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Entrevista especial

Mesmo sem Lula no páreo, eleição de 2018 será arriscada para o mercado, afirma diretor da Eurasia

Engana-se quem pensa que, sem o petista na disputa, "problema do mercado estará resolvido"

SÃO PAULO – Analistas de mercado são quase unânimes em apontar: um grande fator de volatilidade para o Brasil neste ano será a eleição presidencial. E o maior temor de todos fica para uma possível eleição do ex-presidente Lula, que tem se apresentado como contrário às reformas capitaneadas pelo atual governo e que impulsionaram o Ibovespa desde 2016. 

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Porém, engana-se quem pensa que, caso a candidatura do petista for barrada, o mercado poderá respirar aliviado, segundo avalia Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas da consultoria de risco político Eurasia Group. Em entrevista ao InfoMoney, o analista político reiterou a avaliação de que o petista deverá ser afastado do processo eleitoral, mas os problemas não estariam resolvidos. 

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Isso porque, aponta Garman, para um cenário de maior ‘tranquilidade’ dos investidores, teria que haver no páreo candidatos reformistas que estão alinhados com a revolta da população com o establishment político. Ou seja, outsiders. “Sem esse quadro, podemos ter facilmente um cenário com Lula fora do páreo, Bolsonaro com robustos 15% a 17% e Ciro Gomes herdando boa parte dos votos do Lula – mais do que um substituto eventual de Lula no PT. Além deles, na disputa pode ter também Marina Silva e Joaquim Barbosa, amigáveis a reformas, mas com sinais um pouco mais dúbios, também sendo competitivos”, afirma. Desta forma, o problema de viabilidade de uma candidatura de centro reformista permanece. 

Confira a entrevista abaixo:

InfoMoney – Logo após o adiamento da previdência, a Eurasia reduziu a chance de aprovação de reforma de 40% para 30%. Quais são os fatores que podem pesar negativamente e positivamente para o governo aprovar a reforma?

Christopher Garman – Nós reduzimos a nossa chance de aprovação pela incapacidade do governo de aprovar a reforma esse ano, mas ainda há chance. A variável preponderante que ditará se ela será aprovada ou não é o impacto na estratégia de comunicação política. O governo tem sinalizado que pode negociar parte da reforma, diminuir as exigências para o funcionalismo público, atendendo a demanda de parte aliada, incluindo o PSDB. Mas todas essas mudanças não vão ser suficientes para chegar aos 308 votos. O que ficou claro nos últimos meses é que o número de parlamentares que estão na coluna do não, de forma firme, vai além do necessário para barrar uma reforma constitucional. A oposição tem quase 166 votos firmes, o que significa que dentro da base aliada só precisa ter 40 defecções para barrar uma PEC [Proposta de Emenda Constitucional], porque são necessários só 206 votos para barrar uma PEC. Nas nossas consultas, partido por partido, isso supera os 206. Então não é com algumas concessões e diluindo as propostas que vai mudar esse quadro. Além disso, promessas de verbas e de cargos não vão construir 308 votos.

O único pé em que o governo pode se apoiar é que fazer uma reforma que não seja custosa politicamente e, para isso, tem que convencer aqueles que estão na coluna do não firme que aprovar essa reforma não vai gerar prejuízo nas eleições. Essa é a única esperança que o governo tem.

Então não precisa só de uma estratégia de comunicação política eficaz, porque a mensagem é muito mais eficaz do que tinha no começo do ano, mas como também tem que repercutir nas pesquisas. Vamos ter que ter pesquisas de opinião indicando que os favoráveis estão em maior número na comparação com os que são contrários. A estratégia de comunicação do governo surtiu alguns efeitos, lembrando que os contrários diminuíram, os favoráveis aumentaram, mas ainda não se cruzaram [ou seja, os contrários ainda são acima dos favoráveis]. E ainda vai terá que haver a socialização desse diagnóstico na base aliada, ao convencer os deputados de que essas pesquisas significam que para ele ou para ela não haverá repercussão negativa nas suas bases. O que estamos vendo é que ainda é tudo preliminar. Estamos escutando de deputados que as bases não estão repercutindo, rádios locais ainda estão falando mal, ainda estão sendo criticado nas mídias sociais por conta da reforma.

