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Lula sobre a Petrobras, em 2010: “uma caixa branca e transparente – mas nem tanto…”

"A gente sabe o que acontece lá dentro e a gente decide muitas das coisas que ela vai fazer”, afirmou o ex-presidente em discurso - ele ainda reiterou que a crise era "marolinha"

SÃO PAULO – Em meio ao cenário de crise e de deflagração do esquema de corrupção da Petrobras pela Lava Jato, que culminou hoje com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sendo alvo da fase Aletheia, um vídeo de 2010 de um discurso do ex-presidente vem viralizando e chamando a atenção nas redes sociais. 

No final de 2010, em clima de despedida após dois mandatos presidenciais, Lula participou de cerimônia para a entrega da plataforma P-57, da Petrobras. Naquele ano, o valor de mercado da estatal era de R$ 380 bilhões, 341,4% maior em relação ao valor atual, de R$ 86,6 bilhões. O ano era de forte alta do preço de petróleo, com o barril fechando aquele ano acima de US$ 90 – atualmente, a commodity está na casa dos US$ 36.

O discurso do então presidente é marcante olhando em perspectiva por dois pontos: tanto quando ele exalta a Petrobras quanto à economia brasileira, reafirmando a sua tese de que a crise de 2008 foi uma “marolinha”. 

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O ex-presidente, no discurso de 2010, destacou que a Petrobras era uma “caixa branca”, ao contrário dos períodos anteriores. Teve um tempo em que a diretoria da Petrobras – não é do seu tempo, não, Sérgio [Gabrielli, então presidente de Petrobras] – achava que era o Brasil que pertencia à Petrobras, não era a Petrobras que pertencia ao Brasil. A ponto de ter presidente que falava: ‘a Petrobras era uma caixa preta, ninguém sabe o que acontece lá dentro’. No nosso governo, ela é uma caixa branca e transparente… Nem tão assim, mas é transparente. A gente sabe o que acontece lá dentro e a gente decide muitas das coisas que ela vai fazer”, afirmou Lula no discursco, em Angra dos Reis (RJ). 

Agora, Gabrielli é um dos alvos da Lava Jato, sendo citado por alguns delatores da operação. Dentre eles, o operador de propina do PMDB, Fernando Baiano. Citando dois ex-diretores da Petrobras, ele afirmou que Gabrielli sabia dos “acertos políticos” fechados para o projeto Revamp (Renovação do Parque de Refino), na Refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, que teria envolvido o adiantamento de propinas para políticos. O ministro Vital do Rêgo, do Tribunal de Contas da União (TCU), vai pedir aos colegas de corte que renovem por mais um ano o bloqueio de bens de ex-executivos da Petrobras condenados por prejuízo bilionário na compra da refinaria, dentre eles, Gabrielli. 

O ex-presidente ainda defendeu o conteúdo nacional na fabricação de sondas no Brasil, um dos pontos que levou a um forte aumento do custo para a estatal. “A primeira coisa que a gente teve que fazer era despertar espírito de nacionalismo. Gostar um pouco mais dessa bandeira verde e amarela, acreditar mais na gente. Acabar com a fisolofia de que é melhor a gente importar, comprar de fora, que fica mais barato”, afirmou.

Naquela época, o presidente ainda citou a crise do subprime dos EUA, ocorrida em 2008, destacando que o Brasil tinha sido o País que melhor tinha passado pela crise. “Fui achincalhado quando disse que aqui a crise seria uma marolinha, mas foi. Porque a gente tinha o Banco do Brasil, o BNDES e a Caixa, que salvaram o mercado quando todos estavam com medo”.

Hoje, o cenário é bem adverso: além da política de crédito dos bancos públicos, notoriamente a de “campeões nacionais” do BNDES ser muito criticada, a crise não se provou uma marolinha, principalmente no ano passado e neste ano, a ponto do Brasil ganhar destaque nas páginas internacionais como um dos países que mais terá queda da atividade econômica. Enquanto isso, em 2010, o PIB registrou alta de 7,5%.

Porém, a história parece se repetir: em meio à toda pressão para reativar o crescimento, o ex-presidente vem pressionando a sua sucessora, Dilma Rousseff, a adotar políticas de estímulo ao crédito. Porém, há dúvidas sobre os seus efeitos. Soma-se ainda a isso as indicações de que houve pressão política para que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo saísse do cargo, em meio ao avanço da Lava Jato entre líderes do PT – dentre eles o próprio Lula. Conforme mostra as investigações da Lava Jato, a caixa preta da Petrobras ainda precisa ser aberta. 

Veja trecho do discurso de Lula em 2010: 

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