Eleições 2022

Líder na disputa pelo governo da Bahia, ACM Neto quer ‘estadualizar’ campanha

Ex-prefeito de Salvador agrega apoiadores dos dois campos que polarizam eleição nacional: Lula e Bolsonaro

Por  Fábio Matos -

A pouco mais de 100 dias do primeiro turno das eleições, a disputa pelo governo da Bahia vai passando incólume pela polarização nacional entre o petista Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente Jair Bolsonaro (PL). Pelo menos até aqui, a corrida no quarto maior colégio eleitoral do país tem como protagonista um jovem político de 43 anos – velho conhecido do eleitorado baiano – identificado por três letras que estão arraigadas no imaginário popular do estado há praticamente sete décadas: ACM. 

Neto do ex-prefeito de Salvador, ex-governador da Bahia e ex-senador Antônio Carlos Magalhães (1927-2007), ACM Neto (União Brasil) é o herdeiro político do chamado “carlismo” – como ficou conhecido o movimento de apoio a seu avô, eleito deputado estadual pela primeira vez em 1954, pela União Democrática Nacional (UDN). Com nova roupagem, o grupo se reinventou sob a liderança daquele que hoje é apontado como favorito para ser o próximo governador da Bahia, a partir de janeiro de 2023. 

ACM Neto foi eleito deputado federal pela primeira vez em 2002 – e reeleito em 2006 e 2010. Especialmente a partir do segundo mandato na Câmara, tornou-se uma das vozes mais combativas na oposição aos governos de Lula e do PT.

Disputou a prefeitura de Salvador em 2008, mas não chegou ao segundo turno. Tentou novamente em 2012, desta vez com sucesso, derrotando Nelson Pelegrino (PT). Em 2016, foi reeleito com uma votação estrondosa (74%), ainda no primeiro turno. Quatro anos depois, deixou a prefeitura da capital baiana com altíssima aprovação e elegeu o sucessor, Bruno Reis, com mais de 64% dos votos. 

Segundo pesquisa divulgada pelo Real Time Big Data no dia 9, o ex-prefeito lidera a disputa pelo governo estadual com 56% das intenções de voto – venceria no primeiro turno se a eleição fosse hoje. O segundo mais bem colocado é o ex-secretário estadual de Educação Jerônimo Rodrigues (PT), apoiado por Lula e pelo governador Rui Costa (PT), com 18%. João Roma (PL), ex-ministro da Cidadania de Bolsonaro e ex-aliado de ACM Neto, tem 10%. 

Em maio, uma pesquisa da Quaest mostrava vantagem ainda maior do ex-prefeito: 67% da preferência dos baianos, mais de 60 pontos percentuais acima de Jerônimo (6%). Ainda de acordo com a sondagem, 70% dos eleitores de Lula na Bahia declaram que pretendem votar em ACM Neto. Entre os apoiadores de Bolsonaro, o índice é de 69%. O instituto também aponta que 72% daqueles que reelegeram o petista Rui Costa, em 2018, estão dispostos a conduzir o neto de ACM ao comando do estado. 

ACM-Lula

Durante seu governo em Salvador, Neto deixou de lado a retórica virulenta do período como parlamentar e construiu pontes com a esquerda – o trabalho em conjunto com Rui Costa no combate à Covid-19 é considerado um exemplo de sucesso. Ao mesmo tempo, manteve distância protocolar de Bolsonaro, com quem evitou embates mais duros.

Chegou a ser acusado de tentar emplacar cargos no governo federal – ele nega – e foi sondado até para ocupar um ministério. Beneficiado pelo recall e por um governo bem avaliado pelos soteropolitanos, ACM Neto conseguiu cristalizar uma candidatura competitiva que desafia a lógica da polarização em nível federal. Em entrevistas e pronunciamentos, esquiva-se de perguntas sobre a eleição presidencial e foca em temas locais. 

“Ele tentou não ficar preso a Bolsonaro, pois sabe que o eleitorado baiano dá altos percentuais de voto ao PT desde a década de 1990. Essa estratégia foi muito inteligente”, analisa Cláudio André de Souza, professor adjunto de ciência política da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), em entrevista ao InfoMoney.  