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Ainda tem que ter essa socialização deste diagnóstico que talvez essa reforma não seja tão custosa. Por isso que a gente acha que é difícil. Não é impossível porque a mensagem está boa, o governo está tendo alguns avanços, mas nós tememos que não vai ser suficiente.

IM  – É importante insistir na reforma da previdência mesmo com probabilidade pequena ao invés de focar na aprovação de outras medidas no Congresso?

CG – Estrategicamente há uma probabilidade de 30% de ter um ganho grande ou uma probabilidade de 70% de ter ganhos pequenos. Os ganhos relativos das Medidas Provisórias do ajuste fiscal são bem menores e em termos de confiança no quadro fiscal são band-aids. Já a previdência é uma mudança estrutural. Então o risco-retorno é muito maior na previdência. Até entendo a decisão do governo de continuar a tentar: se tem uma chance em três de marcar um golaço, tem que tentar. Se o governo conseguir dá ainda mais confiança na retomada da economia, o risco da eleição diminui porque o ônus do ajuste fiscal não cai só nas costas do próximo governo. Mesmo aprovando, não achamos que vai ter um desejo de continuidade nessa eleição, mas é claro que fazendo reforma da previdência haverá maior robustez nessa recuperação e cria um legado importante para esse governo em cima do que já se construiu. É racional o governo se esforçar para aprovar a previdência, mas é difícil, virando mais improvável do que provável após os fracassos de novembro e dezembro

IM – O governo Michel Temer é muito impopular, como mostrou o último Ibope de 2017. Apesar de haver uma recuperação com aprovação tendo ligeira variação de 3% para 6%, ela segue muito baixa. Como você vê a chance do presidente conseguir emplacar um sucessor em 2018?

CG – As chances do governo emplacar um candidato são mínimas. Estar associado a esse governo será um passivo eleitoral e não um ativo. Claramente a economia está se recuperando e o governo vai se recuperar um pouco, mas é algo muito pequeno num buraco muito grande. O bom/ótimo foi de 3% para 6%, o aprovo/desaprovo foi de 7% para 9%. Eu não me surpreenderia se esses números dobrassem e em 2018 foi de ótimo/bom for de 6% para 12% ou 15% e o aprovo/desaprova ir para 18% ou 20%. Acho razoável termos uma recuperação dos índices até mais expressiva do que a gente viu nessa última pesquisa.

Mas, mesmo se a aprovação chegar a 15% ótimo/bom, 20% regular, 25% aprovo/desaprovo, ainda assim é um governo muito impopular em termos comparativos históricos. Nós da Eurasia temos um banco de dados junto com a Ipsos que atribui a probabilidade de reeleição ou a capacidade de um governo fazer seu sucessor olhando os índices de aprovação seis meses antes do pleito. Ele contém dados de mais de 250 eleições nos últimos 20 anos.

Quando há índices de aprovação do governo de 20%, o índice de sucesso de um presidente se reeleger é 4% e o índice de sucesso de fazer um sucessor é 0. Se a taxa de aprovação do governo está em 30%, o índice de conseguir se reeleger é de 19%, a probabilidade de fazer seu sucessor é 1%. O ponto é que qualquer índice de aprovação do governo abaixo de 30% é um governo muito fraco em termos de capacidade para fazer seu sucessor. Então a noção de que a economia recuperando possa dar ao Temer condições de ser um ator expressivo nessa eleição são muito pequenas.

E se olhar as pesquisas , qual é a principal preocupação que o eleitor tem para 2018? Não é combater desemprego, é combater a corrupção. Então significa que estamos com uma revolta com o establishment político muito elevado. Não é uma recuperação econômica de uma recessão histórica, crescer 2% ou 3%, que vai reverter esse quadro. Então, por todas essas razões, o poder de fogo desse governo nessa eleição será razoavelmente baixo. O que significa que ser um candidato fortemente associado ao Temer é um passivo. Isso vale para o ministro da Fazenda Henrique Meirelles e também vale para qualquer outro candidato.

