Entrevista ao Valor

Levy teme que incerteza política paralise empresas e dificulte o ajuste fiscal

Dificuldade em aprovar medidas no Congresso pode afetar a arrecadação enquanto empresas protegem o seu caixa contra o clima de instabilidade<span> </span>

SÃO PAULO – A queda de braço entre o Congresso e o governo pode trazer uma dificuldade a mais para o ajuste fiscal proposto pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Em entrevista ao Valor Econômico, Levy se disse preocupado que as empresas adiem o pagamento de impostos para proteger o caixa diante da maior instabilidade política, já que ao mesmo tempo que o Planalto tenta passar uma agenda de austeridade, os partidos da base aliada aprovam projetos e medidas que aumentam o gasto fiscal no longo prazo. 

Apesar disso, o ministro continua desconversando quando se fala em mudar a meta de superávit primário do governo de 1,1% do PIB (Produto Interno Bruto). Segundo ele, o importante agora é focar a estratégia em acelerar o ajuste para que a economia retome o crescimento e haja o que ele chamou de um aumento cíclico da arrecadação. “A aposta é encurtar o tempo de travessia, discutir já agora ajustes estruturais para diminuir o custo para a população”, explicou. 

Ele ainda falou sobre a cultura que existe no Brasil de que todas as coisas devem vir do Estado, que prejudica a discussão de cortes no Orçamento do governo. Para ele, isso está mudando e as pessoas já percebem que o mais importante não é o governo “ajudar”, mas haver oportunidades, menos entraves em todos os níveis. Essa é a cabeça para continuarmos na trajetória do desenvolvimento.

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Em relação às medidas de ajuste que agradariam mais à base do PT do que as que vêm sendo implementadas até agora – a saber, a taxação de grandes fortunas e heranças – Levy disse que é necessário olhar para outras questões além do aumento da carga tributária para arrumar uma economia que sai de um período de boom das commodities. “É preciso estar atento para o país não entrar em um desequilíbrio fiscal estrutural que traga insegurança, mas entender que apenas aumentar impostos não terá o condão de resolver os problemas do Brasil”, afirmou.

Para ele, é preciso primeiro olhar para os gastos obrigatórios determinados pela lei, inclusive renúncias fiscais, como a dispensa de empresas pagarem a contribuição patronal, que força o Tesouro a sustentar a Previdência Social.