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Líderes da oposição na Venezuela veem uma oportunidade

A menos de seis meses das eleições legislativas, quase sete de cada 10 venezuelanos não aguentam mais a gestão de Maduro

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(SÃO PAULO) – Quando as forças de segurança venezuelanas prenderam o líder da oposição e demagogo-mor Leopoldo López no início do ano passado, com certeza o presidente Nicolás Maduro pensou que tinha se livrado do pior fluxo de notícias do regime.

Bela tentativa, companheiro.

Todos os tweets contrabandeados e entrevistas de López na cadeia fizeram com que a reputação de Maduro ficasse cada dia pior.

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A menos de seis meses das eleições legislativas, quase sete de cada 10 venezuelanos não aguentam mais a gestão de Maduro, e oito de cada 10 dizem que o país está na direção errada. Mais da metade dos venezuelanos diz que está se inclinando aos candidatos opositores.

Pela primeira vez em quase duas décadas, desde que Hugo Chávez iniciou seu experimento com o socialismo do século 21, os venezuelanos irão às urnas em uma disputa que está nas mãos da oposição.

Nesta semana, após meses de equívocos e da dramática greve de fome de López, que durou 30 dias, o governo finalmente cedeu. Madurou estipulou a data – 6 de dezembro – para as eleições de meio-termo. Maduro também liberou alguns presos políticos, embora López não tenha sido um deles.

O presidente estava certo em ser reticente. Em um país onde a inflação está acelerando para 100 por cento ao ano, os criminosos são os donos das ruas e fazer supermercado é uma espécie de caça ao tesouro, as taxas do governo estão em areias betuminosas.

Antes, o petropopulismo de Chávez conquistou a lealdade dos “barrios” e manteve sob controle os rivais dos palacetes. Agora, a queda dos preços do petróleo dilapidou o cofrinho bolivariano e evidenciou o desregramento dos principais planificadores. Diante do aumento da pobreza e da escassez de bens, que vai de insulina a iPhone, o país de quase 29 milhões de habitantes perdeu sua verve revolucionária.

Isso não significa que o chavismo tenha morrido. Embora o Comandante esteja morto, mais de 16 anos amontoando os tribunais e o congresso – e coibindo a mídia e os mercados – transformaram instituições nacionais em câmaras de ressonância do bolivarianismo.

E, se os eleitores venezuelanos vacilassem, os responsáveis pelo regime tinham um plano. Além dos manejos para aumentar os votos do partido socialista, as reformas eleitorais da época de Chávez conferiram um peso desproporcional às zonas rurais, onde o governo tradicionalmente se saía bem nas pesquisas. As novas leis também aumentaram a quantidade de legisladores escolhidos por maiorias diretas e reduziram o número dos que são eleitos através de listas fechadas dos partidos, uma manobra que favoreceu os candidatos conhecidos em detrimento dos iniciantes e opositores.

O sistema era complicado, mas funcionava perfeitamente enquanto a revolução se saía bem. Em 2010, os candidatos do governo receberam 48 cento dos votos populares, mas conquistaram 59 por cento dos cargos legislativos, o suficiente para prender o judiciário e conceder a Maduro praticamente um decreto ditatorial.

Agora parece que o chavismo foi pretencioso demais. Como Maduro está perdendo apoio, as regras de representação desproporcional hoje favorecem os candidatos opositores, que pela primeira vez desde 1999 têm chances de conquistar uma maioria – talvez até uma supermaioria – da Assembleia Nacional e acabar com o exacerbado domínio político do governo.

A eleição ainda não foi conquistada. Os oponentes de Maduro estão animados, mas continuam divididos, inclusive entre o impetuoso López e os moderados, como o ex-aspirante a presidente Henrique Capriles, governador do estado de Miranda, que resistiu aos pedidos das alas radicais de tomar as ruas.

E como não há a menor chance de arrumar a atual bagunça venezuelana sem decretar algumas medidas contundentes de austeridade – abolir o congelamento dos preços, parar de brincar com a taxa de câmbio e acabar com a gasolina quase de graça, para começar –, os anti-chavistas estão em apuros.

“Como a oposição não tem uma proposta alternativa, ela continua remontando às violações dos direitos civis e dos direitos humanos”, disse Alejandro Velasco, historiador da Universidade de Nova York. “Esse é um compromisso internacional, não um doméstico, e talvez não seja suficiente”.

Pode contar com Maduro para explorar os pontos fracos dos dissidentes, contornear as regras, prender mais detratores e implementar mais medidas bolivarianas. Se isso continuará surtindo efeito nesses tempos tormentosos, é outra história. Basta perguntar a Leopoldo López.