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Um artigo publicado nesta sexta-feira (28) pelo Financial Times afirma que a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de retirar a sobretaxa de 40% sobre importações brasileiras representa uma vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo o jornal britânico, a reversão confirma que, após meses de tensão entre Washington e Brasília, “em inglês simples: Lula venceu”.
Quatro meses atrás, Trump havia anunciado a elevação das tarifas para um total de 50% sobre produtos do Brasil em reação à investigação sobre Jair Bolsonaro e às medidas brasileiras contra grandes empresas de tecnologia dos EUA. Lula respondeu defendendo as instituições e rejeitando a pressão. O FT observa que a guinada do governo norte-americano ficou explícita quando Trump afirmou que “certas importações agrícolas do Brasil não devem mais estar sujeitas ao adicional [de 40%]”.

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Para a autora, Gillian Tett, o movimento oferece três lições. A primeira diz respeito ao ambiente econômico interno dos EUA. Segundo o texto, a Casa Branca demonstra crescente preocupação com o custo de vida, já que “pesquisas recentes mostram que o sentimento do consumidor está caindo em paralelo com a aprovação de Trump”. Nesse contexto, reduzir tarifas agrícolas seria uma forma direta de tentar aliviar preços.
A segunda lição envolve a dinâmica de confronto. O artigo sustenta que “valentões geralmente respondem à força”, citando que países como China e, agora, o Brasil teriam adotado posturas firmes com resultados relevantes. A resistência de Lula é interpretada como parte dessa lógica.
O FT argumenta ainda que é necessário distinguir objetivos, estratégias e táticas ao analisar a política de Trump. Embora o presidente seja descrito como movido por instintos e por um desejo de ampliar a dominância econômica e política dos EUA, suas ações combinariam disputas internas entre assessores, impulsos geoeconômicos e decisões carregadas de fatores culturais, tecnológicos e pessoais.
A publicação aponta que a tentativa de usar tarifas para pressionar o Brasil, incluindo a expectativa de influenciar o tratamento judicial de Bolsonaro, se encaixa no padrão tático do presidente, baseado em “bullying, ameaças, melodrama, oscilações de política, favoritismo e anúncios que inundam o debate”. Essas manobras chamam atenção, mas não devem ser confundidas com metas estratégicas, escreve Tett.
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Segundo o artigo, essas táticas nem sempre funcionam, o que alimenta a expressão “Taco”, sigla de “Trump Always Chickens Out” (“Trump sempre amarela”), usada por críticos para se referir a recuos anteriores. Para o FT, a capacidade da Casa Branca de abandonar movimentos que geram reações negativas, como no caso das tarifas brasileiras, evidencia que muitos desses gestos têm caráter transitório. “Como se diz Taco Trade em português?”, ironiza o texto.
A autora conclui dizendo que a vitória de Lula envia “sinais encorajadores” para outros países ao mostrar que “reis raramente são tão poderosos quanto parecem”.