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Mercado passa a desconfiar se realmente haverá mudanças em novo governo Dilma

Entrevista concedida a grandes jornais por Dilma Rousseff mostrou que a presidente reeleita "continuará a fazer mais do mesmo"

SÃO PAULO – Cerca de doze dias se passaram depois da eleição e, sem grandes sinalizações de mudanças no governo, o mercado começa a mostrar uma maior desconfiança sobre o que acontecerá no próximo mandato de Dilma Rousseff (PT).

Uma prova disso foi a entrevista de Dilma a quatro jornais de grande circulação, e que decepcionou o mercado ao não detalhar como conduzirá a política econômica nos próximos quatros anos. A presidente reeleita falou sobre ajustes, mas não ressaltou como serão feitos, o que aumentou a desconfiança do mercado e fez até mesmo com que os juros futuros de longo prazo subirem. 

“Nós temos problema interno com a inflação”, admitiu Dilma, mas afirmou que fará de tudo para que não haja ajustes que levem ao desemprego e à recessão, indicações que também foram feitas pelo ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, mostraram que é mais improvável que haja ajustes críveis no novo governo. 

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“A expectativa é de que haja mais do mesmo”, ressalta o economista-chefe da Austin Ratings Alex Agostini, ressaltando ainda que a demora nos anúncios das medidas de ajuste fiscal acabam afetando a economia como um todo. Em meio a um cenário de economia ruim, sem a sinalização dos próximos passos, os agentes econômicos ficam na expectativa de novas medidas, assim como a população, afirma o economista. 

Durante a entrevista, Dilma disse que vai controlar os gastos e a inflação “sem prejudicar o emprego”: “esta indicação sinaliza que não deve haver uma mudança clara de postura do governo. Não há como fazer um ajuste fiscal no momento sem que haja desemprego”, ressalta Agostini. “Há muitas dúvidas sobre se o governo tomará as medidas dolorosas, ainda mais levando em conta os últimos quatro anos. Tomar estas medidas agora seria contra o que o governo colocou em pauta nos últimos quatro anos”, afirmou. 

Soma-se a isso, a demora no anúncio do ministro da Fazenda que, segundo Dilma, será revelado após a reunião do G20 na Austrália. Nomes como Henrique Meirelles e Nelson Barbosa são os mais cotados. Agostini ressaltou que, mesmo que Meirelles seja escolhido, o mercado continuará acompanhando sobre como será a gestão do ex-presidente do Banco Central na Fazenda: se ele vai manter a independência ou se será mais alinhado com o governo. Já a escolha de Barbosa mostraria um alinhamento maior com o governo desde o começo, apesar de também ser positivo. 

E, de acordo com o economista-chefe do Votorantim Roberto Padovani, que participou de  debate promovido pela Ordem dos Economistas hoje, a indefinição para a nomeação do novo ministro da Fazenda mostra que o governo não está convencido do que precisa ser feito na política econômica. Ele ressaltou que o ministro, independentemente de quem for, precisa ser politicamente forte para que os agentes voltem a confiar nas decisões do governo. Num cenário de piora das contas públicas, e em meio a um “grau de deterioração da reputação e da credibilidade longo e profundo”

Ajustes são necessários, afirmam economistas
Assim, com as perspectivas econômicas bastante deterioradas, as sinalizações feitas por Dilma não animaram, depois da subida de juros pelo Copom (Comitê de Política Monetária) e os rumores do novo ministro terem animado na semana passada. Aliás, na própria ata do Copom, não houve tanto senso de urgência sobre o combate à inflação, o que diminuiu o ânimo dos mercados.

Também no debate promovido pela Ordem dos Economistas, o professor Roberto Luis Troster, ressaltou que um reajuste na economia não é o cenário mais provável, apesar de avaliar ser possível fazer um ajuste rápido.

Para ele, provavelmente o que será feito são ajustes pontuais em direção à ortodoxia, mas sem mudanças fundamentais para resolver os principais problemas econômicos. Troster ainda acrescentou que a principal questão, no momento, não é a troca do ministro da Fazenda, mas a troca da política econômica. Com isso, mesmo com um novo ministro, as incertezas podem continuar.

(Com Agência Estado)