“A tentativa de estadualizar a campanha e evitar que a polarização nacional penetre na Bahia é a única coisa que ACM Neto tem de fazer. E ele está fazendo”, explica o cientista político Paulo Fábio Dantas Neto, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “ACM Neto não está fazendo nenhuma força para trazer a disputa presidencial para o debate. Há uma tendência majoritária de apoio a ele e também a Lula. Não há nenhum impedimento para que o eleitorado baiano faça essa composição. Basta que ambos não se conflitem diretamente durante a campanha”, afirma. 

“O que Neto tem feito é conter, pelo menos parcialmente, essa polarização nacional. Há quem goste do Lula e também do ACM”, corrobora Alejandro Alvaro, consultor de comunicação especializado em estratégia política. 

De fato, a vitória de Lula na Bahia é dada como certa – nem os apoiadores mais entusiasmados de Bolsonaro acreditam na possibilidade de uma virada no estado, reduto do PT há quase 16 anos. Segundo a pesquisa da Quaest, o ex-presidente tem 63% das intenções de voto entre os baianos, ante 17% de Bolsonaro. Em 2006, o petista Jaques Wagner, um dos aliados mais próximos de Lula, pôs fim à longa hegemonia do carlismo na Bahia, derrotando no primeiro turno o então governador Paulo Souto (PFL), apoiado por ACM, com quase 53% dos votos. 

O cientista político Hilton Cesario Fernandes, professor da Fundação Escola de Sociologia Política de São Paulo (FESPSP), lembra que “a lógica política nacional não necessariamente se repete nos estados”. “Partidos adversários em uma região podem ser parceiros em outras. Para o eleitor, não há grandes problemas em escolher candidatos de diferentes perfis ideológicos para cargos diferentes”, afirma. “No caso da Bahia, o que se vê é uma aderência maior a Lula e ao PT na esfera nacional, o que não impede o eleitor de votar em uma dobradinha ACM-Lula.” 

A consultora de comunicação Karina Terso atribui a dianteira de Neto nas pesquisas à avaliação positiva de sua administração em Salvador e ao desconhecimento de grande parte dos eleitores sobre os demais candidatos. “Com oito anos como prefeito e excelentes índices de aprovação, ACM é muito mais conhecido do que Jerônimo e Roma”, diz. 

Souza, por sua vez, ressalta que Neto antecipou a campanha e pôs o pé na estrada logo depois de entregar a prefeitura de Salvador ao sucessor.  “Ele termina o mandato em 2020, elege o Bruno Reis e já começa as tratativas de sua pré-campanha a governador. Passou a rodar o estado e a conversar com lideranças regionais”, aponta. Segundo estimativas da campanha, ACM já conta com o apoio de pelo menos 18 prefeitos do grupo das 30 maiores cidades da Bahia – que representam quase 40% da população do estado. 

Para Karina, apesar de haver um claro favorito neste momento, a eleição não está decidida. “Não vejo que será um ‘passeio’ de ACM, mas é indiscutível que sua candidatura tem uma grande força e vai tomando corpo”, afirma. 

Alejandro concorda com essa avaliação. “Embora a vitória de ACM pareça fácil, creio que não será, por causa da força que o PT tem na Bahia”, avalia. “Com o governador Rui Costa também muito popular e a participação de Lula, não será simples para ACM Neto, sem que ele tenha uma figura presidencial forte ao seu lado.” 

O fator Lula também é destacado por Souza. “Assim como em outras eleições, Lula será o cabo eleitoral determinante”, projeta. “Quanto mais o ex-presidente estiver na Bahia, com agendas de campanha, ligando sua imagem à de Jerônimo, mais dificuldades Neto terá.” 

Enquanto Jerônimo contará com Lula, e Roma terá Bolsonaro ao seu lado, ACM Neto já disse publicamente que não pretende fechar o palanque na eleição estadual. O pré-candidato do União Brasil à Presidência é Luciano Bivar, que comanda a legenda, mas praticamente não pontua nas pesquisas. O arco de apoio do ex-prefeito de Salvador, por outro lado, é amplo e diversificado, incluindo forças díspares como o PP, do vice-governador João Leão, e o PDT, do candidato ao Planalto Ciro Gomes. 