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A pergunta para 2018 será: qual candidatura de 2018 pode surfar melhor nessa revolta eleitoral? E o que podemos ter é um quadro com vários candidatos, cada um com passivo muito grande, tornando essa uma eleição difícil de prever dado esse desencanto profundo que nós temos nas pesquisas. Mas eu diria que a recuperação econômica não ajuda muito.

IM – E como se explica o caso do Lula? Se a grande preocupação é com a corrupção que a gente vê, por outro lado, a última pesquisa Ipsos mostrou que a rejeição dele está menor entre os presidenciáveis e a aprovação vem subindo mesmo ele sendo condenado em primeira instância, sendo réu em vários processos e havendo chances até de ter a candidatura barrada no ano que vem…

CG – O Lula é o caso que chamo de nivelamento por baixo. Na primeira fase da Lava Jato, o foco estava no PT, na Dilma e no Lula. Já nos últimos meses, o foco acabou sendo em todas as principais lideranças dos principais partidos políticos, pegando PMDB e PSDB em cheio. Assim, à medida que a desaprovação contra todos os políticos aumentou de forma ampla, também há o seguinte raciocínio: “se todos são corruptos, pelo menos eu vou apoiar alguém que me ajudou a melhor minhas condições de vida”. Então houve um aumento consistente desde a metade do ano da aprovação de Lula neste sentido e ele ganhou em termos relativos quando todo mundo foi jogado para a lama. O foco maior passou a ser desse governo, além do que Lula tem uma base muito leal no Nordeste.

Mas se a gente olhar outra medida, como a de que se o eleitor não votaria de jeito em um candidato, em qualquer hipótese, Lula permanece com o índice de rejeição mais elevada frente qualquer outro candidato. Então na Ipsos de desfavorabilidade do Alckmin está em 71%, a do Lula está em 56%, mas no Datafolha o Lula está em 40% e o Alckmin está em cerca de 30%. Então diria que a composição dos 50% que são contra o Lula é mais forte do que a composição dos que são desfavoráveis a outras candidatos.

Além disso, o tema de corrupção é o principal e é um passivo muito grande ao ex-presidente, exceto no Nordeste. Ele ganhou consistência, tem vaga garantida no segundo turno caso consiga concorrer, mas tem um passivo grande

IM – Vocês da Eurasia apontam que o maior risco ao mercado se Lula seguir na disputa não é ele ganhar, mas com certeza o cenário é mais arriscado com ele no páreo. Por que?

CG – O mercado tem feito uma análise um pouco simplista de que, se o Lula estiver fora do páreo, o grande risco para o mercado também estará dirimido. Isso porque o ex-presidente tem a maior intenção de voto e é mais claramente antirreformista. Ele não se candidatando abriria caminho para Geraldo Alckmin e um candidato apoiado pelo governo ganhar.

Mas o nosso ponto é: mesmo com Lula retirando a sua candidatura, ainda estamos numa eleição arriscada para o mercado. Isso porque, para um cenário de maior “tranquilidade” dos investidores, teria que haver no páreo candidatos reformistas que estão alinhados com a revolta com o establishment político. Ou seja, outsiders. Sem esse quadro, podemos ter facilmente um cenário com Lula fora do páreo, Bolsonaro com robustos 15% a 17% e Ciro Gomes herdando boa parte dos votos do Lula – mais do que um substituto eventual de Lula no PT. Além deles, na disputa pode ter também Marina Silva e Joaquim Barbosa, amigáveis a reformas, mas com sinais um pouco mais dúbios, também sendo competitivos.

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Alckmin tem chance de subir sim, mas vai enfrentar uma disputa acirradíssima para chegar no segundo turno. Então em termos de risco para mercado, não é tanto se o Lula é candidato ou não, é mais sobre ter candidatos reformistas na disputa que são vistos também como  antiestablishment.

