Subiu demais?

Mercado superestima derrota de Dilma; consultor traça cenário pré e pós-eleição

Estudo da Bloomberg que compila 200 eleições ressalta que ambiente econômico não está trabalhando a favor de Dilma, mas que também não há grandes percalços

SÃO PAULO – Em relatório preparado pela Bloomberg sobre as eleições no Brasil, diversos economistas e gestores traçaram cenário para o pleito de outubro e como isso deve afetar a atividade econômica no País. 

Conforme ressalta o diretor para mercados emergentes do Eurasia Group, Chris Garman, o cenário que vem se desenhando para a eleição pode não ser o mesmo que os investidores no mercado acionário estão traçando. De acordo com ele, os mercados estão superestimando as chances de que haverá uma mudança no regime político, tendo como base principalmente o patamar de aprovação de Dilma Rousseff. 

Baseando-se em um conjunto de dados de 200 eleições, Garman aponta que presidentes com patamar de aprovação eleitoral pessoal de 40%, como é o caso de Dilma, não costumam perder as eleições que disputam. A última pesquisa eleitoral divulgada Istoé/Sensus mostrou que a aprovação pessoal da presidente está neste patamar, possuindo 40,2% de aprovação e de 47,9% segundo pesquisa CNT/MDA, patamar ao qual Garman se refere. Vale ressaltar que o relatório foi elaborado antes da pesquisa Datafolha desta segunda-feira, que trouxe números sobre a aprovação do governo em 35%, mas não mostrou dados sobre a avaliação pessoal da presidente. 

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Porém, olhando por alguns dados, dá para estabelecer que o ambiente econômico não está trabalhando a favor de Dilma. Isto porque alguns dados de inflação e de emprego apontam que há um cenário negativo se desenhando nos próximos meses. “Se neste caso, a aprovação de Dilma for para baixo deste patamar, revisaremos a probabilidade dela ganhar as eleições”, afirma Garman.

Ele destaca que, por enquanto, a renda real dos trabalhadores não está caindo significativamente e a população vê o seu poder de compra aumentar. Por outro lado, a insatisfação vem crescendo entre a nova classe média e a inflação está comendo o poder de compra do consumidor. “Mas não temos a percepção populacional de que tudo que se ganhou nos últimos oito anos está começando a ser perdido. Isto seria a morte para ela”, afirma.

Neste cenário, a expectativa é que Dilma irá para o segundo turno com distância da oposição entre os 4 e 6 pontos, diferente dos 14 e 20 pontos vistos na última eleição. Porém, caso haja uma deterioração acima do esperado da economia, o cenário pode se complicar para Dilma. E reforça: nesta fase, o índice de aprovação de Dilma deve ser observado com atenção, já que é o melhor indicador para antecipar e medir o desejo de mudança do eleitorado. 

O que deve acontecer se Dilma ganhar?
Garman aponta que o rali do mercado nos últimos dois meses aponta para a expectativa de que a oposição ganhe, e uma vitória de Dilma no segundo turno seria decepcionante para os investidores que estão, segundo ele, superestimando a possibilidade de Dilma ser derrotada.

 Então, o assunto será o que Dilma fara num segundo mandato. E as notícias são boas. Para a Eurasia Group, caso a presidente vença o pleito, a expectativa é que melhore a econonomia e reformule a política para tentar ganhar credibilidade perante a população. Garman aponta que a presidente se tornará mais rigorosa do ponto de vista fiscal e de gestão, fará mais concessões e privatizações. E uma das principais mudanças será no setor de petróleo e gás, com o governo introduzindo maior competição para desenvolver o pré-sal, permitindo que outras companhias explorem os campos junto com a Petrobras (PETR3;PETR4). 

Por outro lado, Garman reforças que haverá dificuldades no caminho, uma vez que o segundo mandato será o oposto do primeiro, com a presidente tendo que “por o pé no freio” e tentar uma política mais crível. Mas isso em um contexto em que ela está politicamente mais fraca. 

Enquanto terá que fortalecer as contas, a crise de energia pode eclodir no ano que vem se o governo não decretar um racionamento antes das eleições, o que é improvável que aconteça. Neste caso, Dilma pode ter dificuldades em apresentar uma nova agenda, mais construtiva, com a margem de manobra do governo ficando bastante reduzida.

E afirma: “ela vai depender muito do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silvapara ganhar a reeleição e sua influência sobre ela vai crescer” e sua “alavancagem” pode ser boa para levar a política para uma direção mais construtiva. Porém, a vantagem não é tremenda, avalia.

O relatório da Bloomberg traz ainda a entrevista do economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, que afirmou que Dilma precisa fazer com que a economia brasileira precisa voltar “ao básico” em um eventual segundo mandato. Ele destacou ainda que a eleição está mais em aberta do que o esperado e ressaltou que muitas coisas podem acontecer até o pleito de outubro. 

Além disso, o relatório também aponta os perfis dos adversários de Dilma, Aécio Neves e Eduardo Campos e ressalta ainda o apelo decisivo da Copa do Mundo para determinar a presidência do Brasil. “A partir do dia 12 de junho, o Brasil já espera passeatas para discutir o aumento do custo de vida, corrupção, serviços públicos à frente dos $ 11 bilhões investidos no campeonato. Esta leva de protestos pode ser crucial para não reeleger Dilma Rousseff”, aponta um dos cenários traçados por Raymond Colitt, da Bloomberg News.