“O grande problema de ACM é que ele está mal posicionado na política nacional”, opina Dantas Neto. “O campo que lhe deixaria mais confortável teria sido o da agregação de uma candidatura da terceira via, mesmo que não vencesse as eleições. Uma candidatura que pudesse dar consistência, substância e um palanque tranquilizador para ele. Para que não precisasse carregar um candidato [a presidente] nas costas”, completa, referindo-se a Bivar. 

O cientista político, no entanto, não acredita em uma mudança radical do cenário eleitoral baiano até o dia 2 de outubro. “O início da campanha permitirá que o percentual de votos de Jerônimo aumente. É um candidato do governo do estado que estará ligado a Lula”, justifica. “Mas a vantagem de Neto é muito grande e consistente. Uma campanha eleitoral tem elementos imprevisíveis. Não é possível cravar que a eleição está decidida. Mas não há no horizonte nenhuma tendência de que possa haver uma reversão desse quadro.” 

Projeto nacional

Segundo os analistas ouvidos pelo InfoMoney, ACM deve se credenciar para voos mais altos na política brasileira caso confirme o favoritismo que as pesquisas apontam. Em dezembro de 2021, em discurso durante o lançamento da pré-candidatura do ex-prefeito ao Palácio de Ondina, Bivar apresentou Neto como provável nome da legenda para a disputa pela Presidência da República, em 2026 ou 2030. 

No ano passado, o DEM (sucessor do PFL) atravessou uma grave crise interna e perdeu quadros importantes, em meio ao fogo cruzado entre Rodrigo Maia (RJ) e ACM Neto. O ex-presidente da Câmara foi expulso da legenda depois de ter chamado ACM, então presidente nacional do partido, de “oportunista”, por causa da suposta aproximação com o governo Bolsonaro. 

Em outubro de 2021, DEM e PSL aprovaram a fusão que deu origem ao União Brasil – a nova agremiação foi homologada e teve o registro aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em fevereiro deste ano. O partido detém a bancada mais numerosa do Congresso e terá à disposição a maior fatia dos fundos partidário e eleitoral.

O sonho da família Magalhães de subir a rampa do Palácio do Planalto é antigo. Filho de ACM e tio de ACM Neto, Luís Eduardo Magalhães (1955-1998) era apontado como nome natural do clã para disputar a Presidência. Ele comandou a Câmara dos Deputados entre 1995 e 1997 e contava com a simpatia do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Em 1998, durante sua pré-campanha ao governo da Bahia pelo PFL, morreu precocemente, aos 43 anos, vítima de um infarto fulminante. Coube a ACM Neto assumir o espólio político da dinastia.

“ACM começou a se aproximar de um eleitorado que vai muito além do perfil tradicional do chamado grupo carlista”, diz Dantas Neto. “A ausência na Bahia de qualquer outra alternativa de centro ao PT fez, inclusive, com que uma parte do eleitorado anticarlista, que sempre votou contra o Antônio Carlos, passasse a votar em Neto. Ele se transformou em um político com um discurso mais moderno.” 

Para Fernandes, a possível vitória na Bahia deve “consolidar” ACM nacionalmente. “Isso pode estimular discussões sobre sua candidatura à Presidência. No entanto, para ser competitivo, ele teria de apresentar marcas importantes de governo e ampliar seus apoios nas demais regiões brasileiras, o que talvez não seja possível em um único mandato de governador”, pondera.

“Se olharmos para os presidenciáveis no campo do centro e da centro-direita nas últimas eleições, notamos que muitos passaram por governos estaduais: Eduardo Campos [PE], Geraldo Alckmin [SP], José Serra [SP] e Aécio Neves [MG] são alguns exemplos”, compara Souza. “ACM Neto é jovem. Se conseguir se firmar como a principal liderança política do quarto maior colégio eleitoral do país, certamente estará credenciado para o cenário nacional. Acredito que teremos, nos próximos dez anos, uma renovação dos quadros no Brasil, até por uma questão geracional.”

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