Se nós não tivermos candidato com esse perfil, como foi o caso de Luciano Huck por exemplo, vira uma eleição mais arriscada com Lula dentro ou fora da disputa, mas reconhecendo que com, Lula dentro da disputa, o risco sobe ainda mais. Porque se ele está dentro, terá vaga garantida no segundo turno e, a partir daí, é uma disputa para uma vaga e não para duas.

O Bolsonaro, por exermplo, deve defender reformas, mas há mais dúvidas sobre ele. Aí é uma disputa mais acirrada. O ponto que estávamos chamando atenção é que se atribuiu um peso grande demais sobre a variável Lula ser candidato ou não. Contudo, não se deve presumir que um candidato reformista, mesmo com todo o tempo de televisão, caso ele seja visto como a cara do establishment político, estaremos numa “eleição fácil”.

IM – Poderemos sair dessa polarização PT – PSDB dos últimos vinte anos?

CG – A questão é que teremos uma competição pelo voto anti-establishment. Até acho que se o Lula estiver fora do páreo, uma candidatura como a do Alckmin vai ter vantagens, terá tempo de televisão, o que será útil para poder desmontar e atacar os outros candidatos. Então a estratégia será de aumentar o passivo do Bolsonaro, atacar a candidatura da Marina Silva ou Joaquim Barbosa. Até acho que uma candidatura Alckmin pode ganhar, mas é mais no jogo de aumentar os passivos dos outros. Será uma disputa em que o eleitor escolherá entre o “menos pior”. Então pode ser uma disputa suja, uma campanha meio feia nesse sentido porque haverá um desespero total para ver quem vai chegar no segundo turno.

Não acho que vai ser uma campanha PT ou anti-PT. Se o Lula for candidato, vira mais isso para tentar ocupar o voto anti-petista, mas o que está movendo o eleitor é uma raiva contra todos os políticos, não é raiva contra o PT. O ponto é que vamos entrar numa disputa razoavelmente aberta, que o mercado está subestimando os riscos embutidos; por último, há espaço para candidatos se mexerem. Um candidato que nós estamos muito de olho é o Joaquim Barbosa. Ele está costurando uma candidatura pelo PSB e, se de fato for candidato, pode navegar por esse espectro antiestablishment e tem credenciais muito fortes anti-corrupção e um espaço na centro-esquerda para ser competitivo. Barbosa é realmente um nome para ficar de olho e que pode ser competitivo em 2018.

IM – Como as denúncias de cartéis dos últimos governos tucanos podem afetar a candidatura de Alckmin e até fazer com que apareçam outros outsiders?

CG – Essas denúncias são um passivo sim, mas é difícil avaliar uma vez que as investigações estão andando e é complicado saber se algo mais concreto pode aparecer antes das eleições. Mas o fato de que existe investigação sobre obras do metrô, Rodoanel durante o seu governo é um passivo. Dada a demanda eleitoral e a raiva contra os políticos e a importância do tema corrupção, é claro que é negativo, mas não dá para dizer que é arrasador. Mas reitero que ser um político tradicional nesta disputa é um passivo. O Alckmin entra com esse estigma e isso deixa a disputa muito aberta e acirrada, com nomes como Bolsonaro e Marina podendo ser mais competitivos. Mesmo o Ciro tem que ser levado mais a sério num ambiente como esse. Então não é por acaso que partidos de centro-direita como o DEM estão atrás de nomes que possam representar o anti-establishment  e defender as reformas. Esses são sinais importantes. Para nós, quando Huck disse que não seria candidato – pode mudar de ideia, mas não sinalizou isso -, isso de fato aumenta o risco da eleição porque não temos um representante de reformas que pode se vender como antiestablishment. Então a pergunta é: um nome reformista como Huck pode ressurgir? É difícil apostar. Entre os que estão no radar, Joaquim Barbosa é o único com maior potencial que está ativo.

IM –  O Bolsonaro está em um patamar estável, mas você acredita que os adversários políticos vão atacá-lo e ele cairá rapidamente? Esse seria o risco dos outsiders, não ter experiência em eleições majoritárias?

CG – Sim, esse é um risco para os outsiders e por isso não aposto que eles vão ganhar a presidência, mas diria o seguinte: o poder de fogo do tempo de TV numa campanha está caindo, nós estamos vendo várias eleições mundo afora em que o eleitor está cada vez mais recebendo informações de canais distintos, de mídias sociais. Nas eleições passadas, a Marina Silva tinha um pouco mais de um minuto e chegou a 19% das intenções de voto. Isso já é um indicador de que é possível ser competitivo mesmo não tendo tempo de TV.

Esse é um processo estrutural de como os eleitores consomem informações e de canais cada vez mais distintos, o que significa que o poder de fogo relativo do tempo de TV tem caído e isso é muito importante. Além disso, o tempo de TV de uma campanha caiu: ao invés de 45 dias de televisão, foi 30 dias. A campanha será menor, de de 90 para 45 dias. Então nós vamos ter menos tempo da televisão de campanha para poder desmontar uma candidatura.

Por fim, Bolsonaro está colocando o dedo em uma demanda que existe, que é um discurso antiestablishment em um contexto de grande desencanto. Ele também tem uma característica valiosa que é a autenticidade: você pode concordar ou não com o que ele está falando, mas tem a sensação de que ele fala o que realmente pensa. Esse é um ativo igual ao Trump tinha nos EUA e ele também tem aqui. Não vejo a candidatura dele como fogo de palha.

IM – Com uma eleição tão conturbada, qual é o cenário-base: você vê maior chance de eleição de um candidato reformista?

CG –Nós temos três tipos de candidatos: i) com um discurso antirreformista, que é o Lula e o Ciro, ii) os candidatos reformistas com grande capacidade de executar as reformas, como Alckmin e Meirelles, e ii) com credenciais reformistas ambíguas e com incerteza sobre capacidade de executar: Bolsonaro é um, achamos que ele vai defender reformas amigáveis ao mercado, mas a grande dúvida é sobre a hipótese de trabalhar com o Congresso e também colocaria Joaquim Barbosa e Marina Silva nessa categoria.

Acho que vamos ter a eleição de um candidato ou reformista com capacidade de executar ou com características mistas – e eu não excluo Joaquim Barbosa. Até  acho que uma candidatura de Geraldo Alckmin pode chegar no segundo turno derrubando os outros, mas o risco de um resultado negativo é grande.

IM – Em um cenário sem o Lula você vê alguém competitivo dentro do PT? Jacques Wagner e Fernando Haddad são cotados para substituí-los…

CG – Acho muito difícil um candidato do PT que não seja o Lula ir para o segundo turno. O PT ainda é um passivo eleitoral para a grande maioria da população, o Lula tem um grau de apoio que vai muito além do próprio partido e nem o Haddad nem o Jacques Wagner teriam condições de poder chegar lá. No máximo teriam 10%, 15%, acho difícil ter mais do que isso em uma disputa muito fragmentada. Ficaria mais de olho numa candidatura de Ciro Gomes, Marina Silva, do que uma candidatura do próprio PT.

IM – E o cenário-base de vocês é que o Lula não deve concorrer?

CG – Sim, temos uma probabilidade entre 30% e 40% do Lula concorrer, ao olhar pela jurisprudência da Lei da Ficha Limpa. Também não achamos que o tempo de demora dos embargos de recursos significa que ele poderá concorrer à eleição como um todo. O que juristas que olham o tempo médio dessas decisões sendo tomadas esquecem e não incorporam em suas análises é que decisões que têm repercussões tremendas para a nação geram uma pressão do Judiciário para tomar decisões mais rápidas. Quando saiu a decisão do Moro de condenar o Lula, a expectativa era de que a decisão ficaria para agosto, mas a decisãoserá em janeiro. Essa mesma celeridade deve ocorrer quando recorre ao STJ, Supremo e ao TSE.

IM – Como será a composição do novo Congresso?

CG – A composição da Câmara vai ser um pouco mista, não acho que será ruim para as reformas, devendo haver uma composição de lideranças mais experiente para a Câmara dos Deputados.

Em primeiro lugar, há esse fenômeno de senadores sob investigaçãoque, para manter o seu foro privilegiado, devem se candidatar à Câmara. Em segundo, e mais importante ainda, com a falta de financiamento para as campanhas, a distribuição do fundo eleitoral será ditada principalmente pela bancada na Câmara dos Deputados. Então os partidos políticos, de olho no fundo eleitoral, vão querer formar uma boa bancada na Câmara e vão gastar suas energias para eleger deputados. Assim, os “peso-pesados” vão ser colocados na Câmara para poder puxar votos. Se no passado, a prioridade era eleger presidente, governador, senador e só depois deputado, hoje a prioridade, além da presidência, é a Câmara dos Deputados. A sobrevivência de um partido político depende mais na bancada na Câmara porque isso vai ditar acesso a fundos. Então nós vamos ter lideranças de peso e mais experientes eleitas para a Câmara.

Neste sentido, acho que o PT não vai se sair tão bem em cargos majoritários, mas vai se sair bem na Câmara dos Deputados. A tendência é o PT manter a sua bancada ou até aumentar um pouco mais. Na Câmara, o PT pode se beneficiar mais porque tem uma reputação de legenda de 20%. O Lula tem 35%, mas com o PT está com 20%. E sem dinheiro para financiar campanhas, o PT se sai razoavelmente bem e não vai sofrer um revés na Câmara dos Deputados. Mas, para cargos majoritários, talvez seja mais difícil. De qualquer forma, a noção que a esquerda vai colapsar é exagerada olhando para 2018 no Congresso.

No caso do PSDB, podem manter sua bancada, atualmente em 46 deputados. O DEM tem uma posição de atrair mais nomes e também vamos ter um movimento de outros parlamentares, financiados pelos movimentos como o Agora!, Acredito, Renova Br, entre outros. Ainda está no início, mas deve acontecer. O PSDB deve se manter, mas não vejo um crescimento muito forte do partido.

IM – O novo Congresso será mais negativo para as reformas?

CG – Acredito que não, será uma Câmara de nomes mais experientes, movimentos mais reformistas elegendo mais candidatos, enquanto a esquerda não vai colapsar. As mudanças na margem podem até ajudar ao invés de prejudicar as reformas.

IM – Falando um pouco do Judiciário, os últimos dias de 2017 foram marcadas por decisões monocráticas, como os habeas corpus de Gilmar Mendes, Barroso também tomou decisões sobre o foro privilegiado sem que houvesse uma conclusão sobre o assunto. Como está a imagem do Judiciário e o que esperar para o ano que vem?

CG – A imagem do Judiciário tem sofrido e, se olhar as figuras do Judiciário, como o juiz Sérgio Moro e até o Joaquim Barbosa e outros ministros do Supremo, o índice de rejeição a eles subiu. No início da Lava Jato, havia  essa imagem do Judiciário combatendo uma classe política corrupta, que o Judiciário era dos salvadores da pátria. Essa imagem foi descontruída e uma série de fatores levou a isso, como a decisão do TSE de absolver a chapa Dilma-Temer, até a maneira como o acordo de leniência da JBS foi construído, decisões controversas em meio ao embate com o Senado e com o governo Temer, o que  aumentou a desconfiança até na Justiça como um todo. É como se todos estivessem na lama e o Judiciário, que estava meio imune, entrou nesse processo. Não é um índice de rejeição igual, mas sofreu.

E em 2018 vamos ter grandes decisões que vão guiar a disputa presidencial, como se Lula vai ser ou não candidato. Se retirar o Lula, os lulistas vão se sentir desencantados, prejudicados, e se decidir ao contrário também haverá insatisfação. De qualquer forma, em última instância, tenho uma visão salutar desse processo no fundo, com as instituições de justiça funcionando pelo fato dessas investigações chegarem onde chegaram.

IM – Vai ser o ano dos políticos na Lava Jato e, além do Lula, outras candidaturas podem afetadas?

CG – Não sei se chega a tempo de impactar as eleições diretamente, mas devemos ter sim importantes decisões. Acho difícil esse ímpeto institucional das investigações da Lava Jato ser revertido.