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O ex-diretor do Banco Central Luiz Fernando Figueiredo afirmou que a necessidade de o Brasil operar com juros reais em torno de 10% ao ano para conter a inflação é “um crime” e revela um desequilíbrio macroeconômico estrutural.
Segundo ele, a taxa elevada não decorre de uma decisão isolada da autoridade monetária, mas do conflito entre uma política fiscal que estimula a demanda, uma dívida pública elevada e a consequente perda de eficiência da política monetária.
A avaliação foi feita nesta terça-feira (27) durante um encontro do Mercado & Opinião, think tank que reúne empresários e especialistas para discutir perspectivas políticas e econômicas para 2026. Na ocasião, Figueiredo afirmou que o ambiente macroeconômico brasileiro tende a seguir “mais ou menos” enquanto essas distorções persistirem.
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Ao explicar o funcionamento da política monetária, o ex-diretor afirmou que o mecanismo é direto. Quando a inflação sobe, o Banco Central eleva os juros para reduzir o ímpeto da demanda e, em um segundo momento, abrir espaço para a queda da inflação e dos juros.
“O que ele faz é reduzir um pouco a demanda para que o ímpeto de preços diminua e a inflação caia. É isso que o Banco Central faz”, disse.
O problema, segundo ele, é o nível de juros necessário para que esse processo funcione no Brasil. “Mas por que o Brasil precisa, para reduzir a inflação, colocar o juro real em 10% ao ano? […] 10% do real é um crime”, afirmou.
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Para Figueiredo, juros tão elevados indicam que o país convive com um problema estrutural grave. “Com um juro tão alto, é porque a gente tem uma doença muito grave. Você está tomando uma dose de remédio absurdamente grande.”
Figueiredo reforçou que a taxa de juros elevada não deve ser tratada como causa dos desequilíbrios, mas como consequência deles. “A taxa de juros alta é consequência de um monte de coisas. Ela nunca é causa. O Banco Central não é malvado, sacana e quer juro alto. Ele tem que colocar o juro num ponto em que consiga trazer a inflação para baixo.”
Políticas fiscais conflitantes
Entre as principais razões para esse cenário, o ex-diretor destacou o antagonismo entre política fiscal e política monetária. Segundo ele, enquanto o Banco Central tenta reduzir a demanda para conter a inflação, o governo adota medidas que atuam no sentido oposto.
“O governo vai lá e faz uma série de medidas para aumentar a demanda, enquanto o Banco Central recomenda que diminua. São políticas que vão em direções opostas”, afirmou. Nesse contexto, a autoridade monetária é forçada a apertar ainda mais as condições financeiras para obter o mesmo efeito, tornando a política monetária menos eficiente.
Outro fator central apontado por Figueiredo é o nível de endividamento público. Ele afirmou que o Brasil alcançou o maior grau de endividamento entre os países emergentes, o que amplia a percepção de risco por parte dos financiadores.
“Quando existe esse crescimento de dívida, uma dívida que já está muito alta, o financiador tem medo se o governo vai conseguir pagar essa dívida. Quanto maior a dívida e quanto maior o juro dessa dívida, maior o receio. E, com mais receio, eu busco uma taxa de juros mais alta.”
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Para ele, políticas fiscalmente expansionistas e dívida crescente são duas faces do mesmo problema. “São duas vertentes do mesmo problema”, disse, ao afirmar que esse ciclo acaba elevando o custo de financiamento e deixando o Banco Central “refém” do processo.
Figueiredo classificou o quadro como insustentável e avaliou que, em um horizonte relativamente curto, o país terá de definir se seguirá como uma economia de risco elevado ou se entrará em uma trajetória mais sustentável.
“Isso é claramente insustentável e, muito provavelmente, em algum espaço de tempo, vamos ver se o Brasil será considerado um país de risco muito elevado ou se vai conseguir entrar em uma trajetória sustentável.”
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Segundo o ex-diretor, ainda há espaço para correção por meio de um ajuste fiscal gradual. Ele afirmou que uma redução de cerca de 2,5% do PIB nos gastos públicos, diluída ao longo de dois ou três anos, poderia estabilizar a trajetória da dívida.
“Se isso acontecer, o risco cai, o custo de rolar a dívida também cai. O déficit nominal, que hoje está perto de 10%, viria para algo em torno de 5%. É outro país”, concluiu.