Investidor estrangeiro não vê razão para “entrar forte” na bolsa brasileira, revela JP

Entrevista com investidores locais e estrangeiros revela preferência por papéis domésticos e sentimento de "esperar para ver"

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SÃO PAULO – Saber a opinião de grandes investidores é algo valioso na hora de se montar estratégias no mercado. E foi na tentativa de descobrir as opiniões de tais investidores sobre o rumo da bolsa brasileira que o JPMorgan entrevistou mais de 40, tanto norte-americanos quanto brasileiros – o feedback do processo foi apresentado em relatório, divulgado na última terça-feira (7).

Antes de abordar as visões coletadas, Emy Shayo Cherman, analista que assina o relatório do JPMorgan, expõe as posições de sua própria equipe acerca do Brasil, em sua maioria, tomadas por um tom de otimismo.

Segundo Cherman, o banco segue vendo um sólido ambiente macroeconômico, com um aperto monetário menor do que se esperava. Além disso, eventos que vêm impactando o mercado brasileiro, como a oferta de ações da Petrobras (PETR4, PETR3) e as eleições “terão sido superadas até o final do mês”.

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No front externo, a expectativa do JPMorgan é de que as perspectivas tornem-se mais claras, traduzindo-se em menor aversão ao risco. Se confirmado, um ambiente de maior apetite entre os investidores seria extremamente positivo aos papéis brasileiros, que na visão da equipe, estão excessivamente descontados.

Norte-americanos e brasileiros: opiniões divergentes
A visão dos investidores estrangeiros entrevistados pelo JPMorgan é mais cautelosa. Para eles, o bom momento macroeconômico vivido já não é novidade, e lembrando da impressionante performance conquistada pelo mercado brasileiro no ano passado, “não há razão para se entrar forte na bolsa a esta altura. Dessa forma, eles têm se mantido neutros desde o começo do ano”.

Em contrapartida, alguns novos fatores positivos foram lembrados pelos investidores norte-americanos, como o esclarecimento das operações em torno da Petrobras, a proximidade do fim das eleições e a política monetária. “Ainda que elevações no juro sejam um possível foco de risco para 2011, a maioria das pessoas não aposta em uma retomada do ciclo de aperto”, afirma Cherman.

Enquanto isso, investidores brasileiros mostram-se em compasso de espera por uma maior definição do humor estrangeiro – ao menos foi essa conclusão do JPMorgan. “O mercado não tem ido a lugar algum este ano, e a falta de convicção dos investidores lá fora deixa a bolsa à deriva”, diz Cherman, que completa: “mais do que qualquer outra coisa, os brasileiros estão aguardando por um fluxo externo mais sólido como catalisador”.

O aspecto político
Além do aspecto macroeconômico, o JPMorgan também perguntou aos investidores suas opiniões sobre o lado político. “Embora as eleições sejam vistas como um evento-chave, não houve muitas questões acerca do processo, provavelmente porque a essa altura já temos um provável vencedor (Dilma Rousseff)”, observa Cherman.

Entretanto, alguns investidores mostraram-se temerosos em dois fronts: o primeiro, a nominação do ministério; o segundo, o grau de interferência do governo no setor privado. “O consenso aponta para o ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci, à frente da política econômica de Dilma. Qualquer surpresa neste aspecto poderia ter um impacto negativo sobre o mercado”, diz Cherman. Quanto a uma “mão mais pesada do governo na economia, o temor não parece ser muito forte”, afirma.

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Escolhas setoriais
Por fim, um grande aspecto abordado por Cherman em seu relatório de estratégia diz respeito às preferências setoriais dos investidores. De modo geral, papéis atrelados ao cenário doméstico são vistos com melhores olhos do que os ligados ao mercado de commodities – visão que vai em linha com a do próprio banco.

Sob esta premissa geral, as ações da Lojas Renner (LREN3) são destaque, com grande preferência nos EUA. Em contrapartida, os papéis do Pão de Açúcar (PCAR5) são vistos com pessimismo, depois “de resultados trimestrais decepcionantes”. No setor imobiliário, PDG Realty (PDGR3) “é o papel escolhido tanto localmente quanto nos EUA”, embora Cherman revele preferência por Gafisa (GFSA3). Em small caps, destaque à Hering (HGTX3).

Entre as instituições financeiras, as ações do Itaú Unibanco (ITUB4) e Bradesco (BBDC4) ganham boas perspectivas dos investidores lá fora e aqui, embora “alguns achem que o setor esteja um pouco caro”. Enquanto isso, o de infraestrutura segue sob ceticismo do mercado, não tendo apresentado bons resultados nem liquidez atrativa em seus papéis. Por sua vez, o setor siderúrgico é tido com pessimismo pela maioria dos investidores, “visão que compartilhamos”, diz Sherman.

Por fim, o JP Morgan dedica um pouco mais de destaque em sua abordagem quanto à Vale (VALE5, VALE3). “Uma parte dos investidores está preocupado quanto a uma crescente intervenção do governo na gerência da mineradora, dado recentes rumores de substituição de seu CEO (Chief Executive Officer) e mudanças na legislação do setor”.