Política

Invasão do Congresso dos EUA gera reações de políticos no Brasil

Episódio reforça posições de distintos atores em questões internas; Bolsonaro repete acusação de fraude em 2018, outros falam em ameaça à democracia

SÃO PAULO – A invasão do Congresso norte-americano por manifestantes apoiadores do presidente Donald Trump, nesta quarta-feira (6), durante a sessão de confirmação da vitória do democrata Joe Biden nas últimas eleições, gerou reações no mundo político brasileiro.

De um lado, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) evitou comentar o episódio diretamente, mas se disse “muito ligado ao Trump” e, sem provas, voltou a afirmar que há “muita denúncia de fraude” sobre a eleição em que o republicano foi derrotado.

“Eu acompanhei tudo hoje. Você sabe que sou ligado ao Trump. Então, você sabe qual a minha resposta aqui. Agora, muita denúncia de fraude, muita denúncia de fraude. Eu falei isso um tempo atrás e a imprensa falou: ‘sem provas, presidente Bolsonaro falou que foi fraudada as eleições americanas'”, disse a apoiadores no Palácio da Alvorada.

O mandatário, também sem apresentar indícios, alegou mais uma vez que fraudes nas últimas eleições presidenciais brasileiras, realizadas em 2018, lhe tiraram uma vitória em primeiro turno. “A minha foi fraudada. Eu tenho indício de fraude na minha eleição, era para ter ganho no primeiro turno”, declarou.

A primeira vez em que Bolsonaro falou em fraude no pleito foi durante uma visita aos Estados Unidos, em 9 de março, no início da crise sanitária global provocada pela pandemia de Covid-19.

Já o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou, mais cedo, que a invasão do Congresso norte-americano por apoiadores de Trump é uma “questão interna”. “São questões internas dos EUA e que terão de ser solucionadas pelo novo governo e de acordo com a lei”, disse ao jornal O Estado de S.Paulo.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), por sua vez, disse que a invasão “por extremistas representa um ato de desespero de uma corrente antidemocrática que perdeu as eleições”. “Fica cada vez mais claro que o único caminho é a democracia, com diálogo e respeitando a Constituição”, declarou em seu perfil no Twitter.

O presidente do Congresso Nacional, senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), chamou o episódio de tentativa de insurreição inaceitável. “As imagens da invasão ao Congresso americano, em uma tentativa clara de insurreição e de desprezo ao resultado das eleições por parte de um grupo, são inaceitáveis em qualquer democracia e merecem o repúdio e a desaprovação de todos os líderes com espírito público e responsabilidade”, criticou.

O ato também foi repudiado pelo secretário de Relações Internacionais da Câmara, deputado Alex Manente (Cidadania-SP). “A soberania popular deve ser respeitada! Qualquer democracia livre e funcional funciona assim”, afirmou, por meio das redes sociais. “Meu repúdio a esse movimento autoritário e anticonstitucional nos EUA”, declarou.

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O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso, chamou os manifestantes de “apoiadores do fascismo” e disse que “pessoas de bem não apoiam a barbárie”.

“No triste episódio nos EUA, apoiadores do fascismo mostraram sua verdadeira face: antidemocrática e truculenta. Pessoas de bem, independentemente de ideologia, não apóiam a barbárie. Espero que a sociedade e as instituições americanas reajam com vigor a essa ameaça à democracia”, disse.

Líderes de diversos partidos na Câmara também se manifestaram sobre o episódio. O líder do PDT, deputado Wolney Queiroz (PDT-PE), criticou a postura de Trump de não aceitar o resultado das eleições e classificou a invasão do Congresso dos EUA como um atentado à democracia. O líder do Cidadania, deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), afirmou que o incidente é um ato “lamentável”.

O líder do Novo, deputado Paulo Ganime (Novo-RJ), ressaltou que a democracia e seus ritos precisam ser respeitados. “Se acreditam que houve fraude, que sejam utilizados os meios legais para contestar. A violência não deve ser o caminho. Que a situação nos Estados Unidos se acalme e a democracia prevaleça”, afirmou o parlamentar.

“São chocantes as cenas da invasão do Congresso nos Estados Unidos por quem não aceita o resultado da eleição. Democracia não se faz na violência. Se faz no debate de ideias, no respeito às diferenças, à vontade do povo e à Constituição”, disse o líder do MDB, deputado Baleia Rossi (MDB-SP).

Em nota, o PSL disse repudiar veementemente a invasão e que o episódio “não condiz com a tradição do país de respeitar as regras do jogo”. “Em uma democracia, não existe nada mais sagrado e soberano do que a vontade popular, expressa por intermédio do voto”, diz.

“Ao se solidarizar com o povo americano, o PSL reforça, perante o povo brasileiro, seu compromisso com a democracia, o respeito ao voto popular e à Constituição Federal. E a certeza de que um país se engrandece diante seus cidadãos não apenas por oferecer condições econômicas para desenvolver-se. Mas, sobretudo, ao assegurar o cumprimento estrito da lei e das regras que norteiam sua carta magna”, continua.

O líder da oposição, deputado André Figueiredo (PDT-CE), disse que a invasão do Congresso americano “tem que ser exemplarmente punida, sob pena de abrir precedentes para outros países”.

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“Lá, assim como aqui, parece que o aparelhamento irresponsável das instituições é uma característica do Poder Executivo. É inimaginável que o Serviço de Inteligência americano não tenha detectado o planejamento desta invasão do Poder Legislativo pelos apoiadores de Trump”, afirmou Figueiredo.

Alguns deputados de oposição afirmaram que as críticas à conduta de Trump se aplicam também ao presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que é aliado do presidente dos EUA. “O que acontece lá serve de exemplo para que afastemos o fascismo e o retrocesso daqui”, disse a deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR), presidente do PT.

A líder do PCdoB, deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC), afirmou que tanto Trump quanto Bolsonaro representam grave ameaça à democracia. Já a líder do Psol, deputada Sâmia Bomfim (Psol-SP), declarou que Trump deveria ser preso por tentativa de golpe nos EUA. “O combate à extrema direita golpista é a nossa tarefa número 1 nos EUA, no Brasil e no mundo todo!”, declarou.

“Os Estados Unidos mostram mais uma vez que nem mesmo a democracia mais estável do mundo sobrevive impunemente ao populismo de direita”, avaliou o líder do PSB, deputado Alessandro Molon (PSB-RJ).

(com Agência Câmara)