cotas públicas, tendo em vista a possibilidade de o PIB vir negativo no período, fator que deve culminar em uma arrecadação em níveis menores que os esperados. Desta forma, torna-se ainda mais difícil cumprir com as metas planejadas.

Para a dupla de economistas, nem mesmo o malabarismo fiscal da “contabilidade criativa” será suficiente para que o objetivo inicial seja alcançado. No entanto, nenhum deles descarta a possibilidade de companhias estatais como a Petrobras (PETR3; PETR4) sofrerem com novas intervenções do governo por efeitos nas contas públicas.