Eleição americana

Joe Biden, o conciliador democrata que ressuscitou na Super Terça

Apesar de às vezes exagerar na tentativa de parecer “gente como a gente”, Biden é a esperança dos democratas que querem um moderado no embate contra Trump

Joe Biden discursa em tribuna
Joe Biden, pré-candidato à presidência dos EUA pelo Partido Democrata. Ex-vice-presidente de Barack Obama (Foto: Página oficial da campanha no Facebook)
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Joe Biden, senador por 36 anos pelo estado de Delaware e vice-presidente nos dois mandatos de Barack Obama, tenta pela terceira vez ser o candidato presidencial do Partido Democrata.

É uma surpresa: pouco mais de uma semana atrás, tudo apontava para mais um inevitável abandono e o consequente fim da carreira política de Biden.

Mas, parafraseando a célebre citação de Mark Twain, “as notícias da morte de Biden foram muito exageradas”. Em uma das viradas mais espetaculares da história da política americana, Joe Biden demonstrou que sua candidatura está mais viva do que nunca.

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As vitórias surpreendentes na Super Terça e o abandono de Michael Bloomberg significam que a candidatura da oposição a Donald Trump ficará entre Biden e Bernie Sanders.

De um lado, está Sanders, o autointitulado socialista democrático que promete uma revolução política, assustando o establishment do partido na mesma medida em que inflama as paixões de uma base jovem e extremamente organizada.

De outro, um político de carreira que conta com a boa vontade conquistada nos anos ao lado de Barack Obama e uma base de sólida de apoio entre a população negra, parcela do eleitorado fundamental para as esperanças de qualquer democrata que queira chegar à Casa Branca.

Biden, um político carismático que às vezes exagera na tentativa de parecer “gente como a gente”, é a esperança dos democratas que querem um moderado no embate contra Trump em 3 de novembro.

Durante boa parte do ano passado, era justamente isso o que diziam as pesquisas. Em um partido fragmentado, com mais de 20 postulantes à indicação – a maioria sem expressão nacional –, Biden era apontado como o favorito.

Essa expectativa se desfez rapidamente, entretanto. Performances abaixo da crítica em Iowa e New Hampshire, rodadas iniciais que servem de termômetro para as primárias, deixaram Biden nas cordas.

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Sua última esperança era uma vitória acachapante na Carolina do Sul, no sábado passado. As pesquisas não eram muito animadoras. Sanders poderia abocanhar parte importante dos votos e estabelecer-se com folga como o grande favorito.

Mas a vitória veio e, com ela, a virada. Pete Buttigieg e Amy Klobuchar, dois centristas que também brigavam pelo voto moderado, abandonaram suas campanhas e anunciaram apoio a Biden.

Três dias depois, numa zebra que será esmiuçada durante anos pelos analistas políticos americanos, Biden ressurgiu das cinzas com um desempenho espetacular na Super Terça.

Para os eleitores que esperavam uma ruptura política ou pelo menos uma cara nova, Biden, 77, será uma decepção.

Mas, conforme a hora da verdade se aproxima, parece claro que um nome capaz de tirar Trump da Presidência interessa muito mais aos eleitores democratas que mais programas de governo, inclinações ideológicas ou esperanças de renovação.

Um político clássico

Joseph Robinette Biden Jr. nasceu em 20 de novembro de 1942 em Scranton (Pensilvânia), cidade que ficou conhecida mundialmente por causa da série de TV The Office.

Seu pai vinha de uma família rica, mas quando Biden nasceu a situação tinha mudado drasticamente. Seu pai trocou a vida dos iate-clubes e de uma casa confortável por um apartamento de dois quartos.

Os Biden se mudaram da Pensilvânia para o pequeno estado de Delaware, no nordeste dos Estados Unidos, onde Joe Sr. recomeçou a vida como vendedor de carros usados.

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Na campanha, candidato cita o pai com frequência. “Joey, o emprego é muito mais que o contracheque. Trata-se de dignidade. Trata-se de respeito’” e “Sem palavra, você não é homem” são apenas dois exemplos de menções a máximas do pai em comícios.

Biden formou-se em história e ciências sociais e depois cursou direito na Syracuse College of Law, onde se formou em 1968. Vem dessa época uma das primeiras polêmicas que lhe custariam caro em sua carreira política.

Em 1987, nas primeiras primárias que disputou, vieram à tona denúncias de que ele tinha cometido plágio em um trabalho da escola. O episódio acabou por forçá-lo a abandonar a disputa, seu primeiro fracasso na política nacional.

Na época, Biden já era senador havia 15 anos. Em sua longa carreira no Legislativo, ele jamais perderia uma eleição: foram seis vitórias consecutivas.

Seu histórico no Senado foi um dos motivos pelos quais ele foi convidado por Obama para ser seu companheiro de chapa. Biden presidiu o importante Comitê de Relações Exteriores durante quatro anos.

Sua experiência com política internacional foi um de seus mantras nos debates com os outros pré-candidatos democratas.

“Passei mais tempo com Xi Jinping [o presidente da China] do que qualquer outro líder mundial”, afirmou o ex-vice no mais recente debate democrata.

No mesmo debate, ele mencionou vitórias obtidas contra o poderoso lobby das armas americano, a National Rifle Association, e mencionou a Lei da Violência contra as Mulheres, projeto do qual ele foi um dos coautores e que foi aprovado em 1994.

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Apesar de não ter recebido o apoio formal de Obama, Biden se refere frequentemente à sua época com “Barack” na Casa Branca.

E, em relação à saúde, um dos tópicos mais quentes da disputa interna dos democratas, ele promete “continuar desenvolvendo” o Obamacare.

A abordagem radicalmente diferente em relação ao problema da saúde nos Estados Unidos é um exemplo que resume as diferenças fundamentais entre Biden e Sanders.

Sanders quer instituir no país um sistema de cobertura universal e gratuita para todos os americanos (estima-se que 27,5 milhões de americanos não tenham plano de saúde).

O ponto crucial é que não haveria mais planos privados, como os oferecidos pelas empresas aos seus funcionários. Toda a cobertura de saúde ficaria a cargo do governo.

Biden, por sua vez, oferece um caminho sem rupturas – com a vantagem de reforçar sua ligação com Obama.

A ideia é essencialmente expandir o Obamacare – um plano baseado em seguros de saúde privados, com subsídios governamentais -, aumentando a contribuição do governo federal.

Além disso, promete o que vem sendo chamado de “opção pública”, um tipo de cobertura destinado a quem não recebe cobertura de saúde com o emprego ou aqueles que não têm acesso aos programas de ajuda para a população mais pobre.

A proposta resume a candidatura de Biden e seu histórico na política: uma tentativa de fazer mudanças de forma conciliatória, sem grandes sobressaltos (mesmo que seu plano vá enfrentar duríssima oposição dos congressistas republicanos).

O grande apelo de Biden – na disputa com Sanders nas primárias e potencialmente na eleição geral de novembro – é a normalidade na Casa Branca.

Mas essa normalidade também será um de seus maiores desafios. Ele precisa atrair os aguerridos apoiadores da revolução prometida por Bernie Sanders.

Biden terá de provar que, como seu rival, ele também é um septuagenário digno de mobilização.

O voto não é obrigatório nos Estados Unidos, e existe a possibilidade real de que os seguidores mais fanáticos de Sanders simplesmente não se sintam motivados a sair de casa para votar no dia 3 de novembro